Crítica

Cervantes, João do Rio, Beckett, Crumb

As águas de março vêm fechando o verão e trazendo de volta clima ideal pra você fazer a única coisa que realmente presta na vida: ler. Entre ficção brasileira, estrangeira, poesia, infanto-juvenil e HQ, eis 25 lirros (você também pode decorar as resenhas para usar em festinhas, por exemplo)

FICÇÃO GRINGA

ilustração de Vânia Mignone para a bela edição de Cervantes

ilustração de Vânia Mignone para a bela edição de Cervantes

 

Humor para explicar o mundo novo

As hilárias Novelas Exemplares voltam a circular em edição que demonstra a atualidade e a ousadia de Cervantes

“Chamei-as de Exemplares, e, se olhares bem, verás que não há nenhuma de que não se possa tirar algum exemplo proveitoso”, adverte Miguel de Cervantes do hilário prefácio às Novelas Exemplares, reunião de contos que, defende, “são os primeiros escritos em língua castelhana, não imitados nem furtados”. Estamos em 1613, época convulsiva na Espanha, e Cervantes, já perto dos sessenta anos, oferece seu trabalho para “as horas de recreação, para que o espírito aflito descanse”. Não seria exagero afirmar que o pai de Dom Quixote estabeleceu aqui a literatura de entretenimento — conforme adverte a professora da USP Maria Augusta da Costa Vieira no posfácio.

Antierudito, o cavaleiro Cervantes mira o leitor “discreto, capaz de apreciar os detalhes dos artifícios utilizados, e ao mesmo tempo, o leitor vulgar, preocupado unicamente com o valor anedótico da história narrada”. Nesta coleção de textos realistas — ou quase —, o leitor encontra 12 divertidas histórias sobre os amores de uma ciganinha, uma jovem estuprada que será vingada, um velho rico e possessivo que se casa com uma adolescente, dois pícaros que em Sevilha se juntam a uma gangue, um jovem estudante que surta e acredita ser de vidro, um diálogo entre dois cães filósofos… “uma obra que em seu conjunto detalha as mais variantes vertentes da vida humana”, diz Maria Augusta. Drama, comédia, aventura, amores, crimes, ação, reflexão, tudo sob a lente do humor — e da empatia. No brilhante ensaio final, o tradutor Ernani Ssó aponta para a importância das mulheres na obra de Cervantes. Além da idealizada Dulcineia, o autor trata de problemas da sociedade patriarcal, e, mais que meras fantasias, suas personagens mulheres são protagonistas das narrativas, paradoxais seres de carne e osso, com múltiplos questionamentos. “Apesar de todos os preconceitos de seu povo e sua época — que não viam o gigante Briareu num moinho, mas viam um demônio asqueroso numa linda donzela — , Cervantes conseguiu perceber a realidade com lucidez, também através dos olhos das mulheres”. A presente edição, que se apresenta como a definitiva em português, tal o capricho com que foi tratada pela finada Cosac Naify, tem ainda a sorte de contar com as belas ilustrações da artista plástica Vânia Mignone.

 

A mulher que era homem e vice-versa

Conforme lembra Silviano Santiago no posfácio, além da óbvia importância literária, este revolucionário romance é o marco zero da teoria queer, que afirma que a orientação sexual e a identidade sexual ou de gênero são o resultado de um constructo social: não há papéis sexuais essencial ou biologicamente inscritos na natureza humana. Pai, ou melhor, mãe de todos os personagens trans na literatura, Orlando afinal ganha uma versão definitiva em português. Publicado em 1928, o livro é o maior sucesso de vendas na carreira da “difícil” Virginia Woolf — o adjetivo é colocado por terra pelo humor e a leveza com que a autora trata esta narrativa, que não tem nada de realista. Afinal, o protagonista oscila entre os gêneros masculino e feminino e, em apenas 36 anos, vaga por três séculos, da era elisabetana até o ano de 1928 — ano, aliás, em que Virginia encerra seu longo caso com a também escritora Vita Sackille-West. Não só a História do mundo atravessa o corpo mutante de Orlando, como também os estilos literários e os zeitgeist das eras por onde desfila a verve desta singular vampira. > Orlando, uma biografia, de Virginia Woolf (trad. Tomaz Tadeu), Autêntica

 

Prosa descarnada

Diz-se de Woody Allen que mesmo seus filmes ruins são melhores que 99% do que está em cartaz. O mesmo ocorre com Samuel Beckett, um dos principais narradores do século 20. Este “Ossos de eco” é um de seus textos mais esquisitos, e teve muita dificuldade em ser publicado — como de resto quase toda a obra beckettiana, desde o início. Foi, afinal, o conto limado da coletânea More Pricks Than Kicks, um dos primeiros livros do então secretário de James Joyce, nos anos 30, e portanto um de seus textos mais joyceanos: “Tanto num nível verbal quanto estrutural, ele reúne várias fontes, da ciência e da filosofia à religião e à literatura”, conta o crítico Mark Nixon no prefácio; “conto feito de ecos, de alusões a múltiplos contextos culturais”. Narra-se aqui a ressurreição de Bellacqua e seu encontro com uma prostituta; em seguida o gigante D’Artemísia, estéril, pede auxílio a Bellacqua para engravidar sua mulher, Lady Gall; no fim, Bellacqua, agora pai, assiste a um coveiro roubar seu túmulo — “Os mortos morrem mal” é a sedutora frase de abertura. Humor negro, angústia mórbida, perversidades sexuais e múltiplas referências (todas superdecodificadas com maestria pelos irmãos tradutores) assombram o jovem Beckett — e o leitor. > Ossos de Eco, de Samuel Beckett (trad. Caetano & Rogério W. Galindo), Biblioteca Azul

 

Apocalipse cinematográfico

Quando começou a elaborar sua novela mais famosa, o roteirista novaiorquino Nathanael West vivia, como o protagonista, o pintor Tod Hackett, em quartinhos no Hollywood Boulevard, onde conheceu aspirantes ao sonho do starsystem — atrizes prostitutas, palhaços fracassados, cretinos fundamentais como Homer Simpson (sim, o original) que desandam para o crime. “Seus personagens perambulam em um mundo destroçado por um caos econômico absoluto e pela esperança em dias melhores, pela fantasia de sucesso ou de recuperação diante do existencialmente irreparável”, escreve Alcebíades Diniz no posfácio à bela reedição de O Dia do Gafanhoto (que inclui sete contos). Neste vasto painel das misérias humanas que vivem a Depressão dos EUA sob o Sonho Americano, West recorre à bíblica parábola da praga dos gafanhotos para dar sua visão da nascente — e autodevoradora — sociedade do espetáculo. Há, nesta obra seminal da literatura norte-americana do século 20, a confluência da tragédia grega com a experimentação das vanguardas dos anos 20, em especial o surrealismo, que surge pela força visual da narrativa — em destaque o apocalíptico final. > O Dia do Gafanhoto e Outros Textos, Nathaniel West (trad. Alcebíades Diniz), Carambaia

 

Vai pra Cuba!

Após o sucesso de O Homem que Amava os Cachorros, romance de ficção dominado pela figura de Trótski — e, por extensão do trotskismo, tema suficiente para despertar paixões —, o cubano Leonardo Padura infiltra-se em outro tema complicado: o judaísmo em Cuba. São três histórias entrelaçadas com engenho: um garoto judeu tenta refugiar-se em Havana durante a Segunda Guerra; uma jovem cubana emo luta para defender amores e melancolias; um detetive que rastreia o paradeiro de um quadro de Rembrandt desaparecido de um leilão. O detetive, por supuesto, é Mario Conde, estrela dos romances policiais de Padura, e responsável por costurar as três histórias. O título se explica na força libertária da heresia frente à hipocrisia: cada protagonista é um personagem que confronta a realidade ao redor. Um grande romance que concilia o social, o histórico e o policial. > Hereges, de Leonardo Padura (trad. Ari Roitman e Paulina Wacht), Boitempo

 

Kasato Maru

Três novidades expõem a diversidade literária do Japão

Ladies first, afinal #agoraéquesãoelas. Tsugumi, de Banana Yoshimoto, é um romance de 1989 só hoje traduzido por aqui — antes, a filha de Takaaki Yoshimoto havia publicado Kitchen, seu impactante livro de estreia, de 1988. Espera-se que prossiga a publicação das obras de lady Banana, uma das autoras mais célebres do Japão, conhecida por suas heroínas sempre fortes e ambíguas. Como Tsugumi, uma adolescente tão bela quanto desagradável, tão cruel quanto frágil física e emocionalmente. O livro é narrado por sua prima Maria (nomeada em homenagem à Virgem), que sai de Tóquio para passar as férias em sua cidade natal, numa pousada paradisíaaca onde vive Tsugumi. As férias acabam por ser um rito de passagem para ambas as garotas. Contado de modo direto e com várias passagens cômicas, o livro tem leve tom infanto-juvenil e é um registro do efervescente Japão dos anos 80.

Já o romance de Julie Otsuka é outro papo. Pra começar, nem japonesa ela é: nasceu na californiana Palo Alto em 1962, e escreve em inglês. O eixo de sua literatura, porém, são as conflituosas relações entre nipo-americanos e o American Dream. Em 1942, por conta da paranoia após o ataque a Pearl Harbour, cerca de 120 mil nipo-americanos foram deslocados para campos de concentração no Utah — fato histórico vergonhoso pouco divulgado pelos EUA. Em Quando o imperador era divino, uma próspera família de ascendência japonesa vivendo em Berkeley é destruída quando o pai é levado pelo FBI em plena véspera de Natal. Meses depois, a família é levada a um campo de concentração, onde passa anos em condições sub-humanas, vivendo de carne de cavalo sob um frio cortante. A terrível narrativa é torcida em diversos pontos de vista — das crianças, da mãe e até dos cidadãos nipo-americanos na terceira pessoa do plural, artifício incomum também usado no tristíssimo O Buda no sótão, multipremiado romance que se segue a este. O tom frio, chapado, e a linguagem despida de ornamentos tornam mais tenebrosas as hostilidades dos norte-americanos sobre seus até então confrades, vizinhos, amigos, colegas, compadres, amantes e familiares nipo-americanos.

E agora, algo totalmente diferente: um homem falando de mulheres com ternura, mas sem perder a timidez jamais. Depois do ambicioso porém algo irregular 1Q84 (começa muito bem nos dois primeiros mas no terceiro dá uma descambadinha), Haruki Murakami, eterno favorito ao Nobel, retorna às livrarias com uma seleta de contos que lembra o tom agridoce de Norwegian Wood, porém temperado pela maturidade, o que não exclui momentos de lirismo: “Somente os homens sem mulheres conseguem compreender o tamanho da dor e do sofrimento de ser homens sem mulheres. É perder o vento encantador do oeste. É ser privado para sempre — um bilhão de anos talvez seja um tempo aproximado de ‘para sempre’ — dos catorze anos. É ouvir o canto melancólico e doloroso dos marinheiros ao longe. É se esconder no fundo do mar escuro junto dos amonites e celacantos. É ligar depois da uma da madrugada para a casa de alguém. É receber um telefonema depois da uma da madrugada. É marcar um encontro com um desconhecido em algum lugar entre o conhecimento e a ignorância. É derramar lágrimas na pista seca enquanto calibra o pneu”, escreve ele no conto-título, em que o narrador relembra, com graça e dor, de uma ex-namorada que se suicidou.

“Sherazade” é isso mesmo: a história de uma mulher que entrelaça sua compulsão narrativa ao sexo. Em “Drive my car”, um ator famoso em busca de um motorista recebe a inusitada candidatura de uma moça  — e aqui temos de novo os Beatles sobrevoando a escrita do mais roqueiro dos escritores japoneses; outra música do quarteto de Liverpool ressurge em “Yesterday”, em que um sujeito que escreveu uma letra japonesa para o hit pede ao narrador que transe com sua namorada. Em “Samsa apaixonado”, um inseto se transforma no famoso personagem de Kafka (outra obsessão que retorna, lembre-se o genial Kafka À Beira-mar, talvez seu melhor romance). “Órgão independente” é sobre um cinquentão obstinadamente celibatário que surpreendentemente se apaixona. “Kino” narra a rotina atribulada de um homem que se separa de sua mulher e compra um bar (que ecoa uma experiência pessoal de Murakami. Sete contos que nos devolvem a um universo tão conhecido, habitado por frases ligeiras e singelas, diabólico encadeamento de parágrafos, perspectiva nonsense e desencantada do mundo, corte preciso das imagens — e aquela linguagem meio muzak subitamente cortada por uma irrupção de poesia, de humor ou do fantástico. > Tsugumi, de Banana Yoshimoto (trad. Lica Hashimoto), Estação Liberdade / Quando o imperador era divino, de Julie Otsuka (trad. Lilian Jenkino), Grua/ Homens sem mulheres, de Haruki Murakami (trad. Eunice Suenaga), Alfaguara

 

Alien a bordo

É dos mais antigos da literatura o tema do duplo, ou döppelganger — denominação germânica para um maléfico ser fantástico que duplica e segue alguém como uma sombra. Foi visitado por Guimarães Rosa no conto “O outro ou o outro”, Poe em “William Wilson”, Borges em “O outro”, Maupassant em “O Horla”, Dostoiévski em O Duplo… O anglo-polaco Joseph Conrad também trilha este labirinto de espelhos na noveleta O passageiro secreto, escrita por volta de 1880. Um jovem capitão de um navio que singra as águas misteriosas da Tailândia é visto com olhos desconfiados por sua tripulação. Certa noite, recolhe do mar um homem — muito parecido com ele — que confessa ter fugido de outro navio por ter cometido um assassinato. Em uma decisão injustificável, o capitão esconde o assassino no navio. No característico estilo descritivo de Conrad, o livro transita entre thriller psicológico e aventura náutica: por que o capitão ajuda o criminoso? Conseguirá ocultá-lo da tripulação? Qual a real natureza da relação entre ambos? O livrinho ganhou edição genial: as folhas são duplas, e entre página e outra há um desenho de Adrianne Gallinari; o exemplar vem acondicionado — ou melhor, escondido — numa bela caixinha. O leitor desnorteado ganha ainda um glossário de termos náuticos. > O passageiro secreto, de Joseph Conrad (trad. Sergio Flaksman), Cosac Naify

 

Dupla da pesada

Essa é daquelas edições do tipo cremosa-e-crocante, perfeita pra presentear: fininha, bem ilustrada, fonte grande, arte classuda, tradução esperta e na capa um par de medalhões de aura maldita. Admiradores mútuos, Charles Bukowski e Robert Crumb se juntaram, entre 1975 e 1984, nesta tríplice parceria: “Traz teu amor pra mim”, “Não tem negócio” e “Bop bop contra aquela cortina”. O excelente primeiro conto, tão engraçado quanto patético — mistura difícil em que Buk era mestre — , conta a penosa visita do amante à amada em uma clínica para doentes mentais. O segundo enquadra Manny Hyman, um comediante de stand-up absolutamente sem graça (como os que frequentam nossa TV aberta), em uma noite azarada em Las Vegas — a precisa imagem de Manny ao espelho, mexendo na língua viscosa por conta do alcoolismo, é um dos retratos mais conhecidos que Crumb fez de Bukowski. O terceiro nem é dos melhores do velho beberrão, mas vale pelo registro memorialístico da adolescência — quando começou a beber, fumar, furtar, frequentar prostitutas e exercer sua indomável iconoclastia. > Traz teu amor pra mim e outros contos, de Charles Bukowski, com ilustrações de Robert Crumb (trad. Joca Reiners Terron), Livros da Raposa Vermelha

 

Empoderada

A capa é uma droga e a edição é tosca; parece impressa em fotocopiadora. Mas não ligue para isso: Pérez-Reverte é um dos principais narradores colombianos contemporâneos, e este livro, “que deu origem à série de TV” blablablá (essa expressão já deve vir como um atalho no teclado de editores preguiçosos), tem uma narrativa veloz, objetiva e com sangue nos olhos — lembra às vezes o incrível paraense Edyr Augusto Proença, no ritmo e na secura. Difícil largar um livro que começa com a seguinte frase: “O telefone tocou e ela compreendeu que iam matá-la”. Pelo apego à realidade imediata e pelo dom de construir ganchos e memoráveis cenas de sexo e violência, é uma espécie de Rubem Fonseca que tivesse sido vitaminado pelo jornalismo investigativo — PR é um jornalista superpremiado. A trama aqui romanceia a vida de Teresa Mendoza, a Mexicana, uma jovem que fugiu dos cartéis mexicanos para se tornar a maior traficante da Europa. Como dizem os editores preguiçosos, o livro foi “baseado em fatos reais” bem como em uma minuciosa pesquisa de campo.> A Rainha do Tráfico, de Arturo Pérez-Reverte (trad. Antonio Fernando Borges), Record

 

Coleção de desesperos

Stefan Zweig é mais conhecido por dois fatos infelizes: o de ter cunhado a expressão Brasil, País do Futuro, quando de sua primeira visão da tupiniquinlândia (esperamos esse futuro até hoje), e por ter se suicidado em Petrópolis (em tempo: um fato não tem nada a ver com o outro). Felizmente a Zahar tem divulgado a obra deste grande intelectual judeu austríaco, que viveu a efervescência cultural vienense no início do século antes que a bela cidade tivesse o nome manchado pelo medíocre pintor Adolf Hitler. Este volume reúne suas narrativas fantásticas, escritas em estilo sóbrio, todas crivadas por muita referência erudita. Cada texto é acompanhado por um saboroso comentário do jornalista Alberto Dines, que além de posfaciar a obra também biografou o escritor — a quem adjetiva como “um sereno colecionador de desesperos”. Destaque para “A coleção invisível”, sobre um colecionador de obras de arte que ficou cego — mas que segue fruindo com prazer a “visão” dos quadros que a família, na verdade, vendeu para pagar dívidas. Uma história desesperadora, porém contada com serenidade — como quem escolhe o paraíso para morrer. > Novelas Insólitas, de Stefan Zweig (vários tradutores), Zahar

 

Fossa sem fim

Depois do sucesso de Karl Ove Knåusgard, outro norueguês vem aportar ao português: Jon Fosse, eternamente cotado ao Nobel. Melancolia é seu primeiro romance a circular no Brasil — onde é conhecido pelas peças de teatro, comparáveis em densidade a Ibsen —, e por óbvias razões estilísticas o leitor o posicionará ao lado de grandes como Samuel Beckett e Thomas Bernhard. A primeira parte, narrada na primeira pessoa, nos aprisiona na mente de um sujeito obsessivo, neurótico e desagradável — a sensação é de que mergulhamos em areia movediça. Hertervig é um pintor de paisagens nascido em 1830 que vai estudar em Düsseldorf; as dúvidas sobre seu talento e sobre o amor de Helene o corroem, dando à escrita um ritmo alucinatório, muito devido às frases curtas e repetitivas e às espantosas imagens mentais criadas pelo narrador à medida em que ele vai perdendo a razão. Depois de quase 300 páginas, já em 1902, surge um narrador na terceira pessoa, que segue a irmã de Hertevig alguns anos após a morte do pintor; pelas 100 páginas seguintes, a escrita circular e hipnótica da primeira parte deixa de ser claustrofóbica para se tornar arejada, encantatória e evocativa. Um impressionante retrato do artista enquanto louco. > Melancolia, de Jon Fosse (trad. Marcelo Rondinelli), Tordesilhas

 

FICÇÃO BRASUCA

o projeto gráfico sóbrio tem elementos arquitetônicos da Belle Époque

o projeto gráfico sóbrio tem elementos arquitetônicos da Belle Époque

 

Flâneur fundamental

Caixa chique com três volumes reúne o melhor de João do Rio, o mais fino escritor da nossa belle époque

Dito “o pai da crônica”, este gênero tão afeito à nossa proverbial preguiça e talento para o papo furado, João do Rio é agraciado com uma caixa reunindo seus principais escritos. A bela edição da Carambaia — pequena casa que vem tomando o lugar da finada Cosac Naify no capricho em publicar — junta, em três volumes, não só as crônicas do jornalista carioca, como também seu teatro e seu folhetim. O recheio da linda caixinha art déco foi organizado por Graziela Beting, que doutorou-se em Paris (bien sûr) justamente com uma tese sobre crônicas, folhetins e João do Rio, o mais afrancesado dos nossos escritores. Ou seja: o leitor está em ótimas mãos.

João do Rio foi o principal jornalista brasileiro em sua época. Gay, dândi, sofisticado mas com um pé na cozinha (o politicamente correto ainda me deixa usar essa expressão?), era ao mesmo tempo descendente de negros recém-libertos e de brancos oligarcas, políticos influentes. Daí portanto seu livre trânsito na fervilhante Rio de Janeiro do anos 1900/10, das favelas aos salões, das ruas aos gabinetes, dos miserávei aos burgueses. É do choque social que João do Rio extrai a tensão de suas narrativas, sempre híbridas. Primeiro repórter moderno, João do Rio — pseudônimo de Paulo Barreto — gastava as solas dos sapatos atrás de boas histórias, ao contrário da maioria de seus pares, que ficavam mofando nas redações. Além de primeiro repórter, João do Rio foi também um precursor do new journalism, estilo que aplica ao jornalismo técnica literárias como diálogos, descrições extensas, mistura de opinião com apuração, detalhamento de perfis psicológicos, etc. Foi também o mais jovem autor a entrar na Academia Brasileira de Letras, com apenas 29 anos.

Buscando na realidade direta os temas para sua ficção, João do Rio cometeu reportagens-conto — subgênero que nos anos 60 foi praticado por monstros como Plínio Marcos e João Antônio e hoje está praticamente desaparecido da imprensa brasileira — e formulou a crônica conforme a conhecemos hoje. Um gênero impressionista, com muito humor, em que o narrador é ao mesmo tempo personagem, com olhar para a realidade direta, atualidades e causos colhidos na calçada, e ao mesmo tempo a leveza típica do flâneur, o homem que vem e que passa — o autor aliás adorava usar a palavra flânerie, a andança baudelairiana, para praticar a nobre arte de andar nas ruas do Rio de Janeiro. Sem João do Rio não haveria Rubem Braga ou Paulo Mendes Campos, ou, contemporaneamente, Fabrício Corsaletti e João Paulo Cuenca, notórios andarilhos da crônica. Mais da metade das crônicas aqui reunidas é inédita em livro; a organizadora fuçou tanto nos 25 livros publicados por João do Rio quanto em revistas e jornais da época.

No volume dedicado ao folhetim, há duas noveletas: A Profissão de Jascques Pedreira e Memórias de João Cândido, o Marinheiro. O primeiro retrata um garotão do high society carioca, cujo pai, um advogado lobista com livre trânsito entre políticos, lhe manda arranjar um emprego. Até o próprio João do Rio era personagem, sob a pele de Godofredo de Alencar, repórter que apareceria em outros textos. O folhetim era publicado aos rodapés da primeira página da Gazeta de Notícias, dois dias por semana, e fez enorme sucesso. Fora do jornal, impresso como livro, o folhetim praticamente não foi lido em vida, pois foi impresso com muitos erros tipográficos e João do Rio recolheu todos os exemplares e mandou-os à guilhotina — sobrou um único exemplar, sobre o qual se fez esta edição. O outro texto tem importância histórica pois se trata de um longo perfil do “almirante negro” João Cândido, o líder da Revolta da Chibata. Um texto também controverso, em que João do Rio usou uma entrevista com Joâo Cândido e seus diários, publicando o folhetim sem assinar. Somente em 2009 é que o texto voltou a ser estabelecido conforme se lê nesta edição.

Por fim, o teatro. A Bela Madame Vargas foi escrita em 1912 e estreou com grande estardalhaço, pois retratava um crime passional ocorrido na Tijuca em 2006: viajou por Europa e EUA e teve presidentes e ministros em sua plateia. Eva — A Propósito de Uma Menina Original, outra comédia de costumes, aborda a história de uma filha de fazendeiros paulistas que convida amigos para passar uma temporada em sua propriedade; ali ocorrem casos de amor e crimes. Foi outro sucesso de crítica e público. Outras peças inéditas, como As Quatro Fases do Casamento e Que Pena Ser Só Ladrão!, nunca foram encenadas; como seus outros sucessos, aguardam o olhar de um diretor contemporâneo cuja curiosidade não tenha ficado na Broadway. Complementando a edição, há duas entrevistas com João do Rio especificamente sobre sua defesa ardorosa do teatro — foi ele o primeiro presidente da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais. Diante de tal material, fica pequeno o epíteto “pai da crônica” a uma das figuras mais inventivas da literatura brasileira.

 

Ficcionalmente inviável

O confronto é um lugar confortável para a ficção de Beatriz Bracher, dos traumas do romance Não falei às tretas de Cronicamente Inviável, filme de Sergio Bianchi roteirizado por ela. Neste romance, ao conflito social, perene em sua obra, adicionam-se embates entre corpo e alma, ideal e “real”. O espaço é Copacabana, bairro carioca definido pelo confronto entre classes. Félix é um estudante de letras, epiléptico, classe média, branco, bissexual, obcecado por sexo e pelo Paraíso Perdido, célebre poema de John Milton sobre o qual escreve uma tese. Vanda é legista no IML, trabalha também em uma academia de ginástica, é negra, de classe baixa e está grávida — até o último dia de gestação desfila seu bebê entre cadáveres —, mas não sabemos quem é o pai de sua criança. Dois personagens tão dessemelhantes — quanto Adão e Eva, ou quanto Lúcifer de Deus — convivem no mesmo prédio; um incidente os aproxima. A voz dura de Beatriz, no presente, às vezes deixa que algum lirismo faça respirar a narrativa. Um livro perturbador — como devia ser o mundo, antes da queda do anjo. > Anatomia do Paraíso, de Beatriz Bracher, Editora 34

 

Cabô o sonho, sinhô

A gente nunca sabe como é que certa coisa começou até que ela se converte em segunda pele — e dela não se consegue escapar. É a prisão que envolve o “homem de que trata este relato”, anônimo protagonista, um metalúrgico filho de metalúrgicos, que vive em uma casa financiada, tem um automóvel cujo financiamento ainda paga, eletrodomésticos financiados, e resolve financiar a construção de uma piscina — sonho que poderá afogá-lo. A ascensão da classe C, a euforia da Era Lula, que levou o país a ocupar o sexto lugar entre as economias do planeta (a esta altura já devemos ter caído para o nono) e a escalada política das igrejas neopentescostais são os panos de fundo de Luxúria, retorno de Fernando Bonassi ao romance após uma década (em que esteve mais ligado a TV, ao cinema e ao teatro). A ironia dura e o realismo atroz enquadrados por Bonassi tornam a leitura do romance às vezes irrespirável — e só piora notar que aquele Sonho Brasileiro, tal como a piscina do protagonista, deu com os burros nágua. > Luxúria, de Fernando Bonassi, Record

 

Bandeira suja, amor

“A corrosão das imagens é também a corrosão das linguagens e dos projetos poéticos que já foram heroicos em outros tempos”; com essa metáfora feliz José Miguel Wisnik apresenta o primeiro livro do poeta João Bandeira após décadas de silêncio — e observação. De fato, “corrosão”, expressão simbólica que contamina a obra poética de Drummond (“uma corrosão no sentido literal, socioeconômico — a serra sendo corroída pela retirada do minério — e uma corrosão metafórica — a alma corroída do itabirano, uma vez que procura a ‘sua’ serra, a qual lhe parecia eterna, e não mais a encontra”, conforme a pesquisadora Letícia Malard), é também o oculto leitmotiv deste caleidoscópico Quem Quando Queira. “Ela sim/ calou/ — consigo quanto/ de tudo/ o que passou? —/ agora vai/ saber então/ onde fica/ como foi/ depois”, diz um poema da primeira parte, lírica de fundo amoroso. “Um superlullaby para sem-tetos resignados transexuais/ indecisos negros injuriados e policiais sem desejo/ por entre brisas de xixi e os perfis de altos edifícios”: o poema da segunda parte — discursiva, tal a terceira — lembra que todo paraíso tem limites. Na quarta parte, Bandeira, bandeira das poéticas de Arnaldo Antunes e Nuno Ramos, cria diálogos-homenagens a Waly Salomão, Waltercio Caldas, Joan Brossa e Lorenzo Mammì (que em versos como “como se/ o mais difícil/ se transfigurasse/ no mais fácil” configura profissão de fé na arte). Na quinta parte, a corrosão demonstra-se em ready-mades: imagens de velhos lambe-lambes que flagram restos da nossa linguagem — muros tentando falar, ou já esquecendo o que iam dizer. > Quem quando queira, de João Bandeira, Cosac Naify

 

Cheia de prosa

A autoficção — esta praga que grassa pelo ambiente literário propondo mais “realidade” do que invenção — felizmente encontrou expressão inventiva no segundo romance do catarinense Carlos Henrique Schroeder (As Fantasias Eletivas). No entanto, o narrador — homônimo do autor, e morador, como ele, de Jaguará do Sul, e como ele também editor e escritor — prefere se ater mais à realidade à sua volta do que divagar entre os flunfos do seu umbigo. Sua escrita cristalina e sagaz turva-se sob as enchentes que mataram dezenas em Santa Catarina, lamenta — e documenta — a extinção dos teatros de bonecos do interior do país, simbolizada na morte de um parceiro, por afogamento, e ainda tem que se ver com a montanha-russa emocional expressa na possessiva e instável Melissa, consultora de moda com quem está prestes a casar. O romance tem múltiplas camadas, transita entre o realismo documental e o ensaio, o registro paira entre o cômico e melancólico: hábil titereiro, Schroeder conseguiu unir diversão com reflexão — não é pouco.> História da Chuva, de Carlos Henrique Schroeder, Record

 

Subseres

É possível ser super numa época hiper, mas tendo uma auto-estima sub? Como abrir um diálogo ao imprevisível, ao fantástico, em um cotidiano contaminado pelo comezinho? Eis algumas das questões deste veloz romance de Carlos Eduardo de Magalhães, o CEM — um cavaleiro solitário à frente da pequena porém destemida editora Grua, cujo catálogo elenca novos nomes da literatura brasileira, clássicos universais e especialidades hispânicas. Pequenos porém destemidos são também os personagens desta narrativa. Marcos, um arquiteto cuja tediosa vida o faz sentir-se um “não-homem”; seu rival, também Marcos, um ator que crê ter poderes sobrenaturais; a psicóloga Carol, casada com o primeiro e melhor amiga do segundo, o silencioso vértice do livro, que conta ainda com o entrelace das histórias dos Invisíveis — meninos que abandonam a vida viciada em videogames para roubar fios de cobre no subsolo do Rio de Janeiro. A narrativa no presente, centrada na ação, faz com que as histórias se cruzem com brilho e vivacidade. > Super-homem, não-homem, Carol e os Invisíveis, de Carlos Eduardo de Magalhães, Grua

 

QUADRINHOS

uma edição à altura do recheio

uma edição à altura do recheio

 

Quadrinhos ricos, quadrinistas nem tanto

BOOM! No fogo cruzado das más notícias de 2016 (POW! Tome essa estatística HORRÍVEL sobre a crise! PLOFT! Ah, é? Fique com essa estatística TÉTRICA sobre a FUTURA crise! POIMMM), eis que surge uma notícia alentadora: o cartum brasileiro nunca esteve tão diversificado, com tantos artistas de tantas gerações simultaneamente criando trabalhos em nível tão alto (e ganhando TÃO pouco, HA HA HA). É o que demonstra esta criativa antologia, surpreendente do começo ao fim, pelo caráter descentralizante — quebrando o mito do quadrinista branco, machista e do eixo Rio-SP, há artistas de tudo quanto é Estado, etnia, ângulo ideológico e orientação sexual. Enquanto vemos medalhões se reinventarem (“Pequeno travesti”, de Laerte), assistimos do nascimento de um jovem mestre das cores como Pedro Cobiaco (“Dentes de elefante”) à maturidade de Marcello Quintanilha, premiado em Angoulême (Talco de Vidro). No registro, há dos perturbadores Rafael Sica, Pedro Franz e André Kitagawa aos dramas sexuais de LoveLove6 e Chiquinha; da classe de Odyr, DW Ribatski e Felipe Nunes à corrosão de Alexandra Moraes, Ricardo Coimbra e Bruno Maron; do drama social-histórico de Marcelo D’Salete e Guazzelli à reinvenção literária de Fábio Moon e Gabriel Bá; da excelência gráfica de André Ducci à sutil tosqueira de Arnaldo Branco. Lirismo, surrealismo, sátira política, comentário psicológico, charge metafísica: a HQ brasileira nunca foi tão rica. E olha que nem falei do extremo capricho da edição. $#&*-SE a CRISE.> O Fabuloso Quadrinho Brasileiro de 2015, org. Clarice Reichstul/ Rafael Coutinho, Narval/Veneta

 

Entrei pelo cânone

A ideia de cânone é sempre controversa: cânone do ponto de vista de quem, cara-pálida? Europeu? Anglófono? Ocidental? Negro, índio, feminocêntrico? Universal? Eis a primeira questão suscitada neste Cânone Gráfico, antologia com supostamente o melhor da literatura adaptada pelos supostamente melhores cartunistas. Tirando exceções como o russo Dostoiévski adaptado pelo brasileiro Kako (mais ilustração que HQ), ou Victor Hugo via Tara Seibel (idem), Rimbaud por Julian Peters (ibidem), Hoffmann por Sanya Glisic (idem ibidem, mas deslumbrante), Sacher-Masoch por Molly Key (sexy e classudo), Tolstói por Ellen Lindner (conservador mas elegante), Nietzsche por Gane/Piero (divertido) e mais alguns, todo o cânone aqui é anglófono: William Blake (com as maravilhosas ilustrações do próprio), Byron, Keats, Shelley, Coleridge, Poe, Melville, Twain, Stevenson, Wilde… enfim, um cânone discutível. Existe ainda algum desnível entre os artistas: do primário PMurphy ao bom tecnicamente mas brega Shalvey, há raros mixes de linguagem de fato criativos. Nesse quesito se enquadram Whitman transformado em super-herói por Dave Morice; as lindíssimas pin-ups de Alice, como a capa, de Natalie Shau; o inquietante chiaroscuro de Cantrell para o “Dragodonte” de Carroll; o levíssimo traço de Porcellino para o Walden de Thoreau. Enfim: se o antologista Russ Kick queria promover discórdias sobre um who’s who tanto em a literatura quanto em quadrinhos, conseguiu. > Cânone Gráfico, org. Russ Kick, Barricada

 

Musical com legendas

Um dos mais ubíquos cartunistas norte-americanos, premiado com Pulitzers, todos os prêmios de quadrinhos possíveis e até um Oscar (pelo curta-metragem Munro), Jules Feiffer chega ao país sob a pele de uma graphic novel muito curiosa — tanto pelo fato de ele só tentar o gênero com mais de 80 anos quanto pela narrativa em si. Explorando clichês do cinema noir e do melodrama musical dos anos 30, 40 e 50 ao narrar as tretas de um detetive bêbado e cinco mulheres alucinantes, Feiffer usa seu traço ágil — nada realista, adequa o gesto do desenho à velocidade da narrativa — para uma estética belle époque, em elegantes duotones. A vigorosa energia transmitida em cada desenho é articulada em surpreendentes divisões das páginas (às vezes sem divisão nenhuma), sempre ligeiras e minimalistas. A impressão que se tem é de ver um mestre no auge, usando todo o seu impressionante arsenal de técnicas para divertir os leitores enquanto se diverte contando uma história policial que não faz o menor sentido — a não ser o do humor. > Mate minha mãe, de Jules Feiffer (trad. Érico Assis), Quadrinhos na Cia.

 

Pocotó noir

Uma das graphic novels mais originais lançadas em 2015 se passa em algum lugar dos anos 30, na época dourada das corridas de cavalo, e entrelaça, de modo fantástico e tratamento de romance noir, as vidas de um talentoso jóquei negro lutando por ascender socialmente, um homem rico e satânico obcecado por sua bela filha, um pobre-diabo que se transforma em cavalo; acredite, a salada de personagens bizarros funciona: a narrativa agalopada, cheia de reviravoltas, e a arte expressionista formam uma HQ perturbadora. > Jóquei, de Rafael Calça e André Aguiar, Veneta

 

História (com H) em quadrinhos

O sexo é a força motriz de Milo Manara, famoso pela série Clic. Menos conhecidas são as narrativas curtas em que traça perfis ou conta passagens pouco conhecidas de personagens históricos — sempre tendo o erotismo como motor predominante. A combinação única entre humor nonsense, erotismo sutil e traço elegante, quase fotográfico de tão realista, fica evidente no trato que o artista dá à História — com licenca poética, claro, nem sempre com preocupação em ser fiel aos fatos: sua intenção é sempre fazer o coração disparar e os olhos esbugalharem. Em Câmera Indiscreta, Manara reúne algumas de suas HQs mais intrigantes, com personagens como Marcello Mastroianni, Federico Fellini, Casanova, Picasso, Borges, John Lennon, Pavarotti e Charlie Chaplin contracenando com as onipresentes mulheres de corpos perfeitos, marcas registradas do desenhista. Já em Quimeras, além de trazer uma história protagonizada por Caravaggio — tema de uma série de graphic novels que o autor italiano lançaria mais tarde —, Manara traz sensualidade a uma história de Asterix, faz sua versão particular de Barbarella e usa cores que lembram Marc Chagall, em narrativas que estrelaram revistas como Frigidaire e Totem. No estilo, além de Hugo Pratt, outro mestre a quem Manara rende homenagem é Moebius. > Câmera Indiscreta e Quimeras, de Milo Manara (trad. Idalina Lopes /Rita Grillo), Veneta

 

Inferno para infantes

Como — e para que — abrir as portas do inferno para adolescentes? Um bom portal é esta biografia do jornalista Vladimir Herzog. Vlado, como era apelidado, foi “suicidado” na prisão pelo Doi-Codi, no auge da repressão dos anos 70. Mas, antes disso foi um dos jornalistas mais arrojados e respeitados do país. A autora tem afinidade com o universo infanto-juvenil: Marcia Camargos é autora da premiada biografia de Monteiro Lobato. Seu texto, porém, não tem nada de tatibitate nem de pesado. Aborda com delicadeza a história recente, os embates políticos, o contexto social e cultural que cerca trajetória trágica do diretor de jornalismo da TV Cultura. Um livro necessário tanto para filhos quanto pais: lembra-nos de que, em tempos muito polarizados como 1964 — ou 2015 —, o inferno pode ser aberto pelas portas mais insuspeitas.> Um menino chamado Vlado, de Marcia Camargos, Autêntica

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