Hemon, Dyer… e Lila

Lila pede uma Coca com gelo e limão na Merça
Lila pede uma Coca com gelo e limão na Merça

Na FLIP: um inglês que sonha morar em outro país; e um bósnio e uma iraniana que, exilados à força, abraçaram o idioma inglês

Aqui, na Revista da Cultura do mês, perfilo o bósnio-americano Aleksandar Hemon. Aqui, em um velho número do saudoso suplemento cultural Outlook, do quase extinto jornal Brasil Econômico, perfilo e entrevisto o inglês Geoff Dyer. E, abaixo, para a revista Bazaar Brasil de junho, perfilo a iraniana-americana Lila Azam Zanganeh.

Encantadora de borboletas

A bela escritora franco-iraniana-americana Lila Azam Zanganeh, autora de um livro sobre Nabokov e a felicidade, tem tudo para ser a musa da próxima Flip

Lila chega à Mercearia São Pedro dez minutos depois do horário combinado — e dez minutos depois de iniciada a conversa, sua fala ligeira já borboleteou de literatura para as línguas que fala, daí para as semelhanças entre iranianas e brasileiras… “Se gosto de digressões?“, repete minha pergunta, em português perfeito, em seguida pedindo uma Coca com gelo e limão ao garçom do bar da Vila Madalena, São Paulo — cidade onde passou uma semana em maio. “Adoro digressões! E adoro chegar atrasada! Nisso os brasileiros são iguais os iranianos!“, sorri. Seus grandes olhos negros brilham o tempo todo, fazendo o ar à volta de Lila ecoar o título de seu livro: O Encantador. E por que o título? “Para Vladimir Nabokov, o verdadeiro escritor, o Encantador, é um ‘sujeito que faz planetas girarem’. Ante o caos primevo, diz ‘vai!’, recompõe átomos, mapeia seu mundo e nomeia os objetos dentro dele“, explica.

Parece que a pupila tomou à risca a lição do mestre: escrita e fala flutuam em uma atmosfera densa de “maravilhamentos“, como diz. E a beleza de suas palavras e gestos não deixam dúvidas de que Lila Azam Zanganeh, 36, será a musa inconteste da próxima Festa Literária Internacional de Paraty. Ainda mais se fizer sua palestra em português. Sua mãe, uma diplomata iraniana que fugiu para Paris um dia antes de estourar a Revolução Islâmica, a educou em persa, francês e italiano — e leu-lhe Nabokov ainda na infância. A facilidade com línguas deu a Lila, em pouco tempo de estudo, um português quase perfeito, com um sotaque indefinível.

Indefinível como seu livro. Iniciado durante a tese que escreveu sobre Nabokov em Harvard, onde foi professora, teve sua conclusão em 2009. Mistura de ensaio e ficção, é uma história de amor entre leitor e autor; pela leveza das descrições, a narrativa lembra o estilo do autor russo que — exilado como Lila — escreveu sua obra mais significativa em inglês. O texto começa sobrevoando Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, primeiro livro que Nabokov traduziu para o russo, óbvia inspiração para seu mais famoso livro, Lolita. E, como Alice, a narrativa segue “distraindo-se” em capítulos curtos, que podem ser lidos em qualquer ordem — como n’O Jogo de Amarelinha, romance do argentino Julio Cortázar que Lila não leu (embora se declare uma apaixonada por seus contos). Os passeios no bosque da ficção incluem uma entrevista com o autor, acompanhada de uma foto de Lila com Nabokov, tão realista que, ela conta, divertida, “dois jornalistas franceses me disseram que deveria ser uma honra tê-lo conhecido. Mas eu tinha só dez meses de idade quando ele morreu!“, ri.

Literatura é meu playground

Por sua estranheza, o livro quase não encontrou pouso nos EUA, onde Lila vive há 14 anos. “Depois do 11 de Setembro, as editoras só pediam narrativas de iranianas que falassem sobre identidade étnica. Mas nunca quis usar isso na minha obra. Minha identidade é uma coisa privada. Nasci em Paris, sou iraniana, meus pais são iranianos, mas não queria utilizar isso para vender uma imagem. Por isso ter publicado um livro sobre a forma como Nabokov trata da felicidade é um milagre“, afirma, repetindo uma de seus termos favoritos. De fato, o exílio e o sentimento de não-pertencimento são ausências apenas pressentidas no romance.

Lila teve uma vida singular. O pai, bem-sucedido aviador, foi forçado a abandonar a profissão em Paris e se tornou um ativista “voando pra lá e pra cá pra ajudar parentes e amigos perdidos“. A mãe virou professora e organizava jantares com artistas exilados. “Cercada de pessoas excêntricas, minha vida parecia um filme do Wes Anderson“, conta. “E, embora estudasse na Sorbonne como francesa, me tratavam como iraniana; já em casa, vivia em um Irã imaginário, que só conhecia por meus pais, e falava persa com sotaque francês. Cresci num limbo cultural“, descreve. O sentimento de exílio a faz com que só se sinta em casa “na minha própria mente“, diz. “Por isso gosto de desbravar línguas e países; adoro me dissolver em um povo novo“, declara.

O sentimento de não-pertencer faz a moça de 36 com aparência de 20 nunca ter se casado (“sou criança demais pra isso!“), fugir de declarações sérias (“literatura é meu playground“) nem ter religião (embora porte duas medalhinhas da Virgem Maria) e detestar o Facebook (“redes sociais são o inverso da serendipity; são um voyeurismo inútil“). Fantasista, critica a obsessão por realismo na cultura atual. Acredita em coincidências — e até faz com que aconteçam. Conta um episódio curioso que se passou com ela no interior de São Paulo. “No livro falo de uma borboleta azul brasileira, a Morphos, uma das favoritas de Nabokov. E também cito suas coincidências com os números 23-4: 23 de abril é seu aniversário, aparecia em todo lugar, em contas, datas, voos. Pois bem, estava fazendo uma trilha quando cheguei a uma marcação que dizia… 23,4 km. Já estava esperando algo acontecer… quando, de repente, vi um bando de borboletas azuis. Incrível! A vida é tão divertida se você acredita nessas coisas! Então sua imaginação se torna realidade. Você tem que ter um pouco de loucura para acreditar que magia existe.”

Autor: rbressane

Writer, journalist, editor

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