Mallu Mulher

Mallu tão magrinha até flutua
Mallu tão magrinha até flutua

Aos 19 anos, casada e apaixonada, Mallu Magalhães lança o terceiro álbum se sentindo feliz com seu “jeito torto” e se diz “velha e louca”. Mas avisa: de uma hora pra outra, tudo pode mudar. Perfil publicado na revista ALFA

“Acordo às 15 para as 6h, todo dia. Mesmo quando vou dormir tarde, acabo levantando cedo. Às vezes começo o dia vendo o Globo Rural. É muito bom! Você sempre começa o dia bem. O mundo anda tão carregado, a gente fica vulnerável a informações agressivas… É o taxista que te conta, do nada, ‘tá vendo essa esquina, outro dia aí morreram três!’. Por que não comentar ‘sabia que o broto de feijão está em época?’…”, solta a frágil mocinha, provocando risos gerais no estúdio onde foi clicado este ensaio.

Mallu mulher

Aos 19 anos, lançando o terceiro álbum, Mallu Magalhães nunca se sentiu tão segura, supercasada, “velha e louca”. Mas avisa: de uma hora pra outra, tudo pode mudar

por Ronaldo Bressane

Acordo às 15 para as 6h, todo dia. Mesmo quando vou dormir tarde, acabo levantando cedo. Às vezes começo o dia vendo o Globo Rural. É muito bom! Você nunca começa o dia mal. O mundo anda tão carregado, a gente fica vulnerável a informações agressivas… É o taxista que te conta, do nada, ‘tá vendo essa esquina, outro dia aí morreram três!’. Por que não comentar ‘sabia que o broto de feijão está em época?’…”, solta a frágil mocinha, provocando risos gerais na antesala do estúdio onde foi clicado este ensaio. Ela também ri, tirando onda do próprio jeito hippie. Não se envergonha mais se suas declarações soam viajandonas – como nas primeiras entrevistas em que, aos 15 anos, dava a cara a tapa ao topar com perguntas malandras feitas por macacos velhos do jornalismo e soltava pérolas da filosofice teen. “Estou desencanada“, afirma, ponderando que tudo pode mudar no instante seguinte. “No primeiro disco eu tinha 1,49m; agora, no terceiro, tenho 1,70m – e vai saber se vou crescer mais!“, diverte-se, causando certo assombro: afinal, a compositora paulistana Mallu Magalhães lança o terceiro álbum aos meros e tenros dezenove anos.

E que disco. Se já havia espantado a “maldição do segundo álbum” com o elogiado trabalho produzido por Kassin, neste Pitanga ela maturou o estilo direto e minimalista de compor e cantar em uma obra ainda mais cristalina. Ressalve-se que Mallu “camelizou”. O álbum é produzido pelo marido Marcelo Camelo, que também toca vários instrumentos em quase todas as faixas, e a influência do eterno hermano é essencial, seja no sotaque levemente acariocado, seja na guinada do folk rock ao samba-jazz, menos Rita Lee e mais Nara Leão. E Mallu não só camelizou como também caramelizou geral.

O trabalho é inspirado em / dedicado ao barbudo – tornando as doces doze canções de Pitanga altamente contraindicadas para mal-humorados, mal-amados, depressivos e penabundeados e quetais. Pop perfeito, versos chiclete, melodias que pegam o ouvinte e não largam. A sensação de enamoramento já se dava no disco de Camelo, Toque Dela, todo embebido em mallu-beleza. O que faz desse par de álbuns um evento sem precedente na nossa música pop: desde os casais Elis Regina & César Camargo Mariano ou Rita Lee & Arnaldo Baptista (e depois, Rita & Roberto de Carvalho), não se via músicos talentosos criando um double fantasy em tempo real, um reality show romântico em que o ouvinte tem a sensação de ser voyeur. Sem cinismo, uma muito rara história de amor.

Nem tudo são flores, contudo, no reino encantado desta paulistana que acabou de se mudar para o Leblon do príncipe (e, ao contrário dele, não se importa com os paparazzi que os circulam feito moscas). A autodeclarada mutante passou por leve depressão pós-disco que, combinada à nova paixão pela corrida – faz 10k diários –, a secou 10 quilos, dando à silhueta linhas de Twiggy e gestos de Audrey Hepburn. Ela não é muito de comer. No meio de uma resposta, parou e revirou os oceânicos olhos depois de provar um brigadeiro.

Uau, que onda… desculpe, é que não ando acostumada com açúcar“, riu. Jura que pode passar um dia só comendo uma cenoura e um pãozinho, compondo o dia todo (diz ter no baú umas 200 canções). Por isso não gosta de ficar sozinha em casa e se aflige se o maridão demora para vir cozinhar o famoso peixe. Tem medos esquisitos e manias bizarras. Já perdeu voos por esquecimentos e também por entrar em pânico pós-decolagem (“mandava o piloto voltar pro aeroporto!“); pega ônibus ao léu só para ficar entre outras pessoas; chora se vê um mendigo na calçada; já teve uma lista negra em que escrevia nomes de gente que a tratou mal (jornalistas são maioria); tem medo de tomar banho só (“entro numas viagens da existência e passo horas“), por isso leva audiolivros para ouvir no banheiro (o atual é O Pequeno Príncipe).

Mallu recém descobriu Freud, de quem virou devota, e se diagnostica como “highly sensitive” – na nomenclatura da psicóloga Elaine Aron, alguém que tem um nível de sensibilidade mais alto que o razoável. Chora à toa, e na boa: “Será que vai chegar uma hora em que não vou poder sair à rua que já fico emocionada? Acho tudo muito lindo e choro“, conta. Por isso a atual musa é Leila Diniz: para quem nunca solta um palavrão nem sequer chamou alguém de “idiota”, a lendária entrevista que a atriz boca-suja deu ao Pasquim virou bíblia.

A prendada mocinha também é ligada em moda: costura, modela, borda e está lendo Moda e Inconsciente, de Pascale Navarri. Ela sonha criar um ateliê de peças únicas, para vender roupas como se fossem tatuagens. “Também queria fazer uma tattoo! Só não tenho curiosidade em relação a drogas. Mas quero passar por experiências diferentes, tipo pular de paraquedas. Ai, só de pensar em tantas coisas que ainda posso fazer, fico cansada…“, lamenta-se, declarando-se uma velhinha. “Me irrito demais com som alto, barulho. Só gosto de ficar em casa costurando, pintando quadro, arrumando horta, brincando com o gato…“, diz, ecoando a canção “Velha e louca”.

Acho que sempre fui louca, mas agora percebi isso e tudo ficou fácil. Na real, todo mundo é louco, só que alguns se acham supersensatos. Agora aceito que meu jeito torto é espontâneo, da coragem de não procurar ser igual, de não querer pertencer, de só pertencer a si mesmo. A maioria das pessoas quer seguir uma linha alheia. Quando uma pessoa segue a própria linha, fica doido. Mas eu me sinto ótima seguindo minha própria linha“, diz Mallu, mal contendo outra “onda” de tanto falar.

Em uma cena povoada de pseudoartistas ciosos de verdades pré-fabricadas, é fascinante assistir a uma criadora original expor as próprias inseguranças – o que dá a este monstro de delicadeza um ar de equilibrista ao dizer coisas como esta, perguntada se pensa em faculdade ou filhos: “Não sei, não tenho certeza de nada, estou sempre mudando. E já decidi que nunca vou me poupar de mudanças. Toda vez que me segurava pra não mudar, me machucava. Se você tenta ser algo que você não está sendo – por que o que você está sendo é o que você é –, você não vai chegar a lugar nenhum!“. Sacou?

Autor: rbressane

Writer, journalist, editor

3 thoughts

  1. Acho impressionante o quanto que a Mallu amadureceu nestes quatro anos. Isso é visível. Eu não me canso de escutar o “Pitanga”. Acho que o disco é um reflexo da maturidade, do talento e da sinceridade que a Mallu coloca naquilo que ela faz. O Marcelo estava certo quando disse que quem a escuta chega logo ao coração dela.

    Vou comprar a Alfa para ler esse seu perfil dela. Pelo pouco que você postou aqui, parece que ficou muito bom! 🙂

  2. Amei o texto! Pitanga está doce e fascinante. Notavelmente a Mallu foi de Rita pra Nara. Mas eu amo! Tem sambinha e bossa com notas com sétima aumentada como toda boa música popular brasileira.
    Tenho um blog com nome (e alguns textos) inspirados na Mallu (fiz até acróstico com o notavelmente extenso nome inteiro dela). Chama-se “Vou Fazer Cena”, como na primeira frase de Cena, de Pitanga. Está convidado à visitar, Bressane. É amador mas tem lá o seu valor.
    http://voufazercena.blogspot.com/

    Abraço!

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