Crítica/Reportagem

Fausto e a Favelost

Entre as belas Bianca Jhordão e Carol Teixeira, Fausto Fawcett em seu show Favelost, em outubro/2012, SP

Maior rap-rapsodo do Rio de Janeiro, Fausto Fawcett lança novo romance de ficção científica. Resenha para o Valor

Eu não faço ficção científica. Eu só dei uma exageradinha na nossa realidade perturbada, ou nas nossas realidades conturbadas“, brinca Fausto Fawcett à saída de seu show no Espaço Caneca, em São Paulo para divulgar o lançamento de Favelost. Com o quarto romance-rapsódia-rap, o mitológico Cervantes do Cervantes (famoso boteco de Copacabana) apresenta uma reconfiguração ao seu jeito peculiar de ver o mundo: colocando-o sob uma lente de aumento no eixo espaço-tempo. É ficção científica, sim, se nos basearmos na clássica definição do gênero como exploração das interações entre humano e pós-humano – a tecnologia e seus frutos bastardos. E “carne é máquina” é um dos refrões do livro e do show.

Mas, assim como o autor de “Kátia Flávia, a Godiva do Irajá” era um corpo estranho na música pop dos anos 80, com seu canto-falado cheio de metáforas e adjetivos bizarros e apresentações povoadas por louraças belzebus, sua literatura também ainda não foi decodificada nem pela ficção científica dita “de raiz” nem pela chamada literatura “mainstream”, essa que ganha prêmios e manda autores para feiras literárias pelo mundo. Favelost é a grande conurbação criada pelas cidades-satélites de Rio de Janeiro e São Paulo, onde vivem o carioca Júpiter Alighieri e a paulista Eminência Paula, ambos capatazes de Intensidade Vital, “firma que inocula chips assassinos em quem sai pra trabalhar“.

Nesse hiperlugar, que não parece muito distante de hoje, mas é sexualmente amplificado por Fawcett, “a manipulação da matéria virou uma espécie de alquimia prêt-à-porter, transmutação vulgarizada, sem os charmes dos processos de individuação (…) e a humanidade, que já foi Teocêntrica, agora é agressivamente Tecnocêntrica“. A hipercidade é sacudida por vastas alucinações coletivas, como as monções musicais, “que arrebatam o espaço aéreo de Favelost como gafanhotos fonográficos, chuvas de pistas sonoras melódicas, ritmadas, harmonizadas“. A metáfora é uma das chaves para a compreensão da literatura de Fawcett: um texto fortemente ritmado, rimado, oralizante, pensado para ser falado no palco – onde aliás funciona muito bem. Daí que Favelost lembra mais uma epopeia medieval que um texto pós-moderno; para falar do futuro, Fawcett bebe pesado no passado das canções de gesta. E, quando se fala em passado, lembra-se que é difícil divisar uma tradição da ficção científica na literatura brasileira. Fausto Fawcett seria um alienígena total no cânone? E afinal, por que quase não se lê nem se faz ficção científica no Brasil?

Tupinipunk

O escasso incentivo à ciência no Brasil, e a própria falta de uma cultura científica, sem dúvida, têm sua parcela de culpa na ausência da FC do debate literário“, diz Adriano Fromer Piazzi, editor da Aleph, que publica mestres do gênero como Philip K. Dick, Isaac Asimov e Ray Bradbury. “Mas, na minha opinião, o principal motivo é a existência de um preconceito pedagógico.” Nisso é ecoado pelo escritor Roberto Causo, especialista em FC: “A FC é uma literatura imaginativa, que soa inconsequente a quem adotou a leitura utilitarista que aprendemos nas escola, e soa como coisa de gringo: eles é que agitam a bandeira da inovação tecnológica. Temos mentalidade de consumidor“, detona o autor de Selva Brasil.

Isso está mudando, conforme o escritor e poeta Bráulio Tavares, autor de A espinha dorsal da memória: “A FC brasileira vive hoje o seu momento mais efervescente e dinâmico, com grande número de editoras e de novos autores“, afirma. Ecoa-o Luiz Bras, autor de Sozinho no deserto extremo. “Nunca se publicou tanto FC brasileira como nos últimos dez anos, uma produção já estudada na pós-graduação das faculdades de Letras“, informa.

Pouco conhecida, há, sim, ainda que rara, uma tradição de FC no Brasil. “Temos uma linhagem subterrânea“, diz Bras. “Não por falta de autores, mas por falta de leitores e grandes editores que invistam no gênero. Meus autores prediletos são André Carneiro (Confissões do inexplicável), Fábio Fernandes (Os dias da peste), Guilherme Kujawski (Piritas siderais) e Cristina Lasaitis (Fábulas do tempo e da eternidade)“. Causo aponta que mesmo a ficção literária tem excelentes exemplos de FC: “O brasileiro escreve FC desde o século XIX, então temos tradição, sim. A maior parte dela é composta, paradoxalmente, por autores de ficção literária que se meteram no gênero, como Não verás país nenhum, de Loyola BrandãoSilicone XXI, de Alfredo Sirkis, e A ilha, de Flávio Carneiro“, enumera.

Nesse ambiente, a literatura de Fausto Fawcett desponta por ser uma voz única. “O romance Santa Clara Poltergeist e seus contos em Instinto Básico são exemplos radicais daquilo que chamei de tupinipunk, um tipo bem brasuca de cyberpunk que se apóia menos em ciência e tecnologia e mais em referências da antropofagia modernista e numa atitude jocosa e satírica“, lê Roberto Causo. Braulio Tavares concorda: “Embora sua temática se relacione a várias correntes da FC contemporânea, o leitor percebe que se trata se um autor cujo primeiro compromisso é com a literatura, com a palavra, com a escrita, e não com os regulamentos de gênero. Muitos autores de FC deixam de escrever isso ou aquilo porque acham que ‘isto não se encaixa no gênero’. E existe sempre uma perda estética no momento em que o gênero é mais importante que a obra individual“, releva.

O escritor André de Leones, autor de Dentes negros, uma FC que destoa de sua ficção mais realista, também acha que o caminho é pela experimentação da linguagem. “Acho que há poucos leitores de ficção científica no Brasil porque esse tipo de literatura sempre foi rotulado como algo ‘menor;’, o que é uma bobagem tremenda. Rola um preconceito mesmo, como se leitores sérios não devessem perder tempo com esse tipo de coisa.” Nesse sentido, a ficção do Fausto será sempre um corpo estranho em qualquer literatura. “A mistura que ele faz de cibernética, informática, neuropróteses, realidade virtual, sincretismo religioso, sexo e desordem social é tipicamente brasileira, ou seja: delirante“, interpreta Luiz Bras.

Mais delírio, menos consciência – ou mais consciência, com menos sisudez: o caminho do humor, do groove, da palavra, pode ser um sentido que Fausto Fawcett aponta para o futuro da ficção científica brasileira. Só nos resta a lembrar que num país que se pretende player mundial não há tempo a perder para o bonde do futuro.

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