Por que não fui à Flip


No Outlook de hoje…

por Ronaldo Bressane

Se você gosta de livros, como o signatário, e não está em Paraty nem pretende ir, como o signatário, deve ter escutado um zilhão de vezes o mosquito: “Vai pra Flip??”. À negativa, sentiu aquele esgar de sobrancelha de comiseração e tristeza avassaladoras. E logo em seguida, outro zunzum pentelho: “Mas por quê?!”. Se está de saco cheio de falar da tia doente, do compromisso em cuidar do totó do amigo que viajou (provavelmente para Paraty) ou do jogão do Brasileiro que ia perder se fosse assistir àquela imperdível palestra, seguem alguns ímãs-de-geladeira:
– Porque vou usar esse tempo para organizar minha biblioteca de 5 mil livros
Porque fui nas primeiras Flips e quero conservar na memória aquele glamour romântico de tomar uma cachaça com Ian McEwan ou nadar na mesma piscina que Margaret Atwood ou observar constrangido José Miguel Wisnik sapecar polichinelos antes de entrar em campo para jogar contra o perna-de-pau Chico Buarque
– Porque sou o Chico Buarque e caguei pra Flip
– Porque sou o Marcelo Mirisola e a Flip caga pra mim
– Porque a Flip é o botox dos culturettes que nunca leram nem Turma da Mônica
– Porque ir à Flip virou um verniz tão infeliz quanto adornar a mesa com livrões de arte para simular erudição e apreço pelo tesouro cultural da humanidade
– Porque é absurdo ir a eventos bancados pela Viúva que cobram R$ 40 por palestra
– Porque a programação esse ano tá tão chata, né, gente
– Porque tem um povinho que vai na Mercearia S.Pedro e eu acho mó uó
– Porque agora convidam mais estrelas de outras áreas culturais que escritores brasileiros
– Porque o FHC vai e o Lou Reed furou e depois que até o Gugu e Huck foram, né, gente
– Porque agora que usa oclinhos de Zé Wilker o Flávio Moura não fala mais comigo
– Porque minha mulher trabalha na Flip e eu não quero constrangê-la com meus porres
– Porque eu marquei de ensinar pra minha empregada como se faz Ki-Suco
– Porque sou um maconheiro convicto e sei que a polícia de Paraty não dá mole
– Porque da última vez um bêbado confundiu meu pé com um vaso sanitário
– Porque da última vez esperei uma hora para me servirem uma tampa de bueiro oleosa que custava R$ 50 e a que chamavam “pizza de margherita”
– Porque sou uma maria-teclado e em Paraty a concorrência pega pesado e todo Sarney vira Paul Auster e da última vez tive de me virar com um cara que vende poema no Masp a um real
– Porque o psicopata do meu chefe cismou de me passar trabalho pra esse fim-de-semana
– Porque machuquei o pé e as pedras de Paraty não perdoam
– Porque tenho medo das curvas da estradinha de Cunha
– Porque ninguém me convidou
– Porque todo mundo vai
– Porque sim, pô!

Autor: rbressane

Writer, journalist, editor

8 pensamentos

  1. Só faltou você dizer que é muito mais barato e cômodo assistir as tais mesas de graça, esticada no sofá de casa, com o notebook em cima da barriga, fumando seja la o que for ou comendo pipoca ou seja la o que (quem) for, à vontade, e podendo desligar na hora, bem no meio da “mesa”, se estiver chato…

  2. Porque agora todo mundo vai pra Flip, e eu sou underground, e quem foi é bobão!
    Adorei o texto, tudo isso acontece de verdade lá, mas o festival ainda tem seu charme. Fui pela primeira vez, fiz questão de não pagar nenhuma mesa e adorei.

    (E faltou mesmo mais escritores brasileiros. Ressuscitar FHC é triste)

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