130 anos de Kafka

Kafka no traço de Crumb
Kafka no traço de Crumb

Para comemorar o aniversário do homem que virou adjetivo e cuja obra é um universo paralelo, um papo com seu biógrafo, Louis Begley

Sonhos intranquilos

Péssimo com as mulheres, com forte tendência ao sadomasoquismo, se preocupava mais com a escrita que com a saúde e temia encarar a vida adulta: este é o Franz Kafka de Louis Begley

Quantos anos vocês conseguirão suportar? Por quanto tempo conseguirei suportar vocês suportando?” O epigrama enigmático poderia formar numa antologia de contos de Franz Kafka. Mas era só um bilhetinho rabiscado em seu leito de morte, dirigido ao médico, a um amigo e à então namorada Dora Diamant. Já sem voz, com dores terríveis na garganta, Kafka escreveu até morrer, de tuberculose, pouco antes de fazer 40 anos. Na semana anterior, havia revisado as provas de seus últimos contos, como o extraordinário “O artista da fome“, que, raridade, seriam editados numa revista com o objetivo de bancar o hospital: Kafka publicou pouco em vida, quase nada fez em favor de seus textos e, pior, determinou ao amigo Max Brod que queimasse todos os seus escritos. Felizmente, a traição de Brod nos legou a obra literária mais influente do século 20.

O paradoxo de um homem que vivia para escrever mas temia que a sociedade conhecessse sua literatura é esmiuçado no belo O mundo prodigioso que tenho na cabeça: Franz Kafka, um ensaio biográfico, do romancista polonês-americano Louis Begley (Companhia das Letras, 259 págs). Para contar com rigor a vida deste “homem que não estava lá“, o autor de Naufrágio recorreu à vasta bibliografia sobre Kafka e teve acesso a diários e cartas – trabalho kafkiano por conta das incongruências, falsas interpretações e parca documentação. Do pequeno e denso livro emerge um gênio profundamente humano: tem dificuldades em lidar com as mulheres, talvez não tivesse prazer no sexo, embora frequentasse cabarés, por certo sentia muito prazer na dor, tinha uma relação de amor e ódio com o judaísmo, detestava trabalhar, morria de medo do pai, era amoroso com os amigos e muito vaidoso: exercitava todo dia o corpo de 1,82m e 60 kg.

Begley foi astucioso em não se render à maioria das análises da obra de Kafka, que a vêem como mera autobiografia, e a relaciona à vida social e cultural de Praga, a seus amores e livros; ao final da leitura, “nossos sentimentos por Kafka facilmente tornam-se fraternos, e somos, assim, profundamente afetados por seus deslizes, derrotas e sofrimentos, como se fossem nossos“. A seguir, Outlook conversa com Begley.

O romancista e ensaísta norte-americano Louis Begley
O romancista e ensaísta norte-americano Louis Begley

Kafka não tinha habilidade para sair da casa dos pais, para manter um relacionamento, sequer ser publicado… Kafka não queria crescer? Você pegou o ponto. Ele estava, em muitos sentidos, preso à infância. Nunca poderia crescer. Kafka jogava a culpa sobre o pai: a extraordinária e terrível Carta ao pai é toda sobre isso.

O Kafka de seu livro, doente, auto-punitivo em relação a sexo, amor e casamento, lembra alguém de comportamento sadomasoquista… Ele era claramente obcecado pela dor – incluindo dor infligida a ele. Apenas lembre do recorrente tema das facas, contra ele e contra outros. E pense na extraordinária carta a Milena, citada em meu livro: “Sim, tortura é extremamente importante para mim – minha única preocupação é torturar e ser torturado”…

Tive a impressão de que Kafka era um mitômano, sempre reescrevendo sua própria vida. Foi uma armadilha para compreender sua vida? Não sei se concordo. Kafka tinha um supremo desejo: colocar no papel o “mundo prodigioso que havia em sua mente“. Permaneceu sincero em seu projeto, levou-o tão a sério que, mesmo gradualmente minado pela tuberculose, sua força era toda direcionada para trabalhar em romances e contos. Também acreditava profundamente no dever de se casar e chefiar uma família. Mas entendeu que casamento, especialmente com Felice, fatalmente iria interferir em sua escrita. Era um grande conflito para sua vida.

Você é um romancista; por que escrever uma biografia, e justo a de Kafka, que teve uma vida tão pouco documentada? Sim, sou um romancista, nunca pensei em mim como um biógrafo. A razão porque escrevi este livro é que o editor é um grande amigo, e tem me pedido há anos um livro sobre Kafka. Quando finalizava Questões de honra, ele me pediu de novo, e desta vez pensei que poderia ser uma boa mudança escrever um livro que não fosse um romance. Claro, eu admiro Kafka desde a primeira vez que o li, provavelmente aos 15 anos, li tudo o que ele escreveu, e foi ótimo escrever sobre ele. Mas percebi ser muito mais difícil escrever sobre alguém que realmente existiu em lugar de abordar personagens que você mesmo inventou.

Autor: rbressane

Writer, journalist, editor

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