Entrevista

O fado é foda

Alexandra Lucas Coelho à beira do Tejo (foto Miguel Manso/Público)

Alexandra Lucas Coelho à beira do Tejo (foto Miguel Manso/Público)


A escritora portuguesa Alexandra Lucas Coelho devassa o Brasil em nostálgico e divertido livro de crônicas

De passagem pelo Brasil — onde veio passar uma temporada para terminar um romance e participar da Flip —, a escritora portuguesa Alexandra Lucas Coelho conversou sobre Vai, Brasil (Tinta-da-China), reunião das crônicas que escreveu para o jornal Público no período em que viveu no Rio de Janeiro, entre 2010 e 2014. Seu terceiro romance, Deus Dará, a ser publicado em 2016, tem a ver com essa experiência do Rio e também com os nossos equívocos comuns, que já somam 515 anos. “Há cinco protagonistas cariocas, dois portugueses e um narrador transatlântico. O eixo geográfico é o bairro do Cosme Velho, onde tive a sorte de morar numa espécie de selva, mas do Corcovado às cracolândias, passando pelas jornadas de Junho, tenho matéria de sobra para me espalhar ao comprido, dos dois lados do Atlântico”, conta Alexandra. Sua prosa deliciosa, mais sardônica do que doce — o avesso do fado —, desvenda um país muito mais triste do que a mentirosa alegria que vendemos ao mundo.

as sempre crocantes e cremosas edições da Tinta-da-china

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Você viveu várias temporadas no Brasil mas também pode nos observar de seu posto em Portugal. O que ainda a espanta no nosso comportamento? Quando o Brasil não me espantar estarei morta. Espanta-me o presidente da Câmara que conduz um culto evangélico, a bala perdida que entra na casa da minha amiga no Rio, as três horas que levo a vir de Guarulhos, e que ainda haja água em São Paulo. Espanta-me nunca ter passado mais de 24 horas em Salvador, não conhecer o sertão de Euclides, ter lido Nelson Rodrigues tão tarde. Espanta-me o Alto Rio Negro, a poesia de Caetano, o verbo do Rosa, o queixo de Noel. Espanta-me a juventude de Machado de Assis. Espanta-me a antiguidade de Monique Nix. Espanta-me ir ver o Metá Metá e dançar morna. Sobre o vale do Anhangabaú, continua a espantar-me tanta gente falar a mesma-e-outra língua, ando a aprendê-la, ela não pára. A propósito de Anhangabaú, espanta-me que em 2015 queiram prender Zé Celso. A propósito de justiça, espanta-me que o exército esteja na Maré e ainda haja Polícia Militar. Espanta-me que uma menina aborte clandestinamente enquanto mais um Boeing 777 volta de Miami. Espanta-me o olho arrancado, o olho por olho e o mau-olhado. Espanta-me de novo a cor da terra em Minas Gerais, o desconhecido que pergunta tudo jóia e me chama de amada. Espantam-me sempre as formas de Nuno Ramos para este estranho fruto de todos nós. Tudo me espanta além do bem e do mal, então difícil achar o que seja o “vosso comportamento”. O Brasil são tantos que nunca vai virar um imenso Portugal.

O Brasil vive uma grande retração em seu mercado editorial. Como está este mercado em seu país? E como é a recepção da literatura contemporânea brasileira em Portugal? Existe um intercâmbio? Mundo editorial em Portugal: concentrado em dois grandes grupos que absorveram muitas editoras históricas; as editoras independentes de tamanho médio, como a Tinta-da-china, em que publico, são excepções; e multiplicam-se pequenas editoras alternativas, sobretudo de poesia; idem para o mercado livreiro, concentração em grupos, e pequenas livrarias alternativas. Recepção da literatura contemporânea brasileira: há um interesse geral, e real, pela cultura brasileira, mas os escritores mais recentes em geral vendem pouco; entretanto, vários clássicos não estão disponíveis. O mesmo vale para a literatura portuguesa no Brasil, creio, onde os autores portugueses vendem pouco, e estão pouco editados, isto apesar do esforço de universidades, pesquisadores e editores Brasil fora. Hélia Correia, a quem acaba de ser atribuído o Prémio Camões, estava inédita no Brasil, Maria Velho da Costa, salvo leitores especializados, é uma desconhecida. Ao mesmo tempo, novos prosadores e poetas mantêm trocas alternativas, há textos que circulam, pequenos diálogos transatlânticos. A história deste (des)encontro não está feita, é nossa, para continuar.

Há diferenças claras — e, penso, saborosas — entre o português português e o português brasuca. Que pensa da unificação da língua e da ortografia? Sua prosa deveria ser ‘adaptada’ à ortografia brasileira, ao publicá-la aqui? Livros brasileiros têm de ser ‘traduzidos’ ao português português? Não escrevo segundo o Acordo Ortográfico, não sei para que serviu, os equívocos entre Portugal e Brasil não passam por aí. Acredito que a prosa não deve ser adaptada em nenhum dos lados do Atlântico, quero ler os brasileiros exactamente como escrevem, e gostava que os portugueses fossem lidos no Brasil exactamente como escrevem. Porque 1) forma é conteúdo, estilo, autoria, em todo o detalhe 2) não há leitura sem estranhamento, entender tudo não é ler melhor, pode ser mesmo o contrário 3) se não passa pela cabeça de ninguém adaptar um poema (espero), a prosa é menos literatura? 4) quem estaria fora e dentro dessa adaptação?, vamos recuar aos clássicos, “traduzir” Clarice Lispector, Eça de Queirós?, há um limbo de intocáveis e depois uma vasta prole de “traduzíveis”? Desde que as variantes do português se foram afastando, sobretudo no séulo XX, todos perdemos por vezes o pé, mas isso não impede um leitor português de ler Eles Eram Muitos Cavalos, de Luiz Ruffato, ou Pornopopéia, de Reinaldo Moraes, além de toda a gíria paulista. O que o leitor não entende de imediato é um vislumbre de outra possibilidade, um expansor. A decisão de pegar ou largar é dele. Tão soberana quanto o texto.

[publicada originalmente na revista Status]

2 pensamentos sobre “O fado é foda

  1. Pingback: Don't Touch My MoleskineQuando o Brasil não me espantar estarei morta - Don't Touch My Moleskine

  2. A pergunta era sobre ortografia e a Alexandra responde com “traduções”. Se o acordo ortográfico for aplicado nenhuma adaptação é necessária. Mas acho que a Alexandra já esqueceu que ela não lê o Eça ou o Pessoa na ortografia original… pois é, foi adaptada, se não ainda ao acordo de 1990, foi à ortografia portuguesa de 1973…

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