Abanti!

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Hoje no Estadão saiu a matéria sobre o Encuentro Mundial del Portunhol Selvagem, em Asunción, dezembro de 2007 – primeira reportagem em portunhol publicada no país [em 133 anos de Estadón, nunca uma matéria tinha saído com tantas palabras em otra lengua]. Você pode ler o texto acá, ver as impressionantes [sic] fotos do ebento no blog do Torturra, autor da imagem acima, acá, ou acessar la versión integral de la crónica, a seguir. Arriba arriba!

Directo d’EL ESTADO DE SAN PABLO

No encontro da pátria das chuteiras com a pátria das muambas, surge uma nova língua, misturando português, espanhol, guarani e o que der na telha de escritores do brasileiros e paraguaios. A seguir, a primeira reportagem escrita na língua do futuro retrata o Encuentro Mundial del Portunhol Selvagem, ocorrido no Paraguai

Por Ronaldo Bressane*
Fotos Bruno Torturra Nogueira**

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[Táxi para el puerto]

– É do New York Times, corazón! Acorda!
– Hein? Estás loca, chica? A essa hora só puede ser cobrança!

Increíble: nosso movimiento habia chegado al Grande Hermano Yankee! O portunhol selvagem, língua freestyle inbentada nas fronteras de Brasil con Paraguay y digitalizada pelo poeta Douglas Diegues, reformatada por escritores brasileiros e latino-americanos e até por atores como o mexicano Gael García Bernal e músicos como o gaúcho Wander Wildner, caiu nas orelhas do novo correspondente do NYT no Brasil – de nome muy adecuado para la situación: Alexei Barrionuevo.

No mesmo mês, a língua del futuro é matéria da Piauí, do canal Multishow, y (perdón, Cervantes) da Rádio Exterior de Madrid… Pero como começou esto? Usted, leitor del Estadón, conocerá em primera mano o marco zero del movimiento. Foi em dezembro. Em Asunción, por supuesto…

*

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[Douglas Diegues]

– Bem vindos à Paraguaylândia!

Assim nos recebe el gorduchamente simpático Douglas Diegues, secundado por um magrelo bocudo, que se apresenta como…

– Eu soy o Domador de Jacarés! Tranki?

Don Diegues de La Verga y El Domador seriam nossos Virgílios naquela wasteland. Depois de nos esperar cambiar centenas de reales por algunos mijones de guaranis e quedarmonos milionários, la gentil dupla carrega nuestras bagages para el detonado Palio de DD, o Rocinante selbagem. Um rangido contínuo dedurava: el coche estaba con las pastilhas gastas!

– Bámonos sim frenos, kapitanes! Abanti! – esbravejava DD por trás dos óculos de lentes embaçadas pelo calor de 40 graus, siempre pontuando de exclamações e cigarros sus frases, como se a qualquer momento fosse tener um infarto, o peor, um orgasmo!

As calles cheias de carros em pandarecos recordava Kapão Redondo: el mundo é lo mismo, todo lugar – mas que lugar seria Asunción? Só sabia que a pátria das muambas foi uma potenza industrial no siglo 19, destruhida por brasileros y argentinos (ali llamados de kurepas, gíria guarani para “porcos”). Matamos 95% dos hombres y 54% das mujeres paraguayenses! Viva Caxias!

– Mira, acá es la sede de la Federacción Sudamericana de Fútbol! – e DD apontou um prédio de catorze andares aparentemente vazios. – Bámonos a tomarlo para sede del portuñol selvaje, verdad?

El portunhol selvagem é uma idéia de DD, carioca quarentón que vive desde os 5 anos em Ponta Porã (MS). Na fronteira, o poeta de família paraguaia sacou o mix freestyle de guarani, português e espanhol hablado chulamente por índios sacoleiros, pistoleiros trôpegos e carinhosas cortesãs e o verteu em libros como O Astronauta Paraguayo. O encontro portunholesco faria parte do evento Asunción Kapital Mundial de la Ficción, que entre 6 e 10 de dezembro reuniu escritores latinoamericanos na embaixada brasileira – DD foi o principal artífice da história.

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[Domador de Yakarés y Edgar “Pombero Tamaguchi” Pou]

Seu amigo de infância, o Domador de Yakarés (nunca fala o nome real), é para DD o que foi Neal Cassady para Jack Kerouac: o muso do movimento. Voz encarnada do portunhol selbaje, Domador teve inúmeras profissões antes de se descobrir um pintor de vanguarda rupestre, filósofo pedestre, xamã em chamas. Mas por que Domador de Yakarés?

– El hombre, como el jacaré, tem três defeitos: la ignorância, la cobiça, la raiva! Yo, como domador, domestico essas fuerzas negativas em los hombres y así haço arte!

Muchas exclamaciones depois, saltamos em um barrio de árboles y mansiones. Ali conocemos Carla Fabri, fada-madriña do movimento. Toda de blanco, blancos-pérola sus cabellos longos, ella nos recebe com um abrazo galáktico. Su casa é lotada de objetos de arte e pinturas modernistas; lá fora um espejo d’água é cercado por enorme gramado – “necesito espacio para que acá descendam las naves interestelares”, explica a atriz e cronista do diário ABC (Carla é a Danuza Leão de Assunção).
Almorzamos com Cristino Bogado Gamarra, El Kuru, que dispara:

– Las Mercenárias ainda tocan, verdad? Y Fellini? Conoces Akira S, Ira!, Patife Band? – Kuru, autor de Punk Desperezamiento, morou em São Paulo nos anos 80; daí su admiración pelas bandas alternativas. O editor e poeta paraguayense é a terceira ponta do tridente selvaje – além de primo de Gamarra, maior zagueiro da história do Corinthians. Assim que devastamos las milanesas, Carla y Kuru nos levam ao Hotel Gran Paraguay… ex-residência de Madame Lynch, amante de Solano López!

– Cuidado com el fantasma ninfómano de Madame… – Carla estala besos en mis bochechas. Y es mismo despampanante el hotel! Gigantesco, estilo colonial, quadras de tênis & fútbol, piscinas, internet a la lenha y afrescos maravillosos em no teto del elegante restorant. Pero lo más estraño no era acordar en medio a la noche com la mano de Madame Lynch dentro mis cuecones… Es que, aparentemente, sólo yo y Torturra estamos hospedados lá… Nosotros y, saberemos por um aviso em la recepción, 700 debutantes do Colégio Sion de la ciudad! Ai ai ai!

Lo xerox del xerox

Convidados pelo Itamaraty, representamos los brazos armados del movimiento em Sampaulândia. Encuanto el cantante y periodista Bruno Torturra aportunhola Waldick Soriano y Odair José, escribi o libro Cada Vez que Ella Dice X, lançado pela Yiyi Jambo, a editora que funciona em casa de Douglas y Domador. Localizada no segundo andar de una mansión sublocada, llena de vazamentos no teto, ali hombres dividem um solo quarto, colchões no piso, separados por milhares de livros empilhados, sem fogão nem geladeira, pero con un balanço idílico en la imensa terraza. Domador é o capista dos livros de capas de papelão catado na rua, pintadas com acrílico, em estilo que lhe confere la alcuña de Pollock de los Chacos. O miolo dos livros é, por supuesto, y sin embargo, xerocado.

Todo es lo xerox del xerox! Em la metrópole de la contrafacción, hasta los brinquedos chineses son falsificados! Tu caminas y caminas y só vê gente bebendo tererê (mate gelado)… Assim se entende el dito de Jorge Kanese, outro escritor que mora em uma bela casa com piscina: “Paraguay envenena!”. Todos em las ruas parecem enbenenados pelo calor, ilhados por Brasil, Argentina y Bolívia, sedentos por cultura y información, ainda que cercados de água – a antiqüíssima Asunción é o umbigo do Aquífero Guarany, que começa no Pantanal Matogrossense e detém 20% da água doce do planeta. Se yo fosse usted, comprava uma fazenda no Chaco para passar tranki el Apokalípsis (o mesmo devem pensar los nazistas que ali vivem desde os tempos de Elizabeth Foster, irmã do filósofo Nietzche, así como los seguidores del reverendo Moon).

Em Asunción tablóides como Esto!, que enquadram cabeças decapitadas de bandidos e bundas de musas do meretrício, são escritos em portuñol selbaje – mas passou uma da tarde, não se acha jornal em lugar ningun! Natal batendo à porta, nadie parece trabajar y, palabra, la siesta dura 3 horas! Asunción ostenta uma força naval mas não vê oceano, y, apesar de enviar la mejor macuenha ao sudeste brasilero, no tiene uma só loja vendendo seda – los lokos lokales hacem sus baseados com jornal! Y por falar em jornal, el Encuentro saiu todos os dias na mídia! Asunción es la kapital de la ficción, verdad?

Troco perros viejos por dólares falsos
À noite, encontramos na embaixada brasilera o Domador de Jakarés cercado por suas pinturas e bizarros insetos voadores que se esborrachavam nas taças de vino da vernissage portunholesca.

– Son los baratones noturnos – riu. – Aparecem com el calor de la noche… y el calor de las yiyis…

Yiyi (se diz “djídji”) é a gíria guarani para gatinha. As yiyis paraguayenses, ensina Domador, son generosas: descendem das yiyis remanescentes da Guerra do Paraguai, que disputavam un hombre com 20 muchachas! Atrás delas, los periodistas se jogam em la noche febril de Asunción; pasamos por pubs como Saxonia, onde se vende cerveja em galones de 5 litros, y salones como Maria Delirio, onde a juventud dorada cai na cumbia. Pero, em cambio de mujeres, descobrimos el jugoloko! Una bebida hecha de cana destilada, vodka e goiabinhas fermentadas – “Hay mismo quien meta gasolina y cogumelitos en el coquetel!”, jura Kuru.

O Rocinante sem freios de DD dá carona para los escritores e críticos brasileros Xico Sá, Joca Reiners Terron, Ademir Assunção e Aurora Fornoni Bernardini. Despues de muchas andanzas por calles siempre arborizadas e tomadas por Mercedes – acá parece que todos tienem esse carro, taxistas, modernos e mafiosos –, la vanguadia portuñolesca aporta no Planta Alta. Um lugar sensacional, em um dos prédios más antiguos de Asunción, mistura de galeria de arte, restaurante e bar – se fosse em São Paulo, estaria lotado, verdad? Pero hoy es lleno de baratones y escritores borrachos, no hay yiyis. Assim, volvemos à mansion de Carla Fabri, que, enquanto cortesmente nos serve jugolokos, aponta para el cielo e nos anuncia que em breve los marcianos van cair em su piscina. El Domador nos cuenta um dos roteiros que pretende filmar:

– Um hombre gaña de su pajé uma mala com mijones de dólares falsos! Vai descendendo el río Paraguay hasta los chacos; troca los dólares por cachorros viejos, así fica rico! Chega em Asunción em um caminhón com 200 perros, perseguido pela CIA, que quer entender por que el dólar está caindo em las bolsas internacionales… y enton é possuído pelo espírito del Kurupi, que no Brasil é o Curupira, pero aqui es um índio que tiene um pau de três metros de comprimento… y dahi conoce Rocío Nuñez!

Rocio é o grande tesão paraguayensis, a Camila Pitanga de los Chacos. Será a grande estrela dos filmes do Domador – que, entre um jugoloko y otro, vira para Carla e diz: “Eu soy especialista em galáxias. Aquela ali no es Marte, es la galáxia M37!”

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[Jueca Terrón, el quinta-coluna del movimiento, y el Embajador Xico Sá]

Yo soy el baratón de la noche
Afinal, chega o sábado. Singramos el río Paraguay en un paseo muy instructivo y relajante para DD – que não dorme hace 4 días. En la noche, el gran encerramiento: el Encuentro del Portuñol Selvaje! Pero, por causa talvez do Dia Nacional da Virgen de Kaakupê, que reúne um mijón de fiéis, o enorme auditório da embaixada está casi às moskas… “Voy a hablar poemas nesta lengua inexistente pra uma platea que no existe”, solta Miguelangel Meza, o Candyman, poeta guarani que nunca sai de casa sem um saco cheio de balas. Na seqüência, dona Aurora sugere una conexión entre el portunhol y los poemas ítalo-brazukas de Juó Bananère, ídolo de Adoniran Barbosa.

Después de los sonetos selbajes de DD y de la prosa punk de Kuru, Joca Terron lê um Jim Dodge tirado de seu Transportunhol Selvagem, 15 joyitas bebadas, que traz também transcriaciones dos norte-americanos Raymond Carver e Malcolm Lowry, do japonês Ikkiû Sojun e do alemão Hans Magnus Enzensberger. Ademir Asunción verte su Zona Fantasma para a bilinguagem – a sério. Guillermo Sequera, um Leonard Cohen paraguayense, entoa cânticos xamânicos guaranis acompanhado de um violão mouro. Xico Sá exibe trechos de Caballeros solitários rumo ao sol poente, “A vida é um pangaré paraguayo que nos pega na curva!”. Jorge Kanese, patriarca del jugoloko y de la literatura de vanguarda paraguaya – espécie de Sérgio Sant’Anna lokal –, manda a epopéia de um cavalheiro batendo às portas de um bordel: “Abran, karajo!”. Surfero de chacos psicodélicos, Edgar Pou entoa um manifesto erótico em portuñol encuanto sus niños de 12 e 6 anos gargalham na platea. Yo leio poemas feitos para una yiyi jambo que me fez comer el pan que el diablo amasó. Y Torturra, que hasta enton se preguntava que rayos fazia ali, cria na hora, em la cara de palo, su primero poema:

– Yo soy el baratón de la noche… yo vuelo em busca de las yiyis…

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[Domador y Xico en la piscina de Carla Fabri]

No camino para más uma rodada de leituras em casa de Carla, bemos uma placa que promove um “Curso de Metafísica Prática”. Todo es possible em Asunción, verdad? Las garrafas de jugoloko son pocas para la fiesta poética. “Cocoon! Cocoon!”, brada Xico, antes de se jogar vestido em la piscina de Carla; Domador o segue y ganhamos uma visión infernal de dois tiozinhos em busca de imortalidad. Não era nos chacos paraguayos que Ponce de León procuraba la fonte de juventud? Na falta do elixir, dále jugoloko! Y las yiyis… ficción? O estarán esperando los periodistas em el baile de las 700 debutantes, no Hotel? Ah, las yiyis… tranki, tranki… Abanti, komandantes!

________
* Ronaldo Bressane é jornalista e escritor, autor de Céu de Lúcifer (Azougue)
** Bruno Torturra Nogueira é cantor e repórter da revista
Trip

Autor: rbressane

Writer, journalist, editor

6 thoughts

  1. hermano, que bueno. me encante con la noticia. estoy aca en la america central, revolucionario geral, vou substituir fidel, pegar un jet sky, chamalo de grana (he he) e cair pra ilha do caribe. es nosostros en la pelicula! adelante.

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