Atire na Pollyanna


O poder do pensamento negativo pode fazer mais milagres que o bobo-alegrismo pollyanna. Ou não. Pensata-playground que virou a matéria de capa da Vida Simples de janeiro

Finalizava este texto sobre pensamento negativo quando me abalou a má notícia: um amigo havia sido baleado. Durante assalto a um teatro na praça Roosevelt, centro de São Paulo, ao defender uma amiga que levou uma coronhada de um bandido, o dramaturgo Mário Bortolotto reagiu por impulso – e acabou tomando quatro tiros. Passou três dias à beira do abismo (até o fechamento deste texto, permanecia na UTI da Santa Casa de Misericórdia, em estado grave porém estável). Mal levou seu corpanzil ao hospital, Marião carregou uma legião de amigos em sua vigília, um ato em celebração a sua vida e obra foi organizado no Espaço Parlapatões (palco do tiroteio) e uma corrente de orações pelo restabelecimento da saúde do dramaturgo era desencadeada.

Finalizando este texto, revoltado pelo ato de violência cometido contra meu amigo, comecei a ouvir chocantes manifestações daquela ideologia que nunca apareceu em nenhum texto de Bortolotto: o pensamento positivo. Então resolvi pesquisar o que diferencia o pensamento positivo da esperança – fé ardente, irracional –, e do otimismo – uma força de vontade, desejo natural que o mocinho beije a mocinha no fim. Do pensamento positivo sai o lapidar “Há males que vêm para bem“. Compreensível, assim, o bordão dos pollyannas: “Torço para que Mário se recupere – assim vai começar a olhar o lado claro da vida“. Ou: “Vendo pelo lado positivo, o crime servirá para chamar a atenção das autoridades para a falta de policiamento na praça Roosevelt.” E ainda: “O cara só se veste de preto, tem um blog chamado ‘Atire no dramaturgo’, dirige uma peça chamada Brutal e sempre escreve sobre violência, loucura, marginais. Essas coisas chamam!“. Para arrematar, o mantra do positivinho bundão: “Quem mandou reagir?“.

Não se trata só de apelar à racionalidade para dividir o mundo entre os que vêem a vida na base do ou copo meio vazio ou meio cheio. Ver o copo metade cheio pode nublar uma percepção sagaz: “O drinque tá envenenado, bróder“, diria Marião. Embora os pollyanas preferissem o contrário, o buraco no pensamento positivo fica lá embaixo, na estratégia da hiena, aquele bicho que come merda e ri; “Quanto pior, melhor“. O pensamento positivo (a ideologia dominante, o pão de cada dia do senso comum) professa que encararemos as tragédias como sinais de boa aventurança. “Estava tão furiosa com a idéia de que o bem surge de todo desastre que, motivada pela perda do meu pai, resolvi escrever um livro“, conta a jornalista inglesa Virgina Ironside, autora de You’ll get over it: The rage of bereavement (Você supera – A raiva do luto, Penguin, sem tradução no Brasil). “O pensamento positivo faz com que pessoas escrevam ‘O câncer deu sentido à minha vida’… Isso não é verdade! O pensamento positivo não somente nos força à celebração quando ficamos doentes, como também sugere a idéia louca de que pessoas felizes nunca adoecem“, revolta-se a jornalista.

O pensamento positivo pode ser mais perigoso que enfrentar bandidos armados. Essa obsessão norte-americana faz com que os pessimistas virem vilões (como o economista Nouriel Roubini, cognominado Dr. Juízo Final por causa das previsões sombrias, que afinal se provaram corretas), em detrimento dos amáveis otimistas, vistos como sábios que enxergam séculos à frente (como o presidente Lula, nosso risonho surfista de marolinhas). Por conta dessa fé exagerada no futuro, os EUA foram pegos de calças curtas no colapso econômico. Este é diagnóstico do recém-lançado Bright-Sided: How The Relentless Promotion of Positive Thinking Has Undermined America, de Barbara Ehreinreich (Iluminados: Como a implacável promoção do pensamento positivo solapou os EUA, Metropolitan Books). Como Virginia, o que levou Barbara a escrever foi uma tragédia pessoal – a descoberta do câncer de mama. Pior que a enfermidade, a norte-americana teve de enfrentar a opinião corrente entre médicos, enfermeiras e colegas de infortúnio: o câncer é um prêmio, um rito de passagem, uma chance de se aproximar de Deus.

Parafraseando Nietzsche, querem te fazer acreditar que o que não te mata te faz mais corajoso, mais evoluído“, escreve Barbara – inopinadamente ressaltando o modo fofinho com que se lê um famoso aforismo do filósofo alemão, tido por muitos como um niilista daqueles que protagonizam as peças de Bortolotto. Investigando as razões pelas quais o norte-americano médio é fascinado pelo pensamento mágico, Barbara vai às suas fontes no calvinista Movimento do Novo Pensamento – que, originário do século 19, frutificou na cândida seita japonesa Seicho-No-Ie, entre outros credos. Antes da triunfante Oprah Winfrey, a galeria dos evangelistas de polegar em pé ganhou seu mais sorridente quadro na figura de Norman Vincent Peale, que publicou em 1952 O poder do pensamento positivo. O livro ficou 184 semanas consecutivas na lista dos mais vendidos, foi traduzido para 15 línguas e vendeu cerca de 5 milhões de cópias.

Protestante, conservador, amigo de Nixon, ligado à maçonaria, um vencedor em suma, Peale morreu na véspera do Natal de 1993 – é, não deu tempo de abrir o presente… O positivista, cuja lição mais conhecida é “Se você só tem um limão, faça uma limonada“, escrevia coisas como “Visualize a si mesmo bem-sucedido: em vez de pensar coisas negativas, deliberadamente pense em algo positivo para negar as más vibrações; não construa obstáculos“. O ideário do bem reforçou e reforça os onipresentes messias do empreendedorismo. Em passagem do glorioso Segredos da mente milionária (Sextante), T. Harv Eker pede aos leitores que escancarem seus corações: “Diga bem alto em frente ao espelho: ‘Eu admiro gente rica! Eu abençoo gente rica! Eu amo gente rica! E eu quero ser uma dessas pessoas ricas agora mesmo!‘”.

Na cola do magnata Eker (todo autor de auto-ajuda concede uma ajuda especial à sua conta bancária), correm desde receituários de mandamentos espirituais para a obtenção de sucesso profissional, como O monge e o executivo e O lapidador de diamantes, baseados nas filosofias cristã e budista, até guias como O segredo, que manipulam fiapos da teoria quântica e da neurociência para afirmar que qualquer coisa – uma cerveja, a garota mais gata da escola, a cura da halitose e o carro do ano – pode ser conquistada, desde que obsessivamente cultivada por bons pensamentos.
 Em O segredo, Rhonda Byrne aproxima a lei da atração, criada pelo Movimento Novo Pensamento, tanto da lei da gravidade (“Quando você tem um pensamento, atrai pensamentos semelhantes“), quanto da física quântica (“A realidade como a percebemos é ilusória; nós a criamos e, portanto, podemos mudá-la com nossos pensamentos“). Ponto para a boa menina: O segredo vendeu 250 mil exemplares no Brasil e 6 milhões nos EUA.

Bom dia por quê?

Cioran troca idéias negativas com seus compatriotas Ionesco e Eliade

Enquanto meu amigo Mário resiste feito um touro xucro lá na UTI, me lembro que seu temperamento não tem nada a ver com o clima soturno, pesado e autodestrutivo da maioria de suas narrativas – muitas, aliás, temperadas com bom humor circense. O dramaturgo paranaense já foi etiquetado como “líder de seita” por outro amigo, o escritor Joca Reiners Terron, pela capacidade agregadora, generosidade de gestos e doçura de caráter – motivando o comentário de costume: “Eu achava Marião assustador, mas aí vi que no fundo ele é uma moça“. Mesma observação se poderia fazer do filósofo romeno Emil Cioran, autor de Breviário da Decomposição. Nascido na Transilvânia, leitor assíduo de Schopenhauer e Nietzsche, Cioran viveu desde a década de 40 em Paris, e como tal sempre se considerou um exilado no mundo. Ao descobrir que por pouco não foi abortado pela mãe, deu de ombros: “Se a vida é um acaso, por que levar isso a sério?“. Tornou-se o mais pessimista dos existencialistas; a face mais enfática – e risonha – do niilismo.

Se Albert Camus afiançava que “O único problema filosófico verdadeiramente sério é o suicídio“, Cioran contratacava: “Vivo unicamente porque posso morrer quando quiser: sem a idéia do suicídio, já teria me matado há tempos. O desejo de morrer foi minha única preocupação; renunciei a tudo por ele – inclusive à morte“. No entanto, embora autor de títulos góticos como Nos cumes do desespero, Cioran era pessoalmente um homem caloroso. O filósofo José Thomaz Brum, seu tradutor para o português, assim recorda uma visita a Cioran nos anos 80: “Em sua mansarda diminuta, despojados, altivos e cheios de cumplicidade, Cioran e Simone Boné (sua companheira há mais de 40 anos) me receberam como em um palácio, com jantar digno de um príncipe (…) Sua energia, que se traduzia em negações veementes, era reflexo de um caráter vigoroso e de uma alma exaltada.
 Havia raiva em Cioran – em suas obras ácidas e crepusculares. E também uma vitalidade enorme: eco dos Balcãs que o rigor herdado dos moralistas franceses filtrou em uma mistura sábia e tonificante“. Aproximo o dramaturgo londrinense do filósofo romeno, ambos tão pessimistas quanto vitalistas, para introduzir o conceito do pensamento negativo – nas palavras da psicóloga Julie Norem, “pessimismo defensivo“.

No manual de auto-sabotagem The positive power of Negative Thinking: Using Defensive Pessimism to harness anxiety and perform at your peak (O poder do Pensamento Negativo – Usando o Pessimismo Defensivo para aproveitar sua ansiedade e jogar sua performance lá em cima, 250 mil cópias vendidas desde 2001, inédito no Brasil), Julie qualifica o pessimismo defensivo como tática para situações específicas em que se necessita manejar medo ou desespero. “Os pessimistas defensivos“, diz, “se preparam para uma situação derrubando suas expectativas; seguem o princípio de que tudo pode dar errado. A idéia é criar tantos cenários de apocalipse que se bloqueia qualquer entrada possível para um desastre“, explica ela. Ou seja: a melhor maneira de não dar sopa para o azar é… dar sopa para o azar.

O que me intriga nos pessimistas defensivos“, encafifa-se o psicólogo Lawrence Sanna, “é que tendem a ser pessoas muito bem-sucedidas. Suas opiniões sobre si mesmos freqüentemente são irreais; eles usam essa suposta baixa auto-estima como motivação“. Como exemplo, Julie tece a hipótese de um executivo que precisa levar um projeto ousado ao cliente. Segundo ela, o executivo deve pensar: “O cliente vai ser difícil; não vai gostar da minha proposta: tenho que explicar o projeto muito claramente.’ Mesmo que falhe apresentando suas idéias e o cliente recuse o projeto, o executivo está preparado – então não foi nenhuma grande catástrofe.” Um jeito corporativo de ecoar o cioranesco “A vida é um acaso – pra que levar isso a sério?“.

Como Cioran e Bortolotto, os bons pessimistas costumam ser ranzinzas, demasiadamente ranzinzas. É o caso do arquiteto Paulo Mendes da Rocha, que ao mesmo tempo em que descrê no ser humano não deixa de criar espaços para sua fruição e conforto. Ou do mal-humorado técnico Telê Santana, inventor de duas das equipes mais deslumbrantes do futebol, a Seleção de 1982 e o São Paulo de 1992 (seguido de perto na casmurrice por seu pupilo, o tricampeão brasileiro Muricy Ramalho). Ou do artista plástico Franz Krajcberg, sempre propenso a denunciar a estupidez da destruição humana com maravilhosas esculturas formadas por árvores mortas. Ou de Rubem Braga, que se nas crônicas usava prosa terna e fluida, ao vivo sequer mostrava os dentes: “Esse Tom Jobim pega o violão, joga o cabelinho na testa e as mulheres ficam doidas. Um merda!“, resmungava.

Mas o pessimismo só tem charme se tiver o humor como espinha dorsal. Nada de lamentar por aí “Ô dia, ô vida, ô azar“. Reclamar sem tirar onda torna qualquer um em mala sem alça – tipo os indiguinaldos de pijama que mandam queixosas cartas aos jornais. Tão fácil quanto aderir ao bobo-alegrismo é ser um urtigão chato. Por outro lado, o humor não vive sem pessimismo – o mais universal dos piadistas, a lei da gravidade, comprova que cair, não levantar, é o que nos humaniza. Em crônica recente, o poeta Fabrício Carpinejar exalta o ranzinza de resultados: “O otimista é frouxo, repete as mesmas frases genéricas como ‘precisa crer’ ou ‘tenha esperança’. O pessimista é pessoal, persuasivo, abrirá seus segredos com desembaraço. O otimista rende só auto-ajuda. O pessimista proporciona alta literatura (…). Do veneno alheio, surgirá sabedoria, ensinamento, conselhos. Orgulho-me desse humor brasileiro. Daquele cara que deu tudo errado e ainda acha graça. Sofreu enchente, deslizamento, seca, foi corneado e não se entrega. É o que não tem motivos para rir e está rindo. Seu riso é perigoso, ofensivo. 

Não confio em sujeito com felicidade de sobra“.

Um reflexo (quase escrevi refluxo) à teoria do pessimismo defensivo é a Lei de Murphy – “Se algo pode dar errado, dará“. Reflexão sobre o mistério gravitacional que faz com que a face da torrada untada com manteiga atraia irremediavelmente o chão imundo, a lei foi criada pelo engenheiro aeroespacial Edward Murphy e veio à luz, veja só, no mesmo ano d’O poder do Pensamento Negativo. O irônico aforismo, aparentado à Segunda Lei da Termodinâmica ou Lei da Entropia (“As diferenças entre sistemas em contato tendem a igualar-se“) originou infinita lista de variações, compiladas pelo jornalista Arthur Bloch em três volumes que venderam milhares de exemplares. A mais espirituosa variante? “Se a Lei de Murphy pode dar errado, dará“.

Pessimismo também é o status quo da ciência. A indução meta-pessimista, termo cunhado em 1981 pelo filósofo da ciência Larry Laudan, afirma que se as teorias bem sucedidas no passado hoje se comprovam falsas, não há razão para crer na verdade incontestável das teorias atuais. É um argumento e tanto contra o realismo científico, que propõe como mundo “real” só aquele descrito pela ciência. Basta que se lembre de uma teoria como a dos humores, que definia o equilíbrio da vida baseado pelos níveis do sangue, fleuma, bílis amarela e bílis negra; tese hoje risível, durou do século 4 a.C. ao século 17 d. C. Outro ótimo argumento contra o otimista realismo científico é a teoria da relatividade.

E é com relatividade que finalizo este texto, tão sem respostas como comecei. Enfim: como ser pessimista quando se torce por um milagre que salve a vida de um amigo? Ser realista pode ser mesquinho, pequeno, óbvio como uma bala de revólver desferida à queima-roupa, sem chance de defesa. Então, mais para apaziguar o coração que para fazer algo útil, só cabe a este comentador, que escreve do passado (o túmulo do pensamento mágico) e não sabe o que o destino reservou ao dramaturgo brucutu, torcer para que o Marião se finja de morto caso a Indesejada lhe puxe o pé. Enganar a morte – eis um objetivo otimista para um convicto niilista.

Autor: rbressane

Writer, journalist, editor

5 pensamentos

  1. cara, não sei nada de nada, apenas respiro e tomo alguma coisa que mude o que chamam de estado de consciência, nem sei porque li este texto ou estou escrevendo, mas o que tenho de concreto é a propria fluidez da minha duração, o meu prazo de validade datado ao acaso; vivo há dez anos lendo e eswcrevendo num maldito quarto de um sobrado antigo na fria e quente porto alegre, infelizmente moro aqui e não em outro lugar, já que a utopia é impossível vou bebendo vinhos licorosos e vagabundos e escrevendo e lendo e esmolando, creio que isto também é resisitir, encher a linguaça da existência, acho que isso o que resta para o ser humano…
    eros thanatos

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