Romântica como um subúrbio

Bruna Beber é só coração
Bruna Beber é só coração

Assim quereria minha última resenha para a revista Bravo!: fresca como um golpe de ar. Leitura de Rua da Padaria, de Bruna Beber

Este ano Paulo Leminski figurou semanas em primeiro lugar na lista dos mais vendidos. Quer dizer o seguinte: existe sim público de poesia, de provocadora, simples e divertida, nem por isso fácil. Antes de virar medalhona ou santa feito o gênio pinguço paranaense, Bruna Beber também foi best-seller — na FLIP, este Rua da Padaria saiu mais que pão quentinho. Porque ela fala de coisas que estão perto (a padoca da esquina), na memória afetiva (a macumba, a ratoeira, o bujão de gás, a merenda, o judas), ou longe (o amor que não chega nunca ou que mal chegou e já foi). Bruna é romântica feito um subúrbio; seus poemas são saltos de amarelinha, mas na última casa tem um apocalipse: como Leminski (embora esteja mais perto da Angela Ro Ro, de Benito di Paula e do funk carioca), ela também faz poesia provocadora, simples, divertida. E que isso venha ao encontro do público é ótima notícia — ao contrário do que apregoam críticos e poetas chatos.

Este é o quarto livro da escritora nascida em Duque de Caxias (RJ), que trabalha com publicidade e jornalismo em São Paulo, cidade que a acolheu há 8 anos. Em todos seus livros está presente uma lírica em tom menor, de versos curtos, pontuação exígua, estrofes leves, poemas breves e suave indício de narrativa. Já aos 22 ela exibia essa dicção de dique, barrando com trocadilhos e humor autodepreciativo torrentes de lirismo, emoção quase cafona, quase-histórias de amores expressos. Agora, aos 29, a poesia concentrou-se em tópicos próximos, familiares, rotineiros. Na primeira seção, há a descoberta de um pequeno mundo habitado por tias e avós, cercado de grades e bordados; mundo abafado, afobado e fóbico, onde o horizonte aberto é só possibilidade, barulho.

Não há oceano no subúrbio: “tudo tem barulho de mar/ enceradeira isopor carro/ em movimento aerosol/ (…) / tem mar de todo tipo/ de barulho de e dentro/ de cada mar um ralo/ entupido de cabelos“. A segunda seção é a descoberta do amor na adolescência e traz pérolas como “romance em doze versos” (lembra os poemas googlados de Angélica Freitas) ou “pecúlio”: “estou sempre indo ao seu encontro/ chego de costas pra você achar que estou indo embora/ saio de frente pra você achar que estou chegando“. Na terceira seção, de versos mais descarnados e ritmo sincopado, a poética de BB despe-se de erotismo e nostalgia para abraçar um nonsense quase infantil: “em comum você/ e o mar só têm/ a brisa“. Como diria Fabrício Corsaletti — outro poeta contemporâneo de texto provocador, simples, divertido, nem por isso fácil —, a poesia de Bruna Beber é um golpe de ar.

Rua da Padaria, de Bruna Beber. Record, 65 págs

Autor: rbressane

Writer, journalist, editor

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s