Crítica/Entrevista

O adeus de Fellini (mesmo)

Nesta quinta-feira 7-4, a banda de canções imortais como “Rock europeu”, “Chico Buarque song”, “Teu inglês”, “Burros e oceanos” e “Massacres da coletivização” faz o último show da carreira, no Centro Cultural São Paulo

Fellini no Sesc Belenzinho. Foto: Carlos Ximenes

Fellini no Sesc Belenzinho. Foto: Carlos Ximenes

Desde o primeiro álbum o Fellini ensaia o último suspiro. Parece que agora é verdade. Quem sabe? O cineasta italiano Federico Fellini só morreria dali a oito anos, mas em 1985 a banda paulistana liderada pelo carcamano Carlos Adão Volpato já lançava o seu O Adeus de Fellini. O álbum tinha o hit “Rock europeu”, que circulou em esporádicas aparições em rádios como a 89FM, em discos vendidos às dúzias e em fitas cassete que até hoje este Impostor guarda. O grupo fundado por Cadão, o ubíquo guitarrista/baixista Thomas Pappon (que tocou ainda com Mercenárias, Smack e Voluntários da Pátria, além do seu The Gilbertos), o baterista/baixista/tecladista Ricardo Salvagni e o guitarrista Jair Marcos gravaria mais três discos: Fellini Só Vive Duas Vezes e Três Lugares Diferentes, também pela notória Baratos Afins tocada pelo herói indie Luiz Carlos Calanca, e a obra-prima Amor Louco, que saiu pela Wop Bop (o Rodrigo Lariú traça aqui uma excelente timeline do Fellini).

Todos os álbuns contêm gemas pop de sonoridade lo-fi e letras de humor surrealista e niilismo lírico (niilirismo), o que fazia a banda parecer um corpo estranho nos anos 80. Atmosféricos e minimalistas, os microcontos cantados estavam longe de ser letras tão politizadas quanto as de Legião Urbana e Mercenárias (embora Cadão fosse trotskista), nonsense como as do DeFalla ou Titãs, adolescentes como as de Ira!, Ultraje a Rigor, Paralamas do Sucesso ou Blitz, românticas como as de Kid Abelha e RPM, dark como as de Cabine C e Smack ou hippies como as do Violeta de Outono. As letras também não parecem fazer parte da tradição de letras do MPopB; talvez se enquadrem na linhagem do humor ácido paulistano, de Mutantes a Rômulo Fróes, passando por Premeditando o Breque e Os Mulheres Negras.

Som e poesia davam numa atitude desleixada de quem não tinha a mínima ambição de sucesso, tampouco fazia pose de cult; enquanto todos descerebravam com cocaína e álcool, o Fellini viajava de LSD, literatura beat e esquerdismo mediterrâneo (“Ninguém é perfeito/ eu quis ser/ socialista/ Funziona senza vapore“). Não era jogo de cena blasé; era parte do espírito anárquico do grupo, formado por estudantes de classe média da USP de tendências trotskistas e gostos peculiares. Aproximando samba, blues, bossa nova, batidas eletrônicas toscas, cordas limpas, quase sem distorção, mais centradas em riffs e licks distraídos que em solos egocêntricos, fora uns tecladinhos mal-tocados e eventuais gaitas e pentes, tudo congelado na frieza pós-punk inglesa, o grupo guarda uma sonoridade única, imediatamente reconhecível, que remete direto ao período de 1985 a 1990 — uma época em que, como hoje, vivíamos sem esperança, mas também sem temor.

Na horrível era Sarney, o Brasil não sabia como conviver com a liberdade pós-ditadura por conta da asfixia econômica e da pobreza cultural legadas pelos milicos. A MPB zumbizava em rescaldo criativo, o cinema e a literatura estavam moribundos; contudo, ao lado dos quadrinhos de Angeli, Laerte e Luiz Gê, o BRock despontava como grande potência estética do período, fagocitando do punk à new wave, passando pelo reggae, o funk e o pós-punk, embalado por todo tipo de discurso, do peso político ao humor desatinado.

“Deixa a noite reinar de uma vez/ deixa o país inteiro apagar, nega”, pedia Cadão em “Samba das luzes” — um refrão tão adequado aos blecautes de 1989 quanto a este obscuro 2016. Só uma banda pós-punk de São Paulo pode afirmar, negando: o samba é a única salvação para o nosso abismo. O samba, mundo orbitado pelos tropicalistas, nos anos 80 era um tabu brasuca ao qual os roqueiros torciam o nariz — só o encaravam bandas como as paulistanas Fellini e Akira S & As Garotas Que Erraram, a gaúcha DeFalla e a carioca Picassos Falsos; não por acaso, apesar de terem audiência pífia, essas foram as bandas underground mais influentes para a MPopB que surgiria nos anos 90 e 00. Como se sabe, Chico Science, Fred Zero Quatro e Marcelo D2 também tinham aquelas velhas fitas cassetes.

Contudo, o Fellini, grupo em que sobravam referências literárias e cinematográficas, vivia num limbo europeizante então inacessível a um público pobre de links culturais, pré-rede e sem dinheiro pra viajar para EUA e Europa (o rock foi a internet dos jovens dos anos 80). “Você nem imagina o que você não conheceu/ Agora é tarde, é tarde/ meu saco já encheu/ …/ E só dentro de um hospício se vive na América/ Viver num hospício é melhor que num pardieiro?”, Cadão perguntava em “Rock europeu”, zoando nossa condição viralata. Vai ver por isso o ostracismo na época. Vai ver por isso a banda tenha envelhecido tão bem, sem ficar datada: por ter um som já adulto, seus integrantes não se levavam a sério.

Aproveitando as férias do guitarrista Thomas Pappon, que mora em Londres há décadas, o Fellini se reuniu para uma miniturnê pelo Z Carniceria (que ocupa o mesmo espaço do AeroAnta, notória casa de rock nos anos 80/90), o Sesc Belenzinho e o Centro Cultural São Paulo. Berço de muitas bandas nos anos 80, o CCSP deve ser seu túmulo. No entanto, conforme o irônico anúncio que precedia toda apresentação da banda na época — “este é o último show de Fellini” —, tudo pode não passar, mais uma vez, de grandes ilusões, e talvez daqui a uns anos eles voltem com suas inigualáveis e assobiáveis canções. Quem sabe? A seguir, um papo com o hoje professor, escritor e jornalista sessentão Cadão Volpato.

O show no Sesc Belenzinho foi o que mais reuniu gente: umas 500 pessoas. Há 30 anos, os shows do Fellini juntavam no máximo 20 gatos pingados e meia-dúzia de grilos. Vi muito mais jovens do que velhos na plateia – gente que nem havia nascido nos anos 80. Descontando os mortos e os que têm preguiça de ir ao Belenzinho, como você entende que a banda tenha ganho fãs tão jovens? Na verdade, tocamos pra mais gente em duas ocasiões: Porto Alegre (1990) e Tim Festival (2003). Mas nunca vi uma plateia tão entusiasmada, tão saudosa de algo que muito ali não chegaram a viver. É a força dos discos, passados de pai pra filho. E da internet, onde você encontra e baixa todos eles de graça. É a nossa vingança por nunca ter conseguido ganhar dinheiro com esse negócio. E também tem a ver, modestamente falando, com a beleza e o mistério do trabalho, que não se esgotaram ainda.

O show de sábado foi histórico: em 26 anos, vocês nunca haviam tocado na íntegra O Amor Louco. Como você era quando gravou o disco? O que lia, o que escrevia, a que filmes assistia? Quais eram as aspirações e sonhos dos integrantes da banda à época? Eu era, em 1989, um cara apaixonado. Queria ser escritor, mas não passava de um letrista, de um eventual desenhista de capas coloridas. Era fã do Fellini, claro, tanto quanto de Jean Vigo (“Zero de Comportamento”), Truffaut (qualquer um de seus filmes, dos quais ainda sou devoto) e Jacques Tati (não mudei nada em relação a ele — só aumentei o afeto). Era leitor de poesia: e.e. cummings, Maiakóvski, os italianos metafísicos (Ungaretti, o principal), os beats (notadamente o Allen Ginsberg), André Breton (“Nadja”, uma novela-poema) e sempre o Manuel Bandeira, que aprendi a amar desde o colégio. Num mundo perfeito, estas seriam minhas influências. E tem o Cortázar, amor de adolescência. Acho que andava escondendo o quanto gostava de “Milagre dos Peixes”, do Milton Nascimento. Ainda gosto, mas não escondo mais. Quanto à banda, sempre foi e sempre será independente. Do sucesso, inclusive.

E como é revisitar o Cadão de 30 anos atrás? Você se identifica ainda com aquelas canções? Acho que hoje eu até gosto mais delas. A emoção foi genuína. Foi um momento especial. Duvido que se repita.

Para a MPopB, o Fellini tem uma importância semelhante à do Velvet Underground no rock dos anos 70: fez sucesso de crítica mas zero de público, no entanto influenciou músicos importantes – o mais notório é a Nação Zumbi; Chico Science, fã arrebatado, gravou “Criança de domingo” (que vocês tocaram no Recife no carnaval de 1998, me corrija se estiver enganado porque no dia eu tinha tomado um LSD, era segunda-feira e já faz alguns anos). A que se deve essa influência? Não tocamos “Criança de Domingo” no Recife [update: o show foi em 2000]. Essa música é do Funziona Senza Vapore, o projeto meu, do Ricardo Salvagni, do Jair Marcos e da Stella Campos que sucedeu ao Fellini. Curiosamente, o Afrociberdelia faz 20 anos em 2016, o ano em que a Céu gravou “Chico Buarque Song” e nós fizemos esses shows que, espero, vão ficar na memória das pessoas. Sei que o pessoal do manguebeat ouvia a gente na praia. Não é legal?

Cadão no Z Carniceria. Foto: Anna Paula Bogaciovas

Cadão no Z Carniceria. Foto: Anna Paula Bogaciovas

Como foi voltar ao AeroAnta, agora sob o nome de Z Carniceria? Se não me engano teve shows de vocês lá, no Madame Satã, no Napalm (ou foi no Carbono 14?), no Centro Cultural SP, no Sesc Pompeia… foi isso? Vocês não fizeram mesmo muitas apresentações nos anos 80. O Fellini deve ter tocado no máximo umas 30 vezes? Este show vai ser o último mesmo? O Z Carniceria lembra um pouco o extinto Kenny’s Castaway, em Nova York, onde eu e o Thomas Pappon tocamos em 1990. Engraçado, não tem nada de AeroAnta, mas é bem legal, bem rock’n roll. Nunca tocamos no Carbono, mas das outras bibocas todas fomos fregueses. A impressão que eu tenho é de que tocamos muito, mas você deve estar certo. Acredito piamente que este show do Centro Cultural São Paulo será o último da carreira. É um tipo de ápice pra nós, o carinho dos fãs que retorna pra ficar. E é bom não brincar com ele.

Você conviveu, nos anos 80, com o Renato Russo (conforme conta nessa divertida matéria na piauí). Como analisa esses revivals da Legião Urbana tocados por inúmeras covers? Já pensou se alguém um dia cria a Fellini Cover? Vira-e-mexe alguém toca alguma coisa do Fellini, não vejo mal nenhum nisso. Agora, a Legião Urbana arrebatava multidões. Acho que vai continuar arrebatando por muito tempo, embora o aspecto messiânico do derradeiro Renato Russo seja o menos interessante da banda. Eu me lembrarei deles enquanto trio, sem sermão.

Você ainda acompanha o rock underground? O rock alternativo dos anos 80 era muito rico, mais até do que o rock mainstream, e continua sendo desencavado (no show de sábado vi vinteanistas com camisetas do Finis Africae, da Plebe Rude e do Cabine C). Por que não temos uma cena independente com aquela variedade e aquela força? (OK, eu sei que é pergunta de tiozinho…) Não acompanho o rock alternativo. Aliás, ouço pouca música hoje em dia, um fenômeno que também atingiu o Thomas Pappon e o Ricardo Salvagni. Por que será? E acho que os anos 80 foram supervalorizados. Tinha muita coisa ruim ali, debaixo do mesmo guarda-chuva.

As letras do Fellini são muito diferentes das letras de outras bandas da época. Podem ser lidas como poemas. Você nunca pensou em lançar um livro de poesia? Já pensei, mas creio que a minha praia é a das letras. Ou foi. Você ouve e elas escapam. Depois, você sonha com elas, vive com elas, elas aparecem na sua vida, em determinados momentos. Aconteceu com esses velhos e jovens roqueiros que estavam nos shows. Isso ninguém me tira. E poeta ainda é uma palavra que me envergonha um pouco. Poeta é o Drummond: “Repara que há veludo nos ursos”.

O Fellini lançou mais um disco em 2010. Vocês pensam em gravar coisas novas, ou ainda têm sobras de estúdio? Não, nada de novo nunca mais.

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