Que maravilha poder te alcançar

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Que maravilha poder te alcançar via skype, estava com saudade das nossas conversas, outro dia vi uma cena que precisava te contar. Tinha ido jantar sozinha, naquele bistrô que a gente costumava ir, e como sempre fico de olho nas outras mesas, imaginando como são as vidas das outras pessoas, no que trabalham, se são felizes, se assistem Chaves ou Seinfeld, se andam de SUV ou de bicicleta, se escolhem Mac ou Android, se fazem sexo loucamente ou se já são parte daquele condomínio de gente que só finge que faz mas no fundo tem nojinho. Aí de repente me peguei sacando esse casal que tinha acabado de chegar: muito elegantes os dois, o cara numa jaqueta de couro marrom de motoqueiro, a garota um tubinho preto e umas meias cor de fúcsia (fúcsia, adoro essa palavra) e o cabelo preso no alto da cabeça, os dois muito bonitos, magros, lógico, com aquela cara de quem já assistiu todos os filmes que estão em cartaz na cidade. Cada um deles falava com alguém no celular, os dois muito animados em seus papos. Até que veio o garçom e meio que eles tiveram de desligar, parece que não gostaram muito disso, o garçom os forçava a ter de sair das bolhas, ou então fosse somente uma impressão minha, fato é que eles acabaram pedindo o que o garçom lhes sugeriu, meio que para dispensá-lo, e pouco depois chegou uma garrafa de vinho. Quando o garçom se afastou e eles se preparavam para o brinde, o cara tirou do bolso de dentro da jaqueta uma caixinha de veludo preto pequena, e estendeu em direção da moça, aí me peguei emocionada, porque, lógico, só poderia ser uma coisa. A garota se deslumbrou: era uma aliança de ouro branco, bem grossa, com uma espécie de linha sinuosa em ouro velho no interior do anel, e a moça logo botou o anel no dedo e ficou olhando pra ele de ângulos variados, estendeu a mão, levantou e deu um beijão no cara, agora sim eles pareciam bem felizes. A moça teve uma idéia: fotografar o anel? Claro que sim, e daí ela fotografou, e ficou lá mexendo no celular dela um tempo, parecia que estava escrevendo algumas coisas, e o cara também fotografou ela fotografando o anel, e ela fotografou ele e ele fotografou ela, e se fotografaram juntos com o anel em primeiro plano e quase que eu fotografei eles da minha mesa de tão lindos e felizes que estavam. Ficaram um tempo encafifados com os textos que metiam nos celulares, até que chegou a comida. Mas aí os celulares de cada um dos dois começou a tocar sem parar. Eram pessoas que, imagino, devem ter visto as fotos deles na internet, em alguma rede social, e ligavam para dar os parabéns, e aí eles começaram a comer enquanto recebiam os parabéns, obrigado, obrigado, era só o que eu via seus lábios se mexerem, comiam e agradeciam, também tive vontade de agradecer por ver aquela cena, porque eu estava entendendo alguma coisa misteriosa sobre a vida e o amor e o casamento e a nossa época, você está me entendendo, ei, você está me escutando, será que dá pra parar de mexer só um pouquinho nesse treco enquanto eu falo?

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Conto publicado na edição 7 da revista seLecT

Autor: rbressane

Writer, journalist, editor

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