Ensaio

Profumo di donna

The Great Wall of Vagina, escultura do inglês Jamie McCartney

The Great Wall of Vagina, escultura do inglês Jamie McCartney

Pensata-playground para reportagem sobre o pudico nojinho feminino do mais divino dos aromas na Tpm

Cheiro de mulher

Por amor aos nossos narizes, não nos privem de seu buquê

Já estão ganhando dinheiro com cheiro de xoxota industrializado. Pelo que se entende da propaganda, o Vulva, aroma vendido na Alemanha (onde mais?), é sintetizado através do substrato de perseguidas finamente selecionadas. “Aplique a substância nas costas da mão e sinta o olor exsudado por uma vagina iniciar o filminho na sua cabeça…” Ô solidão de alemão! Para acessar o mais divino dos aromas naturais, o coitado recorre ao supermercado – além do cinco contra um. Depois passa um sabonete e pede uma pizza. Tem coisa mais triste?

Num tempo em que até um meio-campista viril como o tricolor Rycharlisson tira as sobrancelhas, por que não comprar um cheiro de xoxota standard quando bater a saudade daquela coisa chamada mulher? É prático, é limpo, é garantido. E é global. Sim, vou conspiratoriamente botar a culpa na tal da globalização para entender o festival de photoshopismo que nos assola. Se misses e modelos parecem cada vez mais a mesma mulher, suas pudendas também devem trescalar no padrão mundial. O ideal da propaganda é simples: a perfeição. E a perfeição, sabemos, não cheira.

Pobres moças, tão obsessivas em sua romântica busca pela pureza quanto Zé do Caixão pelo Filho Perfeito. Um amigo disse ter topado com um par de minas que não cheiravam nem fediam. Nem ali nem acolá. Tampouco nos cabelos, pés, nuca, atrás das orelhas, axilas (estas alegóricas vaginas que toda mulher esperta usa como arma de abdução)… Resultado: ele mal lembrava delas – o olfato é dos sentidos o mais rememorativo. “Sou da velha teoria de que buceta tem que ter cheiro de buceta, e não de plástico perfumado, caso de não poucas xavascas higienizadas por aí”, responderia Reinaldo Moraes em seu romance Pornopopéia.

Outro me contou penabundear uma musa porque lhe estranhava a mania de limpeza. “Por favor, fica só um dia sem tanto creme e perfume, pra eu te conhecer…”, implorava. “Você só quer saber de mim quando estou fedida!”, reclamava a deusa, pouco antes de ir ao banheiro lavar os respingos do amor recente, desconhecendo a máxima de Woody Allen: “Sexo bom é sexo sujo”.

Tanto quanto formatar a pentelheira ao design da moda, editar o próprio odor é tendência. Tem a ver com o faxinamento atávico que prende as mulheres ao binômio água-sabão: lembro de uma tia me confessando que seu maior pesadelo era “morrer na rua, sem ter tido tempo de trocar a calcinha”. Uma amiga dermatologista afirmou ser freqüente mulheres a procurarem para aplicar botox nas glândulas sudoríparas – “assim elas nunca suam”. Se soubessem o poder de um bom cecê fresco sobre os instintos! Sujeira, para muitos desses seres que expelem gelatinosos fluxos de sangue todo mês, é pecado. “Em estudos sobre compulsão por higiene, psicólogos descobriram que mulheres relatam mais obsessões de contaminação que homens. Até hoje, certa auto-relação corporal neurótica segue como herança feminina”, aceita Laura Kipnis no capítulo “Sujeira” do elucidador Coisa de mulher.

Não é preciso confundir higiene com neurose – nem espalhar o cheirinho íntimo atrás das orelhas para atrair pretendentes, como no absurdamente engraçado Zonas úmidas, de Charlotte Roche. Certo é que homem nenhum se lembra de uma mulher pelo Chanel numéro 5 ou pelo creme pós-banho do momento. A não ser, claro, que ele tire as sobrancelhas ou tenha um frasco de Vulva no criado-mudo. Chega de tanta frescura, moças. Conforme determina a Bíblia, relaxai e exalai!

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