Crítica/Reportagem

Underground no terraço

Apagar das luzes para a editora/livraria mais bacana do Rio?

Apagar das luzes para a editora/livraria mais bacana do Rio?

Fachada d’A Bolha, no terraço da fábrica da Bhering

Duas personagens quase idênticas se perdem numa floresta fria. Chegam a um povoado onde há uma celebração agrícola em que as flores de uma grande árvore são espalhadas e a árvore queimada. A época é incerta; talvez medieval. A dupla percorre caminhos perdidos no sonho e encontra uma bizarra e monstruosa criatura. A narrativa, em looping, mais sugere do que mostra – ainda que mostre o horror. Esta é a graphic novel A celebração, de Rui Tenreiro, artista gráfico moçambicano que vive na Suécia, cujo traço delicado ambienta narrativas misteriosas.

Rachel Gontijo, a editora / tradutora / contadora / contínua d’A Bolha

Tenreiro é um dos achados d’A Bolha Editora, da escritora e filósofa mineira Rachel Gontijo. Após viver quase dez anos entre Paris e Chicago, Rachel decidiu se estabelecer no Rio de Janeiro para trazer ao Brasil escritores de vanguarda e ao mesmo tempo usar a editora como plataforma para a livraria mais insólita do país. A Bolha paira no terraço da fábrica desativada da Bhering, onde também funcionam ateliês de artistas como Barrão, no Santo Cristo, um dos mais antigos bairros cariocas – do escritório de Rachel se tem uma vista deslumbrante para o porto.

Sempre bem-cuidados, outros intrigantes títulos editados por Rachel – que, única funcionária, faz tudo em seu negócio, até colocar os exemplares no correio – são Incubação, de Banu Khapil (trad. Daniel Pellizzari), Seu corpo figurado, de Douglas Martin (trad. Daniel Galera) e Je Nathanaël, de Nathanaël (trad. Thiago Gomide). Rachel também quer fazer o caminho contrário, levando autores brasileiros de vanguarda pra fora do Bananão: em convênio com a Nightboat Books, A Bolha coordenou traduções de Hilda Hilst ao inglês – começou com The Obscene Madame D, e prosseguirá com Fluxo-Floema e Cartas de um sedutor. Editora e livros estranhos no nosso certinho mundo editorial, a serem acompanhados com atenção – e inquietação.

UPDATE: Tanto A Bolha quanto mais de 50 artistas que têm ateliês instalados na antiga fábrica de doces Bhering podem ser despejados do edifício em 30 dias: o prédio foi leiloado e arrematado por uma incorporadora imobiliária – e corre o risco de virar um shopping center.

Apagar das luzes para a editora/livraria mais bacana do Rio?

2 pensamentos sobre “Underground no terraço

  1. Pingback: O tititi da Bhering, Táxi no Rio, Moda hipster, etc : www.informacaodeprimeira.com.br

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