Entrevista

Guerra quente

Igor Gielow

Igor Gielow

Um jornalista quase explode durante um atentado no Paquistão; como se isso não fosse por si só complicado, sua namorada russa está grávida e seu amigo afegão morre no desastre

— não sem antes lhe soprar uma pista para uma misteriosa trama política. O mais inesperado aqui: o jornalista é brasileiro — e o autor do romance, também. Ariana (Record), romance de estreia de Igor Gielow, diretor da sucursal da Folha de S.Paulo em Brasília, é um thriller de leitura viciante, temperado por um ponto de vista nada usual: o de um jornalista de “terceiro mundo” cobrindo conflitos insondáveis entre o Paquistão e o Afeganistão.

boa capa

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O quanto do Igor tem no Mark? E o quanto a não-ficção ajudou e o quanto atrapalhou em sua ficção? Partido do pressuposto de que todo escritor traz, de uma forma ou de outra, suas impressões para o texto, sim, há muito de Igor em Mark. Claro que há coincidências óbvias (brasileiro, nome gringo, correspondente de guerra), mas elas foram usadas para enriquecer a paleta da verossimilhança da trama. Claro, uma verossimilhança fantasiada, com a realidade lida sem as amarras do jornalismo. Naturalmente, como acho que em toda ficção, tem alguma sessão de análise em curso quando você escreve, trabalha com uns demônios e tal. Mas o principal fator que me aproxima do personagem é mesmo a busca em dar um caráter realista à história. Sobre o estilo, é uma coisa complicada entrar na ficção depois de duas décadas de jornalismo. Lutei muito para que a secura formalista do meu ofício (ao menos, acho que é o que devemos buscar) contaminasse demais a prosa — fazendo o texto ficar telegráfico demais, por exemplo. Naturalmente, não é um texto de digressões literárias e esteticismos viajantes, e sim um thriller, então acho que encontrei um meio-termo e o meu “estilo natural” aprendido no trabalho acabou por servir bem ao fim.

Uma obra de ficção brasileira ambientada no exterior – e ainda mais em um lugar tão estranho à nossa ficção – é novidade. Como foi o processo de criação, quanto tempo demorou a escrever, de quais minas você teve de escapar para dar verossimilhança e originalidade ao seu projeto literário? Bom, a parte mais rigorosa do livro, a pesquisa e tal, eu fiz ao longo dos dez anos em que cobri a “guerra ao terror” (aspas obrigatórias) no Paquistão e no Afeganistão, além de outros lugares por aí. Mas comecei a escrever de forma bem espaçada em 2008, tipo em algumas segundas à noite — sem grandes prejuízos para minha vida, digamos assim, rs. Só fui trabalhar mesmo na trama em 2009, quando tirei férias e escrevi tudo de uma só vez em setembro, logo depois de voltar de uma viagem pela região. Novamente, não houve nenhum grande trauma de isolamento ou algo assim. Daí foram anos em que o texto ficou num limbo. Em 2011 passei o original por um leitor crítico, que gostou do trabalho, mas acabei não achando editora. Desisti até 2014, quando tive um estalo de dar uma limpada no texto e enviar para uma agente, que não só gostou como aceitou me representar e colocou o livro no mercado. Deu certo.

O que você gosta de ler, em ficção e não-ficção, daqui e de fora? Leio muita história, especialmente militar (John Keegan é rei) e ultimamente com uma queda pelos relatos que vêm surgindo dos embates entre otomanos e cristãos no Mediterrâneo. Na ficção, varia muito com a época, as influências cruzadas são muitas. Quando escrevi o livro, lia bastante McEwan e Sandor Márai. Hoje, estou tentando ler toda a obra do WG Sebald, que tem uma pegada de memorialística digressiva. Mas a verdade é que tenho muito menos tempo para ler do que gostaria. E diferentemente do que pode parecer, meu contato com Le Carré e Greene não é via livros, é via cinema. Não sou um leitor contumaz de thrillers.

Cercado por montanhas, miséria, papoula, superpotências e extremistas de vários matizes, o Afeganistão parece viver uma crise permanente – e eterna. Existe alguma razão pra viver lá? A saída dos EUA pode ser uma saída para o país? Como o apelido diz, aquilo é um cemitério de impérios. Quase todo mundo que passou por lá acabou se dando mal, em termos históricos. O incrível orgulho nacional deles é parte disso, apesar de o país ser de uma miséria impressionante, e a cultura dos caras é riquíssima. Os EUA a rigor já saíram, no sentido de ocupação formal, embora mantenham uma presença que suponho vá durar muito. Uma coisa que eu abordo no próprio livro é exatamente a inadequação da presença ocidental nesses lugares. Não por alguma tendência multiculturalista ou por achar que o Ocidente é malvado, mas por observação direta.

Como é, para um correspondente de guerra, ficar longe do front e vir para Brasília no momento em que explode uma guerra de outra ordem – denúncias de corrupção, crise econômica e política? Vim para Brasília em 2003, e todas as coberturas que fiz depois disso rolaram comigo ocupando um cargo de chefia (fui secretário de redação até 2013, depois diretor). Essa foi uma liberdade que a Folha sempre me deu, e pela qual só tenho a agradecer. No momento atual, contudo, é virtualmente impossível dividir energia com alguma guerra (ah, a Ucrânia…). Mas como as guerras, a crise em fase aguda não é algo eterno. E eu acho que a experiência de trabalhar sob intensa pressão (gente morrendo, riscos, deadlines estranhos etc) só me ajudou a lidar com o cotidiano de Brasília, ao fim.

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