Vai passando uma época

“MORRE A BAILARINA MARIA ESTER STOCKLER
Vítima de câncer, a bailarina morreu no último domingo e foi enterrada anteontem. Maria Ester foi casada com o cineasta José Agrippino de Paula (cujo livro PanAmérica inspirou Caetano Veloso na época do Tropicalismo) e, assim como ele, ajudou a contracultura nos anos 70 e 80. Stockler trabalhou também com a coreógrafa Maria Duschenes em sua trajetória pela dança moderna, especialidade de Duschenes.” [Folha de S.Paulo, hoje]

“A Maria Ester gosta de sair, passear por aí, ir a bares e teatros, se divertir, tomar sol na praia. Eu prefiro ir ao Amarelinho, conversar com o Jô Soares sobre literatura e jazz.” Bons tempos aqueles, sim, deviam ser. Tão bons que se colaram definitivamente ao prosear monolítico de Agrippino. Porque era isso, nesse tempo verbal, que ele contava pra gente, Joker e eu, quando o visitamos, uns quatro anos atrás, em sua casa no Embu. Sim: em pleno 2002 o autor de Lugar público e PanAmérica, pai fundador da Tropicália, a mesma do ministro Gil e do , ainda permanecia com a fala entranhada no presente ano de 1970, quando ele e a bailarina Maria Ester Stockler formavam o casal de artistas paulistanos mais bonitos, enigmáticos e bacanas do Rio de Janeiro.

Então, eu e o gerente do HellHotel pensávamos em escrever uma biografia de Agrippino. Entrevistamos várias pessoas, e o projeto, mesmo não abandonado, segue em forma de feto. Depois da entrevista com o panamericano – envolta em duas cassetes, que não verti ao papel até hoje – , conversamos com gente como Stênio Garcia [que estreou no teatro na mais revolucionária peça dos anos 1960, Rito do amor selvagem, de Agrippino], Gerald Thomas [que reconhece naquela peça, a que assistiu ainda adolescente, como fundadora de seu teatro multimidiático] e o jornalista contracultural Luiz Carlos Maciel. Era preciso falar com Maria Ester, mas não havia notícia de seu paradeiro – somente sabíamos que vivia em Paraty.

[Enquanto nossa entrevista com Agrippino fermenta em duas fitas, Terron apresenta sua memória do encontro em dois contos do livro Sonho interropido por guilhotina, a ser lançado 19 de outubro.]

Na primeira Flip [2003], Joker e eu mandávamos uma Corisco em frente ao bar Toronto quando captamos o andar trôpego de um genérico do Agrippino, um barbudo cambaleando ali pelas pedras. Foi bem estranho. Quase no mesmo minuto, o intuitivo Joca orelhou a conversa de duas senhoras ao nosso lado – “Desculpe, mas a senhora falou em Maria Ester, é da Maria Ester Stockler que está falando?”. Era! “Sabe onde ela está?” Ela freqüentava um boteco ali perto, na rua do Fogo. A tarde caía, pra lá fomos.

A ex-bailarina havia envelhecido bastante. Mesmo assim conservava certa altivez no porte e uma beleza antiga nos olhos verdes. No boteco, uns playboys cariocas tentavam emular, voz-flauta-violão-e-banquinhos, alguma bossanova que não viveram. Cantavam alto, mal ouvíamos os sussurros de Maria Ester. Esquisito: durante a conversa com Agrippino, a voz dele ia descendo, descendo, descendo, e Joca e eu quase caíamos hipnotizados, tentando acompanhar seu pensamento. No papo com sua ex-mulher, acontecia o mesmo – só que foi ela quem caiu no chão, escorregada do banquinho. Os playboys riram do tropico da famosa bailarina, ora virada em velha bêbada – que lhes lançou um olhar assustador.

Ela prosseguiu, por umas duas horas, contando sua vivência com o guru. Os trabalhos em conjunto [como o famoso O planeta dos Mutantes, escrito por Agrippino e dirigido por ela, primeiro espetáculo multimídia brasileiro], as viagens, as drogas, o adeus à família rica [era herdeira da casa financeira Haspa], a casa maluca em que viviam no Pacaembu – onde certa vez a polícia deu uma batida atrás de ácido e maconha. Foi algo tão violento que prostrou pesadamente Agrippino. O choque talvez tenha detonado o processo irreversível de esquizofrenia que levou o escritor para longe da consciência: no ato ele quis sair do Brasil, sentindo-se perseguido. E então as viagens à África, a vida psicodélica na Bahia, os filmes perdidos da dupla de artistas que queriam trazer para o celulóide sua experiência com uma coreografia que se pretendia ponte entre vida e arte. Daí os surtos de Agrippino, suas fugas [era visto praticando yoga nu em Ipanema], as brigas, o nascimento da filha Manhã, o divórcio, a grana encurtando. E a morte de Manhã, num acidente automobilístico. Tempo depois, Maria Ester se estabelecia em Paraty.

“Agrippino nunca soube que Manhã morreu”, ela dizia, quando a levávamos a seu carro. “Talvez já nem saiba que ela nasceu um dia”, contava Maria Ester, os imensos olhos verdes enevoados em álcool. Havia algo de Agrippino naqueles olhos – algo que nem ele tem mais – e agora também esse algo já se foi. “Assim vai passando uma época”, Joca comentava hoje comigo. “E no jardim os urubus passeiam/ a tarde inteira entre os girassóis”, cantaria Caetano – aquele, de um outro tempo.

Autor: rbressane

Writer, journalist, editor

6 thoughts

  1. Acabo de ver o site. Foi 1/2 por acaso, pois procurava o site de meu irmão.
    Sou sobrinha da Maria Esther e estive com ela no final de sua vida.
    Tenho algumas imagens bem interessantes que guardei e tb separei os escritos dela.
    Tem uns contatos da filmagem do Hitler que deveriam ser scaneados e tratados pois mostram eles dois trabalhando e ilustra bem a parceria. Tb tem uma foto do Zé jovem que é linda.
    Um poster do Rito do Amor Selvagem e matérias de jornais.
    Separei estes documentos e quero que eles sejam pesquisados por outras gerações. Ainda não decidi para onde encaminhar.
    Mari

    1. olá, ainda existe este blog? Realizo uma pesquisa de Mestrado resgatando e analisando a obra e os modos de criação da MAria Esther Stockler, vocÊs teriam o contato da sobrinha dela? estou coletando materiais!
      obrigada,
      att,
      Julia Giannetti.

  2. Não eram cariocas que cantavam no bar, eram paulistanos, inclusive uma das meninas que estava presente foi a musa dos “Fora Collor” Caras pintadas. Eu estava no bar e fui eu que levei a Maria Ester para conhecer alguns amigos que estavam lá. Eu era muito amigo da filha dela que faleceu a Manhã de Paula, e acabei ficando muito amigo da Maria Ester. Eu não estava mais no bar no momento em que a Maria Ester caiou da cadeira. Eu soube no dia sequinte, mas quando eu a ela conversamos sobre isso ela nem lembrava mais. Bom, é isso. Saudade de uma grande mulher.

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