Crítica/Reportagem

Cinemão indie no balneário playboy

Imagem de Hans Op de Beeck

Imagem de Hans Op de Beeck

Bacana demais um festival de cinema de arte indie fora do eixo Rio—SP. Os filmes escolhidos pela curadoria do festival Cinerama Balneário Camboriú exibiram propostas provocadoras. Seguem algumas notas

Skyline nublado de BC: só de cima fica bonito

Skyline nublado de BC: só de cima fica bonito

A cidade
Balneário Camboriú combina boa parte do melhor e do pior do Brasil, em escala diminuta. O melhor: as ruas são limpíssimas, o povo é civilizado. No centro, não se veem bitucas de cigarro no chão. Sequer os moradores de rua dormem na calçada: os que vi roncavam sobre estrados ou camas improvisadas. Há muitas ciclovias bem sinalizadas, e os motoristas param se você chega perto de uma faixa de pedestre – sem necessidade de o sinal ficar vermelho. Nunca tinha visto isso no Brasil.

Certamente essa polidez e gentileza devem ser reflexo do perfil da população, a maioria composta pela terceira idade – e uma terceira idade com muita grana. Por ser um centro turístico de Santa Catarina, tem uma puta infra de restaurantes, bares, passeios, hotéis, que serão muito úteis quando o festival crescer e bombar de público.

O ponto negativo não é exclusividade de BC, claro. Pólo turístico das classes média e alta, BC desenhou em sua orla um dos mais feios conjuntos arquitetônicos do Brasil. O que sobra em organização e higiene ao centro falta em charme e estilo. Talvez uns 5% dos prédios tenham sido esboçados por arquitetos; o resto deve ter sido pela especulação imobiliária mesmo. Alguns dos edifícios mais altos do país estão aqui. O skyline só fica bonito visto do alto do mirante Camboriú, em um dia nublado e com chuva. Chega-se ao mirante por um passeio de teleférico que custa R$ 36. Dali a vista é despampanante. Recomendo.
Em suma: pelas contradições, uma cidade bem interessante para abrigar um festival.

A sala
O Cine Itália, onde foram exibidos os filmes da mostra competitiva, tem uma das maiores telas do país: 70m x 10m. Com capacidade pra 700 lugares, fica bem no centro, perto das ruas Central e Brasil, e não muito longe da praia. As poltronas são de couro, largas, confortáveis e sem percevejos. Infelizmente o vizinho, o cretino dono de uma academia de ginástica, mesmo após os pedidos da organização do festival insistiu em manter seu putz-putz dos treinos de spinning e o bate-estaca contaminou a trilha sonora de alguns filmes. É preciso rever o isolamento acústico da sala.

Quanto ao público, nas sessões mais concorridas apareceram umas 150 pessoas, a maioria muito jovem – a terceira idade de BC não se animou muito com o festival -, e muita gente de cidades vizinhas. Triste constatar que mesmo em festivais os espectadores preferem entrar no Facebook a se concentrar no filme. As sessões foram apresentadas com graça e simpatia pela curadora e organizadora Barbara Sturm, que não foge à boa ascendência (é filha do diretor do MIS/SP, André Sturm).

Os filmes
Meio baleado por uma gripe, não assisti a todos os filmes da mostra competitiva nem da Catarina, especializada no cinema catarinense, mas do que vi gostei. Uma ótima ideia foi projetar um curta-metragem antes de cada longa — lembrei com saudade de quando isso acontecia nas salas de cinema dos anos 70 e 80, creio, até a derrocada da Embrafilme. Os curtas escolhidos acompanharam o nível de criatividade dos longas.

Meus favoritos: o belíssimo Norman, dirigido, animado e pintado pelo holandês Robbe Vervaeke (obsessivo com pequenos detalhes e hábitos estranhos, nervoso e sozinho, Norman vaga pela cidade), o belga De costas para o muro, de Miklos Keleti (Natacha trabalha em um posto de gasolina; um dia, um homem e uma menina que acabaram de atropelar um cervo entram na loja do posto — a menina está chateada por causa do acidente, mas parece que isso não é a única coisa que a incomoda) e o melhor, o divertido Cigano, do português David Bonneville (Sebastião, um jovem de classe alta, percebe que o pneu do seu carro está furado e aceita a ajuda de um cigano desconhecido; para retribuir o favor, oferece uma carona ao cigano — mudando bruscamente seu destino).

Fora os curtas, muito legal também foi ver em todas as sessões, entre um filme e outro, os deliciosos e curtíssimos vídeos da série Here comes the clapman, de Marc-Henri Wajnberg — superinventivos, influenciados por Chaplin, Tati e Keaton, formam um conjunto de 1500 filmetes. Depois de cada filme aconteceram debates e conversas informais com a plateia (feliz ou infelizmente, as sessões em que estive não contou com nenhum louco de palestra).

O drama suíço Não se preocupe, dirigido e escrito por Jeshua Dreyfus, conta a história de um grupo de amigos pós-adolescentes que viaja para uma cabana no meio da mata dos Alpes. Ali eles combinam serem totalmente honestos uns com os outros, e volta e meia fazem o arriscado “jogo da verdade”. Como tudo o que envolve a “verdade”, evidentemente não dá certo. Um dos garotos é virgem e se apaixona por uma loura manipuladora (a pérfida Anna Von Haebler). O outro jovem tem uma namorada mas também tem um caso com a loura. A terceira garota, a criadora do jogo da verdade, é moralista — e, talvez ainda mais manipuladora, investe pra cima do virgem. Sobre os amigos há a sombra da morte de um amigo, um pecado sobre o qual não querem falar. Todos saem diferentes depois desse fim de semana. Filmado com naturalismo e convencionalismo, o filme é muito sutil ao contrapor as emoções ambivalentes dos personagens e suas por vezes mesquinhas e cruéis motivações. Um filme adulto sobre um universo juvenil, com roteiro sólido, do tipo que faz muita falta por aqui.

Nota: três pistaches.

Fugindo do amanhã, dirigido e escrito por Randy Moore, parece um filme alienígena quando você descobre que veio dos EUA. Durante férias em família, Jim descobre que perdeu o emprego. Escondendo o fato da mulher e de seu casal de lindos pimpolhos, ele os leva para curtir o dia na Disney. Só que o rolê pelo idílico parque de castelos encantados e princesas de contos de fadas se transforma num pesadelo surrealista. Produzido em preto e branco de alto contraste — o que dá certa tontura em alguns momentos —, o filme é ácido ao detonar a mitologia da perfeição artificial da Disney e atacar a obsessão por entretenimentos em massa. (Aliás, assisti-lo em um lugar “encantado” como o Balneário Camboriú não deixa de ser uma espécie de metacrítica. Poderiam fazer uma paródia brasileira no Beto Carrero World.) Em certo ponto Jim começa a ficar obcecado por duas gostosas adolescentes francesas, disparando o ciúme da mulher. É visto pelo filho e pela filha como um mané. O clima circense já proposto pela cenografia do parque, vitaminado pelas feéricas atrações, contribuem para o mal-estar do meio para o final do filme. Um cortezinho de uns 10 minutos não faria mal. Impressiona ainda o fato de o filme ter sido produzido totalmente na raça, com apenas US$ 650 mil, e sem autorização da Disney — que também não se dispôs a processar os realizadores, talvez temendo a repercussão negativa. Um filme bem corajoso.

Cotação: 3,5 pistaches.

O drama belga Violet, escrito e dirigido por Bas Devos, ecoa a beleza e o vazio dos filmes juvenis de Gus Van Sant — infelizmente sem o apego do yankee a um bom roteiro. Talvez fosse melhor exibido em uma exposição de arte do que numa mostra de cinema: imagens belíssimas, rodadas em duração além do normal, tornam a narrativa por vezes sonífera (sim, pesquei algumas vezes, o que é raro acontecer). Em um shopping vazio, Jonas é morto enquanto Jesse observa aterrorizado, sem fazer nada. Os criminosos fogem; seus motivos não são claros. Jesse cai em depressão e não consegue mais conversar com seus amigos – todos ciclistas que praticam BMX em uma pista maravilhosa – nem com seus ótimos pais. Nem com os espectadores, infelizmente. O filme é belo, triste, mas insuportavelmente chato, e chatice é o pior dos pecados em arte. Apesar disso, acho que a cena mais tocante que vi no festival é deste filme: Jesse pedala para levar a bike de Jonas para passear.

Nota: 2,5 pistaches.

Acho que, depois do marçalaquiniano Eu ouviria as piores notícias dos seus lindos lábios, este é o título longo mais bonito que já vi: A estranha cor das lágrimas do seu corpo. Suspense belga escrito (durante dez anos) e dirigido (por três) pelo casal Bruno Forzani e Héléne Cattet, é um filme impressionante. O plot: uma mulher desaparece e seu marido decide investigar as estranhas circunstâncias de seu desaparecimento. Ela o deixou? Está morta? Enquanto procura, ele mergulha em um mundo de pesadelos e ultraviolência. Na verdade, a trama é o de menos. Este é o tipo de produção que só tem sentido ver em uma épica tela como a do Cine Itália, porque se trata de cinema puro. O sujeito que investiga a morte da mulher descobre que existe uma vida oculta nas paredes do edifício, um dos melhores exemplares da arquitetura art-nouveau belga. Espelhos, vitrais, escadas, paredes, quadros: os elementos cênicos contribuem efetivamente para a narrativa, e são filmados com precisão matemática. O casal de realizadores é obcecado por rimas, refrões e espelhismos, que vão se multiplicando em espiral psicodélica. A edição e o corte seco das imagens é outro ponto alto. Há uma sequência em que ocorrem vários crimes nos quais são usados punhais, facas e cordas — em clima que ecoa a estranheza dos filmes de David Lynch, David Cronemberg, Dario Argento e da série Hellraiser, de Clive Barker. O realismo-fantástico gótico da película afugentou uns 20 espectadores, mas do ponto de vista deste modesto espectador foi a melhor produção exibida no Cinerama BC.

Cotação: 4,5 pistaches.

O filme belga a meu ver só perde para outro belga (aliás como tem belga aqui, hein?), que exibiu curtas e médias fora de competição, Hans Op de Beeck. Para mim foi a maior revelação do festival. Artista plástico, os filmes de Beeck são antes para serem fruídos com os sentidos do que compreendidos racionalmente. Têm uma concepção fotográfica e cromática minimalista e rígida noção de tempo, o que os distancia de qualquer naturalismo. O destaque ficou para Sea of Tranquility, que detalha a rotina de um grande cruzeiro que singra um oceano cinzento em um futuro não explicitado. Beeck não usa diálogos e praticamente não há palavras, a não ser na linda canção (escrita por ele) cantada pela gatíssima crooner Sandrine. É o tipo de cinema que, sem ser exatamente cinema, aponta para o futuro do audiovisual, lembrando um dos preceitos de Italo Calvino em suas Seis propostas para o próximo milênio, “Visibilidade”: para fugir ao dilúvio de imagens tediosamente prosaicas e sem graça, precisamos criar imagens inesquecíveis, que nunca antes foram vistas, carregadas de sentido, e um sentido nem sempre óbvio. Beeck sabe fazer isso e merece ser mais visto por aqui.

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