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cola

Trabalho estúpido. Trabalho estúpido. Trabalho estúpido. Dois filmes em cartaz na cidade focam trabalhos estúpidos. Saí deles me lembrando do meu tempo de pasteupman. Um deles é Factotum, de Bent Hamer. Paste-up é um serviço que não existe mais. O outro é Bubble, de Steven Soderbergh. Era 1988. Auge da hiperinflação. Eu trampava numa agência de publicidade. Trabalho estúpido. Havia um chefe dos seis pasteupmen, Seu Manuel. Yep. Um homem especializado em colar preços de coisas que jamais poderá comprar. Em Factotum, Chinaski [Bukowski] vai empilhando serviços idiotas tais como enfiar sapatos em caixas, entregar gelo, pilotar táxi, embalar pepino, consertar bicicletas e limpar estátuas. Em Bubble, três desgraçados labutam numa fábrica de bonecas duma cidade filhadaputa dos EUA, o país dos cretinos que trabalham estupidamente sonhando… com os comerciais de TV… que lhes sugerem como é bom ter um carro… que os possa levar a seu trampo idiota e de volta à sua casa imbecil… onde passam o tempo comendo e vendo TV. Pensando bem, um país como qualquer outro.

Um pasteupman é um cretino que sabe copiar, recortar e colar. Basicamente a base da literatura e do jornalismo modernos. Trabalho estúpido. Da próxima vez que me perguntarem qual foi minha maior influência literária, direi que foi Seu Manuel. Um cretino fundamental, diria Nelson Rodrigues. A gente trampava bem-lôco de cola benzina. Das 9h às 19h. Batendo cartão. Tendo descontados os minutos de atraso. Acumulando horas-extras para pagar o aluguel, o rango, o goró. O selviço era simples: colar preços, descolar preços, recortar números, colar números, criar preços. Éramos os idiotas-padrão da fase final da indústria. Colando números em letraset [alguém ainda sabe o que é isso?] sobre papel cartão preto para serem usados em comerciais de TV das Casas Buri  – a maior rede varejista da época, hoje seria tipo uma Casas Bahia. Liquidificadores, ferros elétricos, sofás, bicicletas, geladeiras, TVs. Tudo mudando de preço muito rápido – a cada semana quando entrei, depois a cada dia, depois três vezes no mesmo dia, um ano depois. Trabalho estúpido, trabalho estúpido – como fiquei um ano fazendo isso? Para fugir da rotina, Chinaski bebe, fode, joga nos cavalos. Para fugir da rotina, o trio apático de Bubble fuma maconha, vê TV, come e comete crimes. Para fugir da rotina, we the gorgeous pasteupmen estendíamos o break do almoço por sobre as máquinas de fliperama do centrão de SP.

Recortar e colar números, reutilizando as mesmas letrasets. Ou então, usando o estilete, recortar e colar números de provas de anúncios para jornais. Ou ainda lambuzar de ecoline velhos fotolitos para reutilizá-los. O dia inteiro os sete matraqueando putaria e futebol, passando benzina para descolar os números, tirando a cola, reunindo-a em um grude imenso chamado michelin [não falo do dente de ouro do Cidadão Instigado nem do bonecão de pneu, mas é tudo a mesma merda], passando benzina para descolar os números, tirando a cola, reunindo-a em um grude imenso chamado michelin, matraqueando putaria e futebol. Seu Manuel se vestia mal, tinha hálito de meia velha, barriga de sapo, olhos vermelhos de cheirar cola. Um dia flagrei-o manguaçando benzina. Doidão, me confessou que não entendia como é que tinha homem que chupava buceta. “Vai saber o que a mulher enfia lá dentro”, mandou, colando uma vírgula seguida do número 99.

O número 99 foi a coisa que mais vi na vida. Number nine: number nine: number nine: number nine. Numb = entorpecido. Not that comfortably numb for me aquele trampo. Mas havia quem gostasse. Apesar do amor à cola-benzina, com o “advento da informática” os pasteupmen desapareceram, junto dos fotolitos, da letraset e do michelin. Milhares desempregados – gente que só sabia recortar, copiar e colar. Como a maioria dos escritores de hoje. Como a maioria dos trabalhadores de hoje. Pode-se aprender com a repetição da cretinice, reza um exasperado Bukowski: “Se você vai tentar, vá até o fim. Ou nem tente. Isso pode significar perder namoradas, mulheres, parentes, trampos e talvez sua cabeça […]. Isolar-se é um dom”. Sim, sozinho é possível extrair epifanias do deserto. Em Bubble, vem em forma de crime. Em Factotum, de striptease. Seu Manuel tomou um corno da mulher e pulou do Viaduto do Chá. No IML, algum cretino teve de colar os pedacinhos de seus miolos com superbond. Outro trabalho estúpido. Custava chupar uma buceta?

Autor: rbressane

Writer, journalist, editor

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