Fantasmas famintos

Detalhe de um antigo papiro japonês retratando os fantasmas famintos - que bebem fogo
Detalhe de um antigo papiro japonês retratando os fantasmas famintos – que bebem fogo

Gabor Maté, um prestigiado médico canadense que trata da política de redução de danos no combate à dependência de drogas, é um estudioso da perpétua insatisfação humana. Um tema complexo na revista Vida Simples

I can’t get no satisfaction, cantava certo quinteto inglês nos anos 70. Não seriam a maior banda de rock do mundo se não tivessem detectado o que nos move: a insatisfação, o vazio, “a falta que ama“, na perfeita expressão de Drummond. Uma fome voraz pelo poder levou Mick Jagger a conquistar o mundo, conforme conta a biografia de Philip Norman (Companhia das Letras). Com perdão pela redundância, o vazio também nos move para o buraco, como se lê em outra biografia de um stone — no caso, Vida, de Keith Richards (Globo), em que o guitarrista detalha as batalhas contra a heroína, a cocaína e o álcool. “Minha dependência tinha fundamentalmente a ver com esquecer“, afirma Richards. Mick, que nunca se viciou em nada — a não ser talvez em mulheres —, teve infância feliz e lar estruturado; Keith, uma criança solitária em uma família que ligava mais para o trabalho que para ele, sequer foi ao enterro dos pais. A relação drogas/infância pode parecer simplista — mas ela é demonstrada de maneira categórica pelo médico e escritor húngaro-canadense Gabor Maté como responsável por alimentar o vazio, companhia inseparável no caminho que leva alguém a tornar-se dependente de drogas ou de comportamentos viciosos.

Durante décadas o doutor Maté cuidou de dependentes em drogas, centrando seus esforços paliativos na “cracolândia” do Portland Hotel, em Vancouver, Canadá, onde, como na notória zona do centro de São Paulo, arrastam-se as tristes figuras de pessoas consumidas por metanfetamina, heroína, cocaína e álcool. “Se salvar da morte é o objetivo maior de todo médico, devo ser um dos piores: meus pacientes quase sempre morrem de complicações relacionadas a aids, doenças sexualmente transmissíveis, males mentais ou suicídios“, contou ele em conversa via skype com a Vida Simples. A morte sempre rondou esse médico de voz mansa e olhar melancólico, cujas rugas denunciam o peso de seus 69 anos. Em 1944, aos 2 anos de idade, já havia perdido grande parte da família, de origem judia, nas mãos dos nazistas. Emigrado para o Canadá, estudou medicina e especializou-se em cuidados paliativos. Autor de quatro livros em que investiga dependência química, transtornos de déficit de atenção e outras enfermidades mentais, lançou no ano passado In The Realm of the Hungry Ghosts — em tradução livre, No Reino dos Fantasmas Famintos (North Atlantic Books).

É um livro essencial para compreender a dinâmica da adição. Gabor tem o pendor de um Drauzio Varella para narrar os encontros com seus pacientes, sem esperança nem temor, com implacável honestidade, porém sem abandonar a compaixão: algumas histórias chegam a parecer inverossímeis, de tão pesadas — felizmente, o humor tipicamente judeu de Gabor, combinado à sua militância zen, ameniza o tom do livro. Após centenas de relatos tristemente parecidos, Maté afirma que nenhum tratamento contra a dependência química pode surtir efeito se não for direto à causa. E a esta causa Maté deu o nome de vazio.

Bocas pequenas e barrigas grandes

Segundo a psicologia budista, existem vários reinos por onde todos os humanos atravessam. O reino infernal, por exemplo, de insuportáveis fúria e medo e outras emoções difíceis; o reino animal, habitado por nossos instintos, nossas paixões animais, nosso id. No reino dos fantasmas famintos, as criaturas são representadas com enormes panças ocas, bocas pequenas e pescoços finos e enrugados. Nunca se satisfazem; nunca enchem suas barrigas: estão sempre famintos, vazios, procurando algo do lado de fora — por conta dos pescoços finos, a passagem de água e comida é excruciantemente dolorosa. “Isso fala muito de perto para um tema de nossa sociedade: procurar a satisfação através do que vem do exterior, para que o exterior alivie nossos desejos aqui-agora. Mas nunca nos sentiremos livres dessa insaciedade através do que vem de fora. E, se muitos de nós vão àquele reino de vez em quando, os dependentes estão neste reino o tempo todo. Não há distinção clara entre um dependente identificado como tal e o resto de nós: habitam apenas em um continuum em que todos nós podemos ser encontrados; não saem de lá porque sofreram mais“, explica o médico.

Em sua rotina diária, conforme conta Maté no livro, um dependente está sempre tentando aliviar seu sofrimento. “É assim que começa: os dependentes sofrem antes mesmo de se viciarem em algo. É dessa dor que estão fugindo quando se drogam“, explica. É muito comum que tenham sido abusados durante a infância — e histórias de abandono, de abusos morais ou sexuais na primeira idade se repetem em cada consulta de Maté. Se o físico é indissociável do psicológico, segundo o médico, como seria o seu tratamento? “A primeira coisa é parar de incriminar os viciados, pois estão sofrendo“, aponta. “Logo entenderemos que não são diferentes de nós. Quando os punimos, os incriminamos mais, e então aumentamos seu desejo de escapar da dor, o que faz com que sua dependência seja amplificada.” A técnica de Maté é de uma simplicidade cândida: a verdade. “É como Jesus disse: ‘Fale a verdade e a verdade irá libertar você’. Acho que os seres humanos fundamentalmente gostam da verdade, embora a neguem e resistem a ela. É da nossa natureza”, conta o doutor — que, embora tenha formação judaica, frequentemente mistura livros cristãos, budistas, sufis e hinduístas em sua cabeceira.

E, de fato, ele não separa o espírito do emocional ou do físico. São todos aspectos do mesmo indivíduo, segundo o médico. “No nível espiritual vemos uma descontinuidade; do lado emocional, uma dor tremenda; no lado psicológico, há isolamento, defensivismo, vergonha; no aspecto corporal, há desconforto físico, desconexão com o próprio corpo. Em uma terapia antidrogas, todas essas áreas devem ser tratadas ao mesmo tempo“, prescreve, afrontando as convenções do tratamento médico mais ortodoxo, pouco imaginativo. E certamente ineficaz, como qualquer sujeito com o mínimo de inteligência percebe, ao observar o fracasso da política de Guerra às Drogas.

Maté também passa por cima de convenções morais para tratar da dependência. “A ideia de dependência, claro, não é nova“, lembra. “A única coisa que muda é o conteúdo da adição e seu alvo. Sentir-se vazio por dentro é a coisa mais antiga da espécie humana; a necessidade de ser preenchido pelo exterior é inerente à nossa espécie. Álcool, jogos, compras, internet, videogames, sexo… qualquer coisa é uma justificativa para preencher este vazio“, ele afirma. Segundo Maté, no nível biológico, muitas dependências se equivalem: os mesmos mecanismos cerebrais que disparam a dependência em cocaína acionam a dependência em internet. “É por isso que você não tem de combater a droga em si, e sim a fonte primordial dessa ânsia de preencher o vazio. Do que você sente falta? De onde vem esse vazio? Por que você está desconectado de sua natureza verdadeira? Como você pode se ajudar a se conectar de novo? Não importa qual é a droga, qual é o comportamento dependente: estas são as perguntas que devem ser feitas“, sugere.

(Uma nota importante: em raros casos traduzi por “vício” o termo inglês “addiction“, que significa “adição” — palavra vaga em português, que também quer dizer “soma” (o que nos levaria a lembrar de outra droga, Soma, a substância usada por Aldous Huxley em Admirável Mundo Novo). Mais acurado seria “dependência”, que retira o tema da esfera moral, caso de “vício” – oposto a “virtude” –, e o aproxima do campo semântico da carência, insuficiência, insatisfação, por vezes química, por vezes psicológica.)

Internação compulsória e descriminação das drogas

Questão central no livro, e que muito nos interessa, tendo-se em vista uma lei em votação no Congresso, é a da internação compulsória. Maté é categórico: não funciona. “Assim que você força as pessoas a serem tratadas, elas resistem — é algo natural, automático, nos seres humanos. Há maneiras melhores de tratar as pessoas. Se você falar com as pessoas de maneira compassiva, aceitando-as como são, entendendo seu sofrimento, elas vão abrir suas portas de cura e não resistirão ao tratamento. O governo gastaria menos se convencesse as pessoas a se tratarem, em vez de forçá-las ao tratamento; teria melhores resultados“, sugere.

Outra questão incontornável, da qual o médico não foge, é a da descriminação do usuário — e da legalização das drogas. “Existe uma diferença entre legalização e descriminação”, ensina. “Legalizar é como hoje se vendem cigarros — que aliás são muito mais prejudiciais à saúde do que muitas drogas ilegais. Todo ano 5,5 milhões de pessoas morrem diretamente por causa do tabagismo. Mas é legal, e nem falamos sobre isso: não falamos sobre criminalizar o cigarro, como fazemos com heroína ou cocaína. A descriminação de drogas ilegais foi tentada em alguns países, como Portugal, e lá o consumo caiu. Na descriminação, você nunca processa a pessoa que usou a droga — até mesmo provê o acesso à droga, de maneira controlada, sob supervisão médica, como já vem sendo feito na Inglaterra, Suíça, Alemanha e no Canadá. Desta maneira há menos crime, mais produtividade, essas pessoas passam a viver uma vida mais equilibrada“, relata. Mas aqui Maté trata sobre o uso de drogas pesadas como heroína e cocaína. “É simplesmente estúpido criminalizar a maconha: claro que deveria ser legalizada, sob as leis do Estado, como os cigarros e o álcool — que, aliás, fazem muito mais mal do que a maconha“, defende o médico, do alto de seus cinquenta anos de experiência.

Ayahuasca na redução de danos

No entanto, mesmo em um país cultural e cientificamente mais avançado que o Brasil, como é o Canadá, Maté vem enfrentando resistências ao querer adotar um tratamento inovador — porém, muito pouco difundido, e ainda polêmico. Mas muitos médicos ao redor do mundo vêm adquirindo resultados satisfatórios ao tratar dependentes em drogas através do uso terapêutico e controlado da ayahuasca. A substância, como se sabe, é obtida através da combinação entre uma folha e um cipó — e é usada há séculos por diversas tribos da Amazônia. No século 20, a substância ganhou notoriedade ao se tornar essencial a religiões surgidas na selva brasileira — em especial o Santo Daime. No Brasil, o uso ritualístico da ayahuasca é liberado por lei. Mas no Canadá não, e Maté recebeu muitas críticas por defender seu uso no tratamento de viciados em drogas pesadas.

Por este tratamento, você não está trocando uma substância por outra — tome este chá e vai ficar legal“, conta ele. “Se você é um dependente em heroína e usa metadona, não vai compartlhar agulhas com gente infectada por doenças, não vai cometer crimes, porque terá a metadona — eis a política de redução de danos“, explica. Por esta política, troca uma substância por outra; não trata diretamente do problema da dependência: está atacando os efeitos. Troca uma substância ilegal por uma mais segura, legal — mas pode ficar dependente dessa segunda substância. “Por outro lado, com a ayahuasca, você não está trocando uma substância por outa; está dizendo ‘essa planta vai te dar certos insights e visões e experiência que irão ajudá-lo a compreender você mesmo, a amar você mesmo, lidar com este vazio interior, e você não precisará usar mais drogas’“, analisa o doutor.

Se você vem deprimido ao meu consultório, darei um antidepressivo; você vai pra casa e acaba tomando aquilo todo dia. Não é assim com a ayahuasca: vai beber o chá só uma ou duas vezes na sua vida, ou uma vez por mês, no máximo uma vez por semana, uma vez que a experiência é tão intensa que torna impossível viciar-se nela. A ayahuasca não usará você como as outras drogas o usam — e sim ensinará você como lidar com as outras dependências. É uma outra maneira de lidar com a situação. Não é uma substância para provar sozinho, claro: usando da maneira adequada, com um guia, um apoio, em condições específicas, esta planta nunca será viciante e não causará mal. Vi muita gente abandonar as drogas após o tratamento com a ayahuasca“, afirma Maté.

Por outro lado, é possível criar dependência dos rituais que cercam a ayahuasca, para preencher o vazio que sente na sua vida, não? Não se arrisca a trocar uma dependência por outra? “O mesmo acontece com os encontros do Alcoólatras Anônimos“, concorda o médico. “Falar sobre você nesses encontros também pode ser viciante. Mas eu te pergunto: é melhor encher a cara todo dia ou ficar dependente do AA? Se uma pessoa se viciar no ritual que cerca a ayahuasca, precisamos ver como está sua vida — se ela está destruindo seu corpo, suas finanças, se está vivendo na rua, se perdeu sua família. Não é o que acontece, em todos os casos que eu conheço. Mesmo que se participem dos rituais de um modo vicioso, é ainda melhor do que a dependência em que se encerravam antes“, desenvolve.

Humanos, condenados ao vício

Então será que é da natureza humana estar sempre dependente em alguma coisa, ter sempre a necessidade de preencher um vazio? Maté não acredita nisso. “Quando você está alerta, acordado, aceitando o vazio que há em você, sentirá que não há necessidade de fugir deste vazio, e perceberá ser possível viver sem o vício“, reflete. Ele acredita ser possível ser totalmente consciente. “Mas é uma luta. É difícil ficar acordado — é sempre mais fácil voltar a dormir e aceitar o conforto de uma dependência consoladora qualquer. Por que enquanto não adquire esta autoconsciência, tem tendência a viciar-se“, analisa.

Nos rituais conduzidos através da ayahuasca, o xamã também bebe o chá: pela lógica xamânica, se a sessão é realizada com o propósito de curar os participantes de alguma enfermidade, o xamã deve estar sob o efeito da mesma substância que seu círculo. Por esta analogia, o terapeuta também deve ser alguém que teve um problema com drogas? Qual a relação pessoal de Gabor Maté com a dependência? “Como alguém uma vez me disse, é melhor ser uma pessoa pobre viciada em meditação do que ser um presidente de uma empresa viciado em dinheiro. Você vai causar menos danos a você e aos outros. Há diferentes níveis de dependência e de dano. Vivemos uma sociedade em que não se fala abertamente sobre essas questões“, prefacia o médico, antes de declarar-se ele mesmo um ex-dependente.

“Nunca fui viciado em nenhuma substância”, afirma. “Tive medo de gostar de cocaína, por exemplo. Mas fui viciado em comportamentos como trabalho e consumo. Era viciado em comprar discos de música clássica… cheguei a perder um parto que precisava assistir porque quis passar um tempo em uma loja escolhendo discos“, confessa. Segundo Maté, biologicamente, o comportamento vicioso, seja trabalho, consumo, sexo ou drogas, é o mesmo. “Quando falo sobre meu vício em compras com pacientes que usam heroína, eles me entendem totalmente. É importante que médicos e terapeutas olhem para si mesmos e entendam que não são nada diferentes de seus pacientes — são iguaizinhos“, justifica.

O doutor Gabor Maté esteva no Brasil em maio para um seminário sobre redução de danos no tratamento de drogas, em Brasília (à parte esta matéria na revista Vida Simples, sua visita não foi tema de absolutamente nenhuma reportagem, demonstrando a falta de amadurecimento de nossa mídia em relação ao tema). Há três anos Maté abandonou o consultório para viajar pelo mundo difundindo pesquisas e livros. Hoje mesmo abriu seu novo site, ontem mantém um blog — seu primeiro post versa sobre a morte do ator Cory Monteith, da série Glee, e a dependência da audiência contemporânea em um tema especialmente pesado: a morte de celebridades.

A rotina deste setentão que aparenta 20 anos a menos, apesar do olhar triste, é fazer um trabalho espiritual todo dia — através da meditação, da leitura de poesia ou de algum livro religioso —, além de enfrentar exercícios, natação e bicicleta. Fanático (quase escrevi “viciado”) por música clássica, lê cinco ou seis livros ao mesmo tempo: em sua cabeceira estão The End of Your World, do pensador zen californiano Adyashanti, romances de Isaac Bashevis Singer, a biografia de Sigmund Freud, e, motivado pela recente perda de um cão de estimação, Mystical Dogs, de Jean Houston, cuja tese entende que animais podem ser guias espirituais para os humanos. Mesmo em viagens, o doutor Gabor Maté segue escrevendo: o próximo livro se chamará Toxic Culture — e trata da adição em nível político, ecológico e social. “Não estamos só destruindo o meio-ambiente com o nosso vício em riqueza e poder — não só do jeito óbvio que isso poderia parecer, como levar alimentos de má qualidade às pessoas. Mas também estamsos isolando as pessoas umas das outras; a sociedade produz muitas doenças, a despeito de nossa riqueza contemporânea“, conclui.

Dr. Gabor Maté, em entrevista via skype
Dr. Gabor Maté, em entrevista via skype

Autor: rbressane

Writer, journalist, editor

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