Ensaio/Entrevista/Perfil/Reportagem

Amor nos tempos do Colt

A polaca Amélia e o cafuzo Joaquim protagonizaram um belo e estranho romance nascido sob as brumas de pólvora da Revolução de 1932

Em uma festa nos anos 50, Joaquim segura uma neta; Amélia está de camisa branca ao centro. Por que tão sérios?

Em uma festa nos anos 50, Joaquim segura uma neta; Amélia está de camisa branca ao centro. Por que tão sérios?

Amélia amava um uniforme. Olhava pela janela do quarto o destacamento do Exército, parado a centenas de metros de casa, do outro lado da rua. Tinham vindo de longe para fazer pressão sobre um grupo de baderneiros da cidade de Araraquara, a cogitar em revolução. Amélia não sabia disso. Tinha 16 anos e achava que vislumbrava, lá dentre os duzentos soldados, um que acenava a ela um sorriso mais largo. Achou tanto que acabou soltando ao padrasto estar apaixonada pelo reco. Levou safanão: mulher direita não é mulher de soldado raso. Ainda mais um soldado do governo traidor de São Paulo. Ainda mais um mulato meio cafuzo. Amélia Wilczenski, loura de olhos azuis, tinha vindo da Polônia. Os pais haviam morrido durante a Batalha de Varsóvia, na Guerra Polaco-Soviética de 1920 — o pai, capitão do exército, odiava os russos -, e uma família de portugueses adotou a menina que tinha emigrado para São Paulo com uma tia distante. Vá buscar minha camisa, ordenou o padrasto. Caixeiro viajante, perambulava pelo país guardado por um velho Colt. Amélia viu a arma no que fuçou no guarda-roupa. Mirou no mamilo esquerdo e puxou o gatilho. Voltou à sala levando a camisa. Caiu dramática, estendendo ao padrasto o linho impecável – e tingindo o chão de vermelho.

O drama prosseguiu no hospital: a bala, a dois milímetros do coração, inutilizou um dos pulmões. Mas cumpria saber se o tiro não era para apagar desonra. E Amélia foi examinada por outro médico, que dissipou a névoa da pólvora: a moça é virgem – atentou contra si por medo de perder o seu amor. A essa altura, o tal amor, envergando verde-oliva, tremia na antesala, entre o fogo de um capitão e a forca do padrasto. Viu uma semimortalha tremular vinda da enfermaria: Amélia, a moça da janela. E sorriu aqueles dentes que ela conhecia de longe, brilhantes no meio da cara morena, mistura de português, índio e negro. Meses mais tarde, contrariaram a política do ano de 1932 – que não aplaudia uma filha de São Paulo juntar-se a um representante do federalismo getulista, caso do mineiro soldado Joaquim Pedroso de Lima – e foram morar em uma casinha em Araraquara. Separariam-se 45 anos e 7 filhos depois, quando, pouco antes de assistir ao último bangue-bangue, Joaquim sentiu que o coração não era blindado. A frágil Amélia viveria ainda um quarto de século até finalmente depositar sob a terra a enferrujada bala do revólver do padrasto. Até este dia, contaria diversas e variadas vezes a história do amor de sua vida. Nem todas as versões batiam.

Em tempos de balas perdidas e sexo achado em computador, os amores são expressos. Feito café, bebidos em pé, ao balcão. Amélia e Joaquim, Paolo e Francesca, Bonnye e Clyde, Serge e Jane, Dante e Beatriz, Phyona e Shrek – isso não deve existir mais, hoje que vivemos novos e variados argumentos, em galanteio no Gtalk, negaceios via SMS, juras de Whatsapp, putaria em Facebook, foi bom te conhecer via DM. O amor hoje sequer dura 140 caracteres. Stendhal (O vermelho e o negro) enumerava quatro tipos de amor: o amor-paixão, o amor-gosto, o amor-físico e o amor-vaidade. Vivesse hoje e veria muito maior o seu cardápio – todo ele baseado no amor-vaidade. Talvez fosse necessário documentá-lo com uma tulha de logotipos, posto que hoje a amar se conjuga o verbo ter – é o amor-acessório, o Yorkshire da estação pendurado no braço, a SUV branca em frente à casa, para o gozo das amigas e o esperneio dos invejosos. Deveriam ser difíceis hoje os amores, para o serem? Os tais amores que subsistem à sombra dos espelhos da mídia e dos obituários da burocracia, da esteira rolante do shopping center e do grito do camelô… “Eu não consigo me apaixonar”, me lamenta um amigo amoroso, rastejante pelos abismos que cintilam aos quatro cantos de seu umbigo, à cata da próxima vítima.

Somos todos Paolos e Francescas voando num veloz vendaval de brands e tags, garotos-propaganda de afetos escorregadios, sem conseguir se agarrar um ao outro, ou ao chão que nos proteja – e a pena do casal luxurioso preso no Inferno de Dante vira migalha do cotidiano, fofoca ontem soprada, hoje esquecida. Já que o amor que move o Sol e as estrelas não é para principiantes, talvez amor seja só para quem não o saiba, nem o teorize. Mas se não inventá-lo, como sabê-lo, se não ao abrigo dos instintos, à sorte dos afetos? Amor de verdade não precisa de auto-ajuda, a não ser aos onanistas mais febris. Daí que o culto ao corpo, a cultura do Eu, o espírito de competição e a grama mais verde do campo de golfe do vizinho sejam dedurados como novos demônios. Onde antes era tédio do convívio, hoje é a ressaca do consumo. Para não cair no desespero daquele meu amigo, quem sabe o negócio não seja tentar de novo Stendhal, com sua teoria da cristalização: “Se colocarmos um galho seco em uma mina de sal em Salzburg, quando o retirarmos ele estará tão carregado de cristais e seu aspecto primitivo tão transformado que teremos dificuldade em reconhecê-lo. Assim também é o amor: na sua mais pura essência ele é feito de imaginação e de desejo, e cria no coração do homem uma idealização que faz parte da própria vida”.

Então, quem sabe, não será o amor que passou, nesses tempos de amores tão fugazes – uma vez que, na velocidade, já não mais o reconhecemos, aqui, agora, rápido feito bala. Sem querer ouse sobre a sabedoria de meus avós Amélia e Joaquim, em seus românticos tempos de amor-balada, lembro só o velho drummondiano: sossegue – que o amor é isso mesmo. Hoje beija, amanhã não beija. Segunda-feira, ninguém sabe o que será. E hoje já é terça.

[Texto publicado em uma edição especial da HomemVogue de 2004, dentro do dossiê Amor.

Editado pelo capitão Fred Melo Paiva, o dossiê contava com perfis de alto coturno: o cineasta cabra-safado Lírio Ferreira, a irmã Stella Brunetta, Bruna Surfistinha, a virgem de 29 anos Elaine Assis (pense numa personagem difícil de achar, um antifuro de reportagem), a sexóloga Sonia Blota Bellotti e o megafofoleto ator Tony Ramos. Prepare o lenço que lá vem chumbo grosso.

Ah, sim: minha mãe é a mocinha de branco, a 2a à esquerda, segurando sua Coca-Cola – melhor metáfora do amor expresso, não?]

GANDAIA
Conquistador com nome de flor? Não parece, mas faz todo o sentido. O recifense Lírio Ferreira, 40 anos, co-diretor de Baile perfumado e diretor de Árido movie (estréia em 2006), tem nome florido e apelido cantado e decantado no Baixo Gávea, Rio, onde vive – “Colírio”. Culpa dos olhos verdes, do riso constante ou do carinho a perigo, não se sabe. Fato é que a fila anda, e o CV do moço enfileira algumas das jóias da coroa do TV, do cinema e do teatro pátrio. Quem? Nunca que ele dirá. Astúcia de matador é jamais dar o nome das vítimas. E como tanto talento, dentro das quatro linhas? “Não tenho a menor idéia. Acho que é porque tenho cara de carente”, ri. Lírio foi casado durante 8 anos com a bailarina Maria Eduarda, e com ela teve a filha Julia, “único amor verdadeiro de minha vida”. De lá para cá, são 10 anos de gandaia e gréia, como se diz em Pernambuco. Nada de namoro? “Deve ser incapacidade minha. É complicado namorar comigo. Não aprendi direito esse negócio não. Nunca sei a dose certa, sempre exagero. Sou um copo d’água transbordante.” É realmente difícil amar em tempos de amores tão passageiros? “Sm, é claro que hoje existe uma superficialidade.

A facilidade com que as coisas acontecem e o acesso à informação dos outros são tão grandes que, hoje, a lei do acaso é menor. Hoje desapareceu a beleza do acaso, as coisas que acontecem de repente, na imaginação. Hoje você sabe onde todo mundo está – é tudo mais planejado. Isso se reflete nas relações. Daí ser difícil de mergulhar de cabeça. Não que eu tenha medo disso! Eu busco. Há essa velocidade frenética, mas não perco a expectativa de que um dia o milagre vai acontecer.” Desvincula o amor do sexo? “Completamente. Podem acontecer coisas simultâneas e separadas ao mesmo tempo. Mas, por outro lado, eu tenho amor pra caralho sem sexo. Eu amo pra caralho sem sexo!” Como é quando fica apaixonado? “Tenho um abestalhamento assumido e completo. O sofrer do amor é profundo, denso, extraterrestre, espacial. Alguns transcendem. Eu fico abestalhado.” Quando foi seu primeiro amor? “Acho que foi uma menina chamada Mônica, não sei se era o amor, até hoje não sei o que é isso. Tinha 10 anos, morava em Olinda. Amor puro. Com 18 anos, tive um amor profundo por Adriana. Maria Eduarda foi o amor maior que tive. Mas ainda não fechamos para balanço.”

É possível ter muitos amores em uma mesma vida? “Claro. E o contrário também.” Dizem que as mulheres estão aprendendo a separar melhor sexo de amor. É verdade? “Pergunta pra elas. Me deixa com meus demônios, que são muitos!” O que você já fez de mais sério por causa de um amor? “Demonstrar completamente uma humilhação total. Mas é melhor não dar o nome do santo, digo, da santa.” E qual o maior sacrifício que você já fez por amor? “Deixar de amar.” Qual a canção de amor de que você mais gosta? “Como estou finalizando meu documentário sobre Cartola, estou imerso na voz dele. Agora estou muito apaixonado por ‘Acontece’: ‘Acontece que meu coração ficou frio/ E o nosso ninho de amor está vazio/ Se eu ainda pudesse fingir que te amo/ Ah, se eu pudesse…’”, cantarola. E uma frase que expresse com precisão o amor? “’Só se ama errado’, do filme Amarelo manga.” O que você não faria de jeito nenhum, por mais que seu amor pedisse? “Eu faço tudo! Daí é que tá a merda! Se me esconder, deixar de demonstrar, vou deixar de ser amostrado. Isso seria contra minha natureza.” E o que é o amor? “Não tenho a menor idéia.”

RENÚNCIA
Há 70 anos Irmã Stella Brunetta nasceu em Herval d’Oeste (SC). Os pais, Teolindo e Angela, eram agricultores. Stella abandonou a religiosa e numerosa família (12 irmãos) para entregar-se ao amor de Jesus Cristo em Itu (SP), aos 14 anos, ingressando na Ordem de São José de Chambérry. Seu Teolindo sofreu com a decisão – chorou como criança quando ela entrou no convento. Nesses 56 anos de amor irrestrito ao Pai, Stella passou por Taubaté, Santos, Piracicaba e São Paulo, onde foi professora de português, francês e religião. Em 1990, foi destacada para levar a palavra à Suécia, país predominantemente católico. Foi o maior sacrifício que já fez por amor. “Tinha 43 anos, nunca saíra do país. Precisei nascer de novo. É um país protestante, eles não entendem uma freira – ‘como não poderia me casar?’, perguntavam.” Uma vez, um sueco enfiou na cabeça que queria ser marido da freira. “A gente tem aquele afeto, sabe. Há pessoas que entendem errado. E ele se apaixonou por mim. Eu disse: de jeito nenhum!” E a irmã, já teve alguma paixão? “Tive um ‘paquera’, aos 14 anos. Demorei um ano até me resolver. Mas me apaixonei por JC pois ele nunca desistiu de seu projeto. Hoje, me sinto apaixonada por todas as pessoas.” Como desvincular amor de sexo? “Não há desvinculação. Há unidade total. A pessoa é capaz de ultrapassar os instintos para uma felicidade maior. Não separo nada da pessoa: nem política, nem economia, nem sexo, nem religião.”

Como amar em nossos tempos? “Tudo está bagatelizado. Nós não temos tempo para refletir o que nos leva à felicidade. A violência na TV é algo que não agüento ver – é como se, vendo, ficasse compromissada com o instinto de ódio e destruição. Fico com pena das famílias que bebem novelas em frente à TV, quando há tanta coisa linda para viver.” Amor é ilusão? “Se ilude, não é amor. Amor é comprometido.” Qual a canção de amor de que você mais gosta? “‘Vós sois um mistério, Senhor, nós O contemplamos no amor.’ Nadamos no mistério, mergulhamos nele, nos deliciamos nele. JC sempre me leva além, nunca me deixa no mesmo lugar.” O amor já lhe trouxe algo ruim? “Não, mas é exigente. Viver em uma comunidade que você não escolhe é difícil.” A paróquia em que Stella trabalha, depois de ter passado 15 anos na Suécia, fica no violento Jardim Miriam, zona sul de São Paulo. “Há poucos católicos na nossa região. Os protestantes são ousados, atraem mais gente. Acho, porém, que religião não é para ser imposta. Nós convidamos, mas a freqüência é livre.” O que você não faria de jeito nenhum, por mais que seu amor pedisse? “Não sei o que não faria. Tudo é um apelo para que o outro seja feliz.” O que é o amor, irmã? “É a fonte da minha vida. Só me realizo dentro da realidade ‘amor’. Desconhecer que sou isso é o mesmo que colocar um peixe em uma árvore, para salvá-lo da água. Se o mundo está com medo, é porque desconhecemos que o amor é o nosso chão.”

OFÍCIO
Bruna Surfistinha, 20, entrou para a história brasileira da mais antiga das profissões como a primeira garota de programa a ter um blog. Agora já tem um site, o http://www.brunasurfistinha.com, onde se mostra totalmente nua, em imagem e texto – tão ágil nos dedos quanto em serviço, narra suas peripécias diárias em detalhes bem-humorados (um post relatando as diferenças testiculares merece entrar para os anais da literatura pornô). Tanto trabalho não proíbe a menina do interior, que veio fazer a vida em São Paulo há 3 anos, de se apaixonar. “Foram quatro vezes. A primeira aos 11 anos, por um vizinho. A 2ª, pelo primeiro namorado, eu tinha 14. A 3ª vez, com o 2º namorado, com quem tive minha primeira vez – ele também era virgem. A 4ª paixão foi por um um cliente, durou 4 meses”, enumera Bruna, de novo apaixonada – e de novo, por um cliente, um advogado casado de 42 anos. “Gosta de caras mais velhos. Nunca me dei bem com meu pai, assim, procuro no meu homem alguém que cuide de mim, como um pai que nunca tive.” Ele não tem ciúme? “Não, mas quer que pare com os programas.” Como é se apaixonar? “É quando penso: este é o homem com quem eu vou casar.”

Como separar o amor do sexo? “Separo muito bem meu trabalho com o sexo da pessoa por quem está apaixonada. No amor, me entrego de corpo e alma. No trabalho o sexo é mecânico.” Como amar em tempos tão passageiros? “A culpa é dos homens. Se o homem não está satisfeito, procura fora de casa. A mulher procura fora de casa um sentimento que o marido não oferece. Os homens querem curtir mesmo.” O que é amor? “É colocar a mão no fogo por essa pessoa.” Algum cliente já usou Viagra com você? “Que eu saiba, não. Já tive clientes bem velhos, um deles de 67. Não gostaria de estar com um homem sabendo que term tesão por causa de um remédio.” Você beija seus clientes? “Se rolar uma química… Às vezes, só de tocar já sinto tesão, aí beijo mesmo.” Qual o maior sacrifício por amor? “Esconder meus sentimentos, por medo de perder uma amizade, como pelo meu atual namorado. Tive medo que ele soubesse que estava apaixonada. Ele é casado, tem filhos. Mas não tenho esperança que ele deixe a família por mim.” Amor é ilusão? “A Bruna é uma personagem. Sei dividir trabalho e vida pessoal. Não penso no meu prazer, embora às vezes tenha muito prazer. Fico com medo de me envolver com cliente, por isso faço meu trabalho e pronto. Mas às vezes não tem jeito…”

Qual a canção de amor que você mais gosta? “’Natacha’, do Capital Inicial, marcou a minha vida.” O amor já trouxe algo ruim? “Sim, fugir da casa dos pais. Depois que saí é que aprendi a amá-los. Mas acho que não os terei de novo. Sou adotada, nunca vi a família como deveria ter visto.” Existe alguma trilha sonora ideal para fazer amor? “Um CD do Jota Quest.” Qual a melhor cantada que você já escutou? “Só o olhar já me pega.” Quanta vezes você se deita, por dia? “Cinco por dia, da uma da tarde às 10 da noite. Mais que isso, fico cansada.” Já pensou em parar? “Vou parar no ano que vem. Hoje cobro R$ 150 uma hora, R$ 600 por uma noite. Quero fazer um site de sexo na internet para ganhar mais.” Você é uma pessoa literalmente pública. Já sofreu por isso? “Ninguém paga minhas contas, não tenho vergonha do que faço.” O que não faria de jeito nenhum, por mais que seu amor pedisse? Bruna tem uma lista de coisas. “Não mudaria de país para morar com um homem. Não conseguiria deixar para trás minha vida. Também nunca deixaria que um homem falasse para não trabalhar.” E no amor, no sentido mais genérico… “Não bato nem apanho. Também não gosto de fistfucking ativo. Às vezes tenho que ser ‘Bruno’, é estranho. Geralmente são homens casados quem pedem. Nunca ia querer que meu marido me pedisse isso.”

Amar pode escravizar? “Não se cada um tiver liberdade, fazer o que quiser, na vida e no trabalho, confiando um no outro. O sexo tem que ser conversado, para ambos realizarem fantastias juntos, não separados.” O que faria se pegasse seu amor com outra? “Sempre fui muito fiel. Se eu descobrisse que sou enganada, ia ficar literalmente puta.” O que sonha para este dia dos namorados? “Nunca passei um Dia dos Namorados namorando. Queria um jantar romântico. E depois, um motel até de manhã.” Com quantos homens você já esteve? “Comecei com 17, com uma média de 5 a 6 homens por dia… fiz as contas outro dia: foram mais de mil.”

CASTIDADE
A carioca Elaine Assis de Almeida, 29 anos, é uma mulher à moda antiga. Ela se guarda casta, à espera pelo homem ideal para dar o start. Espera ansiosa: há três anos a mestra em língua portuguesa se considera pronta para teclar enter. Mas não encontra um cristão capaz. Como diria a escritora Flannery O’Connor, é difícil achar um homem bom. Daí que, em plena Vila de Penha, bairro-santuário do safardana Romário, Elaine guarde seu mimo a sete chaves. “Sei que isso foge dos padrões, mas não tenho vergonha de dizer que sou”, conta ela à VH, em voz segura e contida. “Não encontrei nenhuma pessoa como possibilidade de me conhecer. Ninguém têm personalidade para conversar. Só querem sexo.” Não há nada de religioso em seu dogma, ela jura. É só questão de escolha. Elaine já foi muito apaixonada, na adolescência. “Platônico. Igual o poema ‘Quadrilha’, do Drummond.” Namoros, vários. Nenhum passou dos beijos e dos fatídicos três meses. “Nunca fui aos finalmentes. Mão boba, sempre cortei. A mulher não tem que agradar ao homem. Se eu não estiver a fim, não adianta.” Mas… e eles? “Alguns fugiam, outros eram mais ousados. E me deixavam mais retraída ainda. Diziam: ‘Isso é um absurdo, você é frígida!’. Acabava perdendo a vontade de ficar com o sujeito.”

O que sua mãe acha disso? “Me apóia em tudo.” E sua irmã? “Não costumo comentar com a irmã a situação. Que, aliás, é a mesma.” Você tem a virgindade como uma bandeira? “Nada disso. Não sou de ficar dando opiniões. Na vida dos outros, eu não me meto.” O que é ficar apaixonado? “Ansiedade.” Qual a frase favorita sobre o amor? “Camões: ‘Ainda que eu falasse a língua dos homens e a língua dos anjos, sem amor eu nada seria’.” Como desvincular o amor do sexo? “Não separo uma coisa da outra. Mas não sou contra quem separa: cada um concebe amor de uma maneira.” Está difícil encontrar o príncipe encantado? “Sou muito tímida, não sou chegada a badalação, não saio à noite, gosto de ir a cinema, teatro.” Como amar em tempos de amores tão passageiros? “As pessoas querem a perfeição no parceiro. Pessoas impulsivas vêem que não foi nada daquilo que não imaginava: leva tempo para conhecer uma pessoa. Neste impulso acabam construindo uma relação que não tem nada a ver, como no caso do Ronaldo Fenômeno com a Daniela Cicarelli.” Qual o maior amor de sua vida? “Nunca vivi. Fico frustrada com isso. Você sai, vê os casais, dá uma melancolia. Não sou feia, alguns vêem minha virgindade como defeito. Mas já estabeleci uma meta: dos 30 anos, não passa.”

Qual a pior cantada que você já escutou? “No centro de cidade: ‘Nossa, que bunda linda!’ Me senti um objeto.” O que você não faria de jeito nenhum, por mais que seu amor pedisse? “Alguma coisa que fosse contra seus princípios. Um exemplo: muitas meninas adolescentes perdem a virgindade para dar uma prova de amor. Não acho isso correto.” Você é frígida? “Claro que não. Até gosto de ler umas cenas de sexo mais fortes, como nos livros do Sidney Sheldon, que mexem comigo. Me considero normal. Só não vejo filme pornô.” E o que você faz quando essas cenas mexem com você? “Tomo um banho de água gelada.”

TEORIA
Sonia Blota Bellotti, paulistana, só pensa naquilo. Ela é sexóloga. Filha de uma familia toda de jornalistas e apresentadores de TV, radialista também, psicóloga formada há 25 anos, é especialista em sexualidade e psicoterapia clínica, além de editar o site Teias. Direto de Boston, onde ajudava na mudança de um de seus X filhos, Sonia elaborou para a HV uma verdadeira pensata sobre o amor do século 21. Quando foi seu primeiro amor? “No Carnaval, onde mais poderia ser para uma mulher brasileira? E só durou aqueles 5 dias, que naquela época o baile começava na sexta-feira e terminava terça de madrugada. Era pecado cantar as músicas na quarta de Cinzas, mas seria preciso MUITA cinza pra fechar minha boca enamorada… Andava tão distraída na rua no dia seguinte que quase fui atropelada. O melhor de tudo não é descobrir que se ama, mas que se é amada.” Como define paixão? “Descobrir que você não consegue prestar atenção em mais nada a não ser no ser amado. Redescobrir sonhos que você tinha deixado para trás sem realizar, torná-los realidade com um vigor que você não mais supunha existir. Não sentir medo do que costumava te apavorar, não julgar os outros com dureza. Acordar gostando mais de você. Achar que o tempo é circular e não mais linear: tudo pode voltar e ser um eterno presente.”

Como amar em tempos de amores tão passageiros? “Do mesmo modo que se ama em tempos de amores duradouros… Amar é eterno, o tempo é que é passageiro. Mudou foi a idéia ilusória de amor, de que alguém é metade de outro – laranja, tampa de panela, alma. Metade de uma alma? Seria preciso dividir o indivisível para sustentar essa história de amor eterno…” Como desvincular o amor do sexo? “E por quê? Os dois formam uma dupla imbatível quando trabalham juntos e bem; uma dupla dinâmica, como 2 super-heróis.” É possível ter muitos amores em uma mesma vida? “Possível é pouco: é preciso! Diferentes graus de amor, diversas profundidades, densidades, amores de cabeça, de corpo, de membros…” As mulheres estão aprendendo a separar melhor sexo de amor? “Não acredito que cheguem a preferir amor sem sexo, mas certamente hoje jogam melhor o jogo que até há alguns anos era território dominante dos homens.” O que já fez de mais sério por causa de um amor? “Decidi ter filhos.”

Acredita que as pessoas alcançaram, afinal, aquela liberdade sexual batalhada nos anos 60? “Não. Nunca se teve tanta informação sobre sexualidade e nunca se teve tantas doenças sexualmente transmissíveis, e casos de gravidez na adolescência (cada vez mais precoce), por exemplo. Alcançar um ideal implica em mudar atitudes, não só idéias e isso implica em modificar hábitos. Os palavrões estão na boca de meninos de 4 anos que ouviram de seus pais na mesa de jantar, e esses mesmos pais ainda se recusam a colocar camisinha. Algumas mulheres casadas trocam de parceiro e contam isso com orgulho, mas ainda vasculham os diários das filhas para controlar a vida sexual delas quando estão namorando. Liberdade seria bom, mas ainda estamos tentando parecer liberais para os outros.” Qual a canção de amor de que você mais gosta? “’You Got It’, de Roy Orbison, cantada maravilhosamente pela Bonnie Raith.”

FIDELIDADE
Num intervalo da filmagem do longa Se eu fosse você, o ótima-praça Tony Ramos conversou com a HV. “É uma comédia elegante, em que marido e mulher, que têm uma vida resolvida, têm seus comportamentos ‘invertidos’, por um truque que o espectador só vai saber no final”, conta o ator, entusiasmado. O filme-família tem tudo a ver com o avô de Henrique, 5, e Gabriela, 1, pai de Rodrigo, 34, cirurgião, e Andréia, 33, advogada. O ator de 57 anos está casado há 36 com Lidiane Barbosa. Mas essa regularidade não vem de família: sua mãe se casou três vezes. “Foi uma mulher muito corajosa, para fazer isso no início dos anos 50. Se não deu certo, por que não mudar?” E por que com Tony deu certo? “Quando se fala de amor, tem que falar de individualidade. Entender o que se passa nos universos dos silêncios, que não devem ser revelados. Às vezes, são do nada, do ócio. Lidiane tem, eu tenho, saco quando ela está no cantinho dela, lendo. Nunca me perguntou a famosa frase: ‘Em que você está pensando?’”

Tony se chateia um pouquinho de ter, toda hora, de dar seu depoimento como “marido exemplar”. Mas vai em frente, elegante, sempre. “Quem é exposto à curiosidade pública tem que dar opinião sobre tudo. É um porre. Há coisas que dizem respeito ao mero foro íntimo. Condeno essa necessidade atual de expor tudo, às mandíbulas, aos glúteos…”, brinca. Casado também com a Rede Globo há 29 anos, Tony aproveita os espaços entre novelas para ler. “Reli há pouco L’étranger, de Camus, Dernier soupire, de Buñuel, e agora agarrei As mil e uma noites, na tradução do Mamede Mamouche. Sou muito low profile, nunca persegui a fama, gosto de ficar no meu canto. Talvez daí a longevidade do meu relacionamento”, esboça. Mas logo, ao falar de Lidiane, seu ar contido se transforma. “O amor é a coisa mais importante do mundo… o amor-companheiro, o amor -confidente, o amor-dor, o amor-paciência, o amor-perseverança, o amor-compreensão, o amor-companheirismo, o amor-entranhas, o amor-pele… é o amor total. Se você galinha nesse amor, ele se esgarça. A relação plena não é só sexo, histeria. Eu prefiro o exercício do amor pleno.” Como ficar tanto tempo com a mesma mulher, em um meio profissional tão volúvel? “Meu meio não é volúvel. É exposto à curiosidade. Nós, artistas, guardamos um pensamento libertário, as pessoas questionam as relações e não são hipócritas. Isso é confundido com volubilidade. Médicos e advogados não estão expostos à curiosidade e fazem coisas incríveis, mas você não fica sabendo.”

Como ficar tanto tempo com a mesma mulher, em uma época marcada por relacionamentos fugazes? “Vivemos uma época sem romantismo e elegância. Ser elegante é ter ética. Não é ser babaca, chato. É criar uma estética comportamental. Vivemos uma época midiática demais. Todos falam alto demais, adoram se exibir. É melancólica essa exposição de personalidades para vender revistas. A vida ficou clipada. É o mesmo que ler um livro eletrônico. Como ler os adorados Cervantes e Lorca num monitor? O prazer de virar páginas é carnal. Hoje, uma cena mais longa, em que a palavra é exercício, é chamada de papo-cabeça. A palavra caiu em desuso. Então vemos por aí as pessoas falando aos resmungos. É horrível! Num mundo como este, o exercício a dois fica difícil. Podem me chamar de cagador de regras. Mas é nesta ética que acredito.” O que faria se seu amor morresse de repente? “Não saberia nem olhar para outra pessoa.” Como definiria o amor? “A melhor definição é: que aconteça na vida de cada um. Não adianta falar em dicas para ser feliz. É como fazer regime: o negócio é parar de comer. Fundamental é respeito, olho no olho, afeto, e humor. Muito humor.”

Um pensamento sobre “Amor nos tempos do Colt

  1. O maior problema no fim, talve seja que o amor, para ser amor precisa aniquilar quem ama. Tudo que somos se submete ao amor para que ele seja e tudo que precisamos é do amor. Uma raça de masoquistas, com um desejo de morte incontrolável.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s