Metamorfoses de Siba

Siba guitarreando no Carnaval recifense deste ano

Com Avante, Siba, ex-líder da Fuloresta do Samba e do Mestre Ambrósio deixa o universo do maracatu rural pernambucano para reinventar a carreira, em um disco que mistura sua lírica sofisticada com rock, ciranda e congotronics. Perfil para a Bravo! de março

A brisa, por ser carinhosa, é quem mais tem castigado.” A frase, por ser capciosa, é das que mais tem chamado a atenção no novo álbum de Siba, Avante. O repórter leu no verso da canção “Brisa” uma metáfora da condição de todo artista inquieto: de como o conforto pode colocar em risco a evolução do criador. Siba ri: “Rapaz… tu já vivesse o pior dentro do melhor? Era só isso…“, sugere o recifense de 44 anos, dando a entender que a frase somente reflete os paradoxos do amor.

Mas Siba não excluiu esta leitura cabeça, afinal, o disco todo é uma auto-análise da (des)construção de sua identidade. A história de seu aperreio como artista – que o arrancou de um lugar estável para jogá-lo no rodamoinho da página em branco. A história de um artista que já passou por duas metamorfoses.

Faz seis anos que Siba gravou o aplaudido Toda vez que eu dou um passo o mundo sai do lugar, indicado ao Grammy. À frente da Fuloresta do Samba, banda formada por músicos de Nazaré da Mata, norte da Zona da Mata pernambucana, Siba chegava ao ápice de seu projeto de experenciar a fonte das tradições: maracatu rural, coco, ciranda, samba, frevo. “Descobri que aquela cena cultural era mais inovadora que o mundo mainstream, de show e disco, em que a música é separada do dia-a-dia do homem“, afirma Siba enquanto toma um suco de tangerina num restaurante da Vila Madalena, São Paulo, cidade em que acaba de ancorar. Ele havia se fixado em Nazaré em 2002, logo após o fim do Mestre Ambrósio – grupo que foi, no tratamento rock’n’roll de forró, maracatu e cavalo-marinho, um dos pilares do manguebeat, ao lado do mundo livre s/a de Fred Zero Quatro e da Nação Zumbi de Chico Science.

Cabelo e barba crescidos, roupas urbanas e chapéu sumido, no visual Siba também parece mudado. Se no Mestre Ambrósio, surgido em 1992, ele se destacava por mixar na mesma magra figura um guitarrista, um rabequeiro e um cantador, na Fuloresta seu projeto havia se radicalizado – e o ex-metaleiro fã de Motörhead incorporava a persona de um tiozinho elegante e ladino, de chapéu e bigodinho, rápido feito o diabo na arte de improvisar rimas. Viveu dez anos nas sambadas da mata, privando da amizade de lendas como Biu Roque. Nesse tempo, dividia-se em quatro: vivia em Nazaré, mas o escritório ficava na casa da mãe, no Recife, muitos parceiros musicais estavam em São Paulo – onde morou na época do Mestre Ambrósio – e, há cinco anos, o filho Vicente nascia em São Luís (MA), onde até hoje mora com a mãe. Então bateu a crise dos quarenta. E o bloqueio.

Não vejo nada que não tenha desabado/ nem mesmo entendo como estou de pé/ olhando um outro num espelho pendurado/ que reconheço mas não sei quem é“, eis a estrofe da canção de abertura, “Preparando o salto”. Ao tratar da crise, Siba alterna alexandrinos e decassílabos de rimas ricas e ecos internos, coisa rara de se topar na música pop brasileira. A sofisticada letra passeia sobre um rock suave, cujo arranjo intrinca o vibrafone com ares de jazz, a tuba típica das orquestras de frevo fazendo papel de baixo e a guitarra de fraseado limpo, suja por leve efeito, que remete à música do Congo. Parece complicado, mas soa bem simples.

Quando saí de Nazaré, me questionei: que tipo de artista sou eu? Que tipo de música eu quero?“, Siba recorda. Dar conta de um grupo de dez integrantes como a Fuloresta era inviável e o projeto parecia ter chegado no limite. Precisava de uma banda enxuta e de uma música que atendesse a outras sedes, como a descoberta da música congolesa – em especial o congotronics, som dos subúrbios de Kinshasa, e a discografia de um nome importante da África: Franco. “Ele me iluminou, me tirou do bloqueio. Porque pega a música cubana, desconstrói e transforma numa coisa rude, tocando uma guitarra inusual“, conta.

Siba tinha largado a guitarra há 20 anos para abraçar a rabeca, despezada neste Avante – e ele é autor da tese A rabeca na zona da mata norte de Pernambuco, escrita quando estudava música na Universidade Federal, além de ter tocado com o mitológico rabequeiro Mestre Salu. Abandonar totalmente um instrumento em que é PhD foi tão radical quanto ter abraçado a rabeca no início dos anos 90, época em que dedilhava uma Gibson SG, a favorita de Angus Young, do AC/DC. “Amigos roqueiros e colegas de universidade gozavam de meu interesse por música regional: pra eles, era o lixo do lixo. Em 1990, montar banda com rabeca e cantar maracatu na mata foi uma atitude punk“, afirma.

O interesse pela música tradicional vinha de longe: fã de cantoria, o pai, egresso de Olho d’Água de Dentro, agreste, levava Sibinha a tiracolo nas rodas e vivia assoviando as canções que não sabia tocar na viola. O instrumento está em outro experimento de Siba, o álbum Violas de Bronze, de 2009, em que toca rabeca com o violeiro mineiro Roberto Corrêa. O culpado por fazer Siba empunhar de novo uma Fender foi o guitar hero Fernando Catatau, o cearense líder da Cidadão Instigado e produtor de Iê Iê Iê, de Arnaldo Antunes. “Catatau me ensinou que falar de si é como falar de todo mundo“, diz, sobre o impacto do “Barão”, como o chama, em sua música. O guitarrista é responsável por dar liga aos elementos tão díspares de Avante, que conta com o tubista pernambucano Léo Gervázio e o baterista paulista Samuca Fraga, além de vibrafone e teclados do talentoso mineiro Antônio Loureiro.

Impressiona como a infinidade de referências não descose o resultado. “Qasida”, por exemplo, deve o nome a um tema clássico da lírica árabe: o poeta que retorna ao acampamento e o encontra destruído – tópico pescado nos Poemas Suspensos, de Alberto Mussa. A letra, porém, baseia-se no martelo nordestino, estrofes de dez linhas de decassílabos, e a canção finaliza psicodélica na guitarra de Catatau. Apesar do que pode sugerir a fina figura de Siba, nem tudo é sério em sua obra. Há passeios pelo rock brega, como em “Ariana”, que trata de amores excusos, e pelo frevo de cabaré, como na engraçadísima “A bagaceira”, sobre um sujeito perdido no Carnaval.

Tratando de monstros e fantasias infantis, o álbum finaliza com a doce “Bravura e brilho”, dedicada à sua razão de ser (ou não ser): o filho Vicente, presente na capa. Siba diz que nina o filho lendo trechos da Odisséia. “Ulisses foi o primeiro herói dele“, orgulha-se Sérgio Roberto Veloso de Oliveira. Siba é apelido de apelido: vem de “sibito baleado”, gíria pernambucana para um cabra magro, parecido a um sibito – passarinho que solta um pio ossudo, tipo um assovio de vento. Lembrando o assovio do pai, que lhe presenteou a guitarra que também está na capa do disco. Como as idas e voltas em sua vida comprovam, na obra deste artista múltiplo até as metamorfoses fazem sentido.

Autor: rbressane

Writer, journalist, editor

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