Crítica/Release

O cool e a bossa

Vinicius em sua casa na Califórnia, nos anos 40

Vinicius em sua casa na Califórnia, nos anos 40

Jazz, minha amiga, é esse galo que você ouviu cantar e não sabe onde. Com verve de crítico e fôlego de pesquisador, assim Vinicius de Moraes, vice-cônsul em Los Angeles de 1946 a 1951 [na foto, com Welles], apresentava o jazz aos jornais em que colaborava no Brasil.

Mais boêmio de nossos poetas, Vinicius de Moraes não perderia a chance de conhecer, nos bares e casas de shows em que nascia e florescia, a mais importante expressão artística norte-americana — e, entusiasmado, descrevia nos artigos deste precioso Jazz & Co (Companhia das Letras) as raízes do spiritual, do ragtime, do blues e do jazz. Em prosa e verso, o livro registra em detalhes tanto o nascimento da música negra dos EUA quanto sugere o quanto ela foi importante para que Vinicius de Moraes a incorporasse à nossa nossa bossa nova.

O blues é a voz individual do negro dando forma a sua tragédia íntima. A melodia básica do jazz. É no blues que o negro começa a empregar os elementos novos de sua criação, os valores melódicos resultantes de sua adaptação à nova pátria. Sua tristeza, sempre presente, empresta à forma esse elemento que a faz tão interessante: a blue note.

O trecho talvez soe estranho a quem conheça Vinicius de Moraes apenas pelas canções clássicas da bossa nova ou por seus sonetos — peças já incorporadas à cultura brasileira. Bebericando direto da fonte com gente do meio e tendo acesso às primeiras publicações especializadas — como o hoje clássico Mister Jelly Roll, biografia do pioneiro Jelly Roll Morton escrita por Alan Lomax (1950) —, o Poetinha foi um dos primeiros a tocar no assunto no país do samba e do choro. Assim, este livro funciona para o leitor que pretende descobrir a verve jornalística de Vinicius e para aquele que quer conhecer as raízes da música negra americana — e, por que não, trilhar as rotas paralelas por onde passaram tanto jazz quanto bossa nova.

Para além da estética, o autor de clássicos da música brasileira ouve o jazz como um canto de liberdade. Vinicius começa nos porões dos navios negreiros chegando aos EUA, explicando que, por estarem proibidos de falar, os negros desenvolveram seu canto, que desaguou no spiritual. Narra como o panelaço étnico de New Orleans — juntando polcas, mazurcas, ritmos afro-cubanos, espanhóis e franceses — vingou no ragtime. Traça analogias entre o carnaval de Louisiana e o do Rio de Janeiro. Demonstra, com o famoso ânimo de apaixonado pelas mulheres, como o ambiente dos cabarés e dos bordéis foi essencial à formação do pianista de jazz.

Sempre lírico, assim descreve o que acontecia quando um blues era tocado: “A atmosfera muda. Todos ouvem e se concentram. Sente-se a evocação em todas as faces, e o mistério da ligação do homem às suas origens, a dor de sua rebeldia, a vontade de se libertar, de ser, de crescer, a poesia lancinante que só a linguagem da música soube exprimir para o ser privado dos seus mais ínfimos direitos, menos o de cantar“.

Pelo livro pode se afirmar: o cool não tem nada a ver com a bossa. Curiosamente, emulando preconceitos da época, Vinicius tanto guardava reservas para com jazzistas brancos quanto criticava o bebop ou o cool jazz: tradicionalista, era acima de tudo fiel a Louis Armstrong. A corrente da crítica que afirma categoricamente ver na bossa nova um influxo do cool jazz sobre o samba erudito pode ficar surpresa ao descobrir o asco que o poetinha destinava ao estilo preconizado por Miles Davis e mais tarde cristalizado por Chet Baker (que gravou standards clássicos da bossa-nova) e Stan Getz (parceiro de João Gilberto). Talvez fascinado demais pelas raízes jazzista que pesquisava, não teve distância suficiente para perceber a revolução que gente como seus contemporâneos Charlie Parker e Dizzy Gillespie estavam praticando exatamente naquele momento, ao criar o bebop – que depois daria origem ao cool jazz e, mais tarde, ao jazz total de Ornette Coleman. Assim ele escreve no prefácio a Jazz Panorama, livro de Jorge Guinle pioneiro em apresentar ao país o ritmo norte-americano:

No caso do bop e do new sound não quero tocar, pois, parece-me, constituem apenas uma procura de caminho dentro de um insolúvel impasse. Admito que se goste do cool jazz, mas a impressão real que tenho é de que ele nada mais é do que uma tentativa de abstratizar o jazz, dentro da atual fórmula absenteísta; uma tentativa de despojá-lo do pathos e da revolta que lhe são intrínsecos, de torná-lo erudito e ajustável ao sentimento exangue, obscurantista e elíptico da arte moderna tal como é praticada pela grande maioria.

Jazz, cinema, jornalismo, garotas? Nunca saberemos sobre o que falavam Orson Welles e Vinicius

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O livro mostra um período pouco conhecido da vida de Vinicius, detalhando como sua amizade com gente como o jazzmaníaco Orson Welles e o ídolo Louis Armstrong fez com que acabasse se tornando um dos primeiros jornalistas a contar ao Brasil o que diabos afinal era o jazz. Nos artigos, textos inéditos e poemas reunidos neste Jazz & Co., o leitor se depara tanto com uma prosa sóbria, preocupada em investigar as origens da música negra norte-americana — e que elucida de forma cabal as ligações entre jazz e bossa nova —, quanto delicia-se com histórias como o registro desta jam session, que VM presenciou durante as filmagens de A song is born, de Howard Hawks (1948):

Grandes homens de jazz participavam da filmagem. Quer dizer… de grande mesmo só havia um – o genial Louis Armstrong. O melhor que vinha depois ficava com relação a Louis, à mesma distância de uma super-nova do nosso globo terrestre. Esse melhor era Benny Goodman, Lionel Hampton, o próprio Tommy Dorsey, Mel Powell, Charlie Barnett e o Golden Gate Quartet. Era gostoso. O pessoal ensaiava e filmava o dia inteiro, e à tarde, já cheios daquela história, se reuniam e tocavam como queriam. Havia sempre alguma figura importante em música popular que também vinha peruar a chacrinha, como Sarah Vaughan, e vários músicos brasileiros amigos meus que participavam da filmagem – José Carioca, Nestor Amaral, Russo do Pandeiro, Laurinda de Almeida, entre outros. A gente ficava por ali batendo um papinho com um e outro – era gostoso ouvir, às vezes, provindo de algum cantinho do set o som divino do trompete de Louis ensaiando a pauta do filme.

Gostoso, não? Espere até chegar aos poemas, em que Vinicius aproxima sua lírica da velocidade do bebop, colorindo os versos com termos gringos. Como nos versos em que concentra sua admiração a Manhattan, ou na engraçadíssima balada de um homem casado e sua relação de amor e ódio por uma gata americana, ou no poema em que explicava por que se despedia dos EUA: “O senhor sabe lá o que é um choro de Pixinguinha?“. Pelo percurso de cinco anos registrados neste livrinho, descobrimos: perdemos um jazzista entusiasmado para ganhar um dos pais da bossa-nova.

[Release para o publieditorial DasLetras]

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