Crítica

Feios, xulos, malvados — e outros troços pra zoar a mente

cartum de Bruno Maron

cartum de Bruno Maron

É setembro: tempo para passar a limpo as melhores resonhas de livros d’O Impostor

HQ

Egressos da infame revista Xula, Ricardo Coimbra e Bruno Maron estreiam com indecentes álbuns de quadrinhos

Manter a escrotidão sem perder o riso jamais é um dos mandamentos da Xula, a revista com mais piadas sobre fiofó por centímetro quadrado já publicada no país. Obcecados pela analidade, os colaboradores da Xula Ricardo Coimbra e Bruno Maron lançam em álbum uma compilação de seus trabalhos mais cabulosos. Tosquice pesada, nunca vista, desde a época em que circulou a F., revista de Allan Sieber, Arnaldo Branco et caterva. Em comum, Coimbra e Maron têm alto poder de fogo contra hipocrisias e idiossincrassias do mundinho descolê pseudo-moderninho e da orgulhosa inguinorança do brasuca médio. Em tempos de Lava Jato, Cunha, Bolsonazi e brigas histéricas nas redes sociais por causa da cor da ciclovia paulistana ou da foto de um casal de músicos hippies, Coimbra e Maron têm farto material para se divertir e nos fazer gargalhar de nossos ridículos cotidianos.

Embora os alvos sejam parecidos, os estilos de ambos são bem diversos. O carioca Maron desde 2010 responde pelo Dinâmica de Bruto, blog que volta e meia viraliza suas tiras pelo Facebook e deu nome à antologia que publica pela editora Maria Nanquim. Seu traço falsamente tosco lembra Millôr Fernandes; ao contrário da maioria dos cartunistas, porém, seu texto não é sintético, e sim verborrágico — por vezes sua letra horrível vaza em cima dos desenhos. O mundo corporativo, a competitividade “solidária” do neocapitalismo, os espertalhões do mundo do entretenimento e da política são os temas de suas tiras povoadas por figuras grotescas, distorcidas e pixadas em cores berrantes.

cartum de Ricardo Coimbra

cartum de Ricardo Coimbra

Já o mineiro Coimbra é minimalista: suas tiras são em preto e branco, não raro bem deprimentes. Niilista no talo, autodepreciação é o veneno que afoga os leitores do blog Vida e Obra de Mim Mesmo, de onde foram tiradas as tiras deste Vida de Prástico (Gato Preto). O mundinho hipster e sua busca por autenticidade — que leva em conta a marca mais ecologicamente adequada de pomada para passar na barba pintada de azul, ou o discurso do “feministo de resultados”, aquele cara que paga de fofo só pra pegar mulher — são agraciados com piadas corrosivas, bem como os falsos ateus, os falsos machões, os falsos profetas e os falsos artistas. Pois é, vivemos uma época 100% falsa, mas felizmente temos bons testes de DNA nas tiras de Ricardo Coimbra e Bruno Maron.

quardo da novel de Peeters

quardo da novel de Peeters

Linguagem é um vírus
Pílulas azuis, de Frederik Peeters, Nemo
HQs autobiográficas são tradicionais desde que, talvez, Robert Crumb começou a escancarar o estranho mundo que habita sua cabeça. Mas usar os quadrinhos para abrir o seu envolvimento com uma garota soropositiva é uma novidade completa — ainda mais se você sabe que a história é narrada de forma leve. Este é o corajoso mote desta premiada HQ suíça. Com sobriedade helvética, em páginas quase sempre diagramadas na proporção 3:3:3, em preto e branco, a linguagem compassiva e o traço simples e simpático de Peeters abordam todos os lados de um tema complicadíssimo: como é apaixonar-se por uma garota incrível que, além de ter HIV, tem também um filho soropositivo? Ao final do livro, passadas todas as emoções, aprendemos que o bicho nem é tão terrível como se apresenta. Destaque para a fabulosa imagem do rinoceronte no consultório médico — uma metáfora para a aids que assombra a jovem e peculiar família do autor.

bullying no Irã é pior que um pesadelo de Kafka

bullying no Irã é pior que um pesadelo de Kafka

Kafka fundamentalista
Uma metamorfose italiana, de Mana Neyestani (Nemo)

Numa história em quadrinhos em que uma barata discute com uma criança, é empregada uma palavra que dá origem a mal-entendidos. Os equívocos se sucedem e o quadrinista é preso, tragado por um processo burocrático absurdo até que consegue escapar — mas para isso precisa renunciar à família e ao país. Não é ficção: a história de fato aconteceu com Mana Neyestani, conforme ele conta em Uma Metamorfose Iraniana (Nemo). O traço claro e quase infantil de Neyestani só torna sua HQ mais dramática e assustadora: afinal, percebemos que os piores pesadelos de Kafka são muito reais em países como o Irã. O quadrinista hoje vive em Paris.

A morte da cadela Baleia, no traço matador de Guazzelli

A morte da cadela Baleia, no traço matador de Guazzelli

Quadrinho árido
Vidas secas, de Graciliano Ramos (adapt. Eloar Guazzelli e Arnaldo Branco), Galera Record

Gênio da concisão, o escritor alagoano não imaginaria que um quadrinista gaúcho e um roteirista carioca conseguiriam tornar ainda mais exata a trama de seu romance mais famoso. Esta não é daquelas adaptações de clássicos toscas que têm abundado nas livrarias para facilitar a vida de estudantes vagabundos: se trata de uma obra de arte autônoma, que parte da secura do original de Graciliano para contar com lirismo a triste história do retirante Fabiano e sua família — o roteiro de Branco foi inteligente ao editar as passagens principais, resguardando o texto, e Guazzelli transformou a rudeza graciliana em borrões precisos — e a original divisão de quadros lembra a velocidade dos mangás. Se você conseguir ver as páginas da morte da cadela Baleia sem lacrimejar, é que seu coração já virou a Cantareira.

FICÇÃO GRINGA

poucas coisas são tão elegantes quanto esta capa

poucas coisas são tão elegantes quanto esta capa

Idílico pesadelo
No mar, de Toine Heijmans, Cosac Naify (trad. Mariângela Guimarães)

São necessárias quase 100 páginas para que, como um iceberg, a real natureza deste se revele, terrível e implacável. Até então só sabemos que um pacato holandês planejou uma viagem de três meses ao lado da filha de 7 anos em seu próprio veleiro, entre Dinamarca e Holanda. Tudo bem que nessas 100 notamos algo errado, ainda que não saibamos exatamente o quê. Mas quando o idílio parece sufocante de tão perfeito, a menina… desaparece. Em alto mar. O final arrepia – antes dele, há um tour de force de ação cuja leitura não deve levar mais que cinco minutos, tão alta e precisa é a tensão. Narrado com simplicidade astuciosa, este pequeno romance do holandês Heijmans é uma obra-prima impactante.

Fante na época da fome

Fante na época da fome

Pergunte ao pop
A Grande Fome e Pergunte ao pó, de John Fante (trad. Roberto Muggiatti), José Olympio

Ele foi tão essencial à literatura quanto a trinca Coppola, Scorsese e De Palma para o cinema: injetou sangue, suor, lágrimas, azeite & vinho na arte dos EUA — leia-se contaminar a narrativa clássica com a “emoção italiana”: seus complexos códigos de honra, sua esperança inquebrantável, sua sentimentalidade visceral, sua percepção aguda da luta de classes, seu sentimento de ser estrangeiro e seus embates com Deus e o Diabo. A editora José Olympio recoloca nas livrarias Pergunte ao Pó, romance de John Fante que imantou a cena beatnik nos anos 50, esteve na cabeceira da contracultura nos anos 60, foi vital nos anos 70 para o aparecimento de escritores como Charles Bukowski e influenciou todo escritor pop que se preze, gente que pressupõe uma ligação umbilical entre vida vivida e vida contada — o que traz à leitura a sensação de que o narrador está abrindo o coração para o leitor a cuteladas. As aventuras e sobretudo desventuras de Arturo Bandini, um filho de imigrantes italianos sonhando em fazer sucesso como escritor em Los Angeles e se dando muito mal, também reaparecem em A Grande Fome, reunião recente de contos, crônicas e fragmentos de romances inacabados: para um fantemaníaco é impossível ler o “Prólogo a Pergunte ao Pó” sem dispor de uma caixa de kleenex — e um bom vinho.

Zambra ganhou um projeto gráfico só pra ele

Zambra ganhou um projeto gráfico só pra ele

Gritos e sussurros
Meus documentos, de Alejandro Zambra (trad. Miguel del Castillo), Cosac Naify

Ao lado de autores como Fante, Saroyan e nosso Fabrício Corsaletti, Alejandro Zambra poderia ganhar o apelido que uma vez deram a Manuel Bandeira: “monstro de delicadeza”: é daqueles escritores que, mesmo se narrar na terceira pessoa, parecem sussurrar ao leitor os segredos mais inconfessáveis. O autor de Bonsai nesta antologia de contos fala sobre crescer sob uma ditadura pesada, que matou, torturou e expulsou do país parentes e amores, dilacerou famílias e rachou irreversivelmente a sociedade do Chile. Mas, por vagar entre o humor e o horror, são narrativas das dificuldades — ou mesmo impossibilidades — das relações amorosas, da fragilidade do homem frente às oscilações femininas, dos miúdos dramas da tecnocracia dos sentimentos e os enlaces entre o cotidiano e a literatura.

FICÇÃO BRASUCA

Marcelino novinho, em foto de JR Duran

Marcelino novinho, em foto de JR Duran

Voz pessoal
Amar é crime, de Marcelino Freire, Record

A literatura de Marcelino Freire nasce da voz: seus contos são metáforas orais de personagens que vivem à margem do Brasil, espectros que nunca são ouvidos, histórias que desinteressam tanto a casa grande quanto a senzala. Fala de conflito de classes, sim; entanto, longe de tomar partido, prefere observar ambiguidades, contradições — que tornam o mítico “brasileiro cordial” o campeão mundial em linchamentos (47 mil assassinatos por ano, um recorde). Nesta reedição de sua reunião de contos Amar é Crime, o escritor pernambucano dá voz a garotas de programa, homens gays pais de família, professoras lésbicas, pastores evangélicos tarados, políticos vampiros de miseráveis, miseráveis vampiros de políticos (como em “Ricas secas”, sobre a crise hídrica e ética no estado de São Paulo). Prosa original, estruturada em trocadilhos, aliterações, rimas, assonâncias e outros atributos próprios à poesia e a palavra cantada, a literatura de Freire é das mais imediatamente identificáveis. Há humor, mas não há boas intenções. E há melancolia, também, além, da busca pela beleza — nem que seja um vestido chique lavado com água da sarjeta. Com relatos que rimam amor e horror, o pernambucano Freire escancara um país que não ousa se olhar no espelho.

Ssó, mano

Ssó, mano

Desbunde gaudério
Como o diabo gosta, de Ernani Ssó, Cosac Naify

Ainda há muito a investigar do desbunde dos anos 70 a rebolar sob as trevas e a modorra da ditadura, e é sobre isso este romance do jornalista gaúcho Ernani Ssó. Qual um Reinaldo Moraes dos pampas, Ssó prefere investigar a vida de pau em riste, nessa espécie de conficção de seus loucos anos. Assim, de sacanagem em sacanagem, de bairro em bairro, de papo furado em papo furado, vai se construindo a narrativa multifacetada — ou confusa, dependo do seu ponto de vista — de Camilo, um escritor sem eira nem beira, que se apega às múltiplas musas que teve na vida para tentar escrever uma história. Entre o cinismo e a verborrágico, a narrativa se tece sobretudo com humor, como se um causo desaguasse numa piada e daí em um desconsolo niilista. Em tempos tão realistas, não deixa de ser divertido um livro que abole qualquer apego ao lugar comum das histórias bem contadas e abraça o caos.

ENSAIO

A revista foi reestilizada por Daniel Trench

A revista foi reestilizada por Daniel Trench

Alimento pra cabeça
Serrote #10 (IMS)

“Artista: indivíduo que faz arte, oscila entre a megalomania e a depressão resultante dos seus poucos contatos com a realidade (…) Belo: cantor de pagode famoso pelo azar no tráfico de entorpecentes (…) Coletivo: grupo de artistas que acredita que a soma de seus fracassos resulta em um fracasso estrondoso a ponto de sair no jornal (…) Falocrata: use para acusar seu oponente quando perder uma discussão; impressiona as gatinhas (…) Gentrificação: denuncia a expulsão de pobres de um lugar para que seja instalado um belo centro cultural para a discussão da gentrificação (…) Romantismo: movimento do século 19 em que todo mundo se apaixonava por todo mundo mas ninguém comia ninguém.” Estes são alguns dos verbetes do “Dicionário Contemporâneo de Arte Contemporânea” escrito pelo cartunista Rafa Campos (Deus, Essa Gostosa) para a edição 20 da revista Serrote (Instituto Moreira Salles). A publicação de ensaios traz ainda uma série de entrevistas da jornalista Lilian Ross com o cineasta François Truffaut; o diário do escritor Adolfo Bioy Casares em sua visita ao Brasil; um ensaio visual do artista Jonathas de Andrade; e o genial ensaio “Feminismo ruim” da escritora Roxane Gay, uma feminista tão combativa quanto (raridade!) bem-humorada.

livro de cabeceira

livro de cabeceira

Alta ajuda
A Jornada do Escritor, de Christopher Vogler (Aleph)

A essa altura todos sabem que a trilogia Guerra nas Estrelas foi concebida segundo o que o mítico mitólogo Joseph Campbell definia por Jornada do Herói, a teoria que mostra como grandes narrativas se originam em fábulas e mitos milenares. Christopher Vogler aplicou as teorias de Campbell à técnica cinematográfica neste manual que ensina, com verve e muitos exemplos, como recriar os arquétipos essenciais — o guerreiro, o antagonista, o chamado à aventura, o encontro com o mentor, a busca do elixir etc — na forma de personagens, cenas e estruturas para roteiros de cinema e HQ, peças e romances. Mais que um guia que ensina truques narrativos, o livro é um divertido e erudito ensaio que mostra como a mesma carpintaria dramática usada por Homero pode ser reinventada em estruturas pós-modernas e não-lineares como os filmes de Quentin Tarantino.

[Resenhas originalmente publicadas na revista Status e no Guia da Folha Livros Discos Filmes]

Um pensamento sobre “Feios, xulos, malvados — e outros troços pra zoar a mente

  1. ” Amor-fati [amor ao destino]: seja este, doravante, o meu amor!

    Não quero fazer guerra ao que é feio. Não quero acusar, não quero nem mesmo acusar os acusadores.
    Que minha única negação seja desviar o olhar!
    E, tudo somado e em suma: quero ser, algum dia, apenas alguém que diz Sim!”

    Friedrich Nietzsche( A Gaia Ciência )

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