Mnemomáquina

Mnemomáquina no ateliê do clube Hussardos
Mnemomáquina no ateliê do clube Hussardos

O FUTURO ESTÁ NO PASSADO

Romance de ficção-científica, Mnemomáquina é um projeto antigo. Comecei-o em 2005 e só fui terminá-lo em 2012, graças à inabilidade crônica em lidar com meu TDA.

A primeira inspiração foi o Copan, onde eu morava. Uma vez meu filho me acordou apontando a janela: Papai, tem um tubarão voando! Pulei da cama: era um dirigível — que na época sobrevoava a cidade em voos turísticos — a dez passos de nós.

Então tive a visão de um homem solitário que moraria no Copan com um tubarão — o aquário estaria colado à janela. Então pensei que o tubarão poderia ser um tubarão-tigre e que o homem leria, nas manchas do peixe, o futuro. Então pensei que o futuro poderia ser uma lembrança coletada pelo tubarão nas águas do aquário, conectadas às águas que inundavam a São Paulo do futuro, quando o mar teria subido a tal ponto que se ligaria ao Tietê. Então pensei na Mnemomáquina, um invento para predizer o futuro através de lembranças, usado pela seita anarcoterrorista chamada Divisão dos Não-Lineares. Então pensei que um dos agentes dessa seita poderia ser um homem que tivesse surgido do nada em São Paulo, um homem que teria perdido a memória, mas que teria achado uma garota que teria lembranças demais, e pensei que eles poderiam se apaixonar.

Do cruzamento entre essas duas histórias nasceu a trama, que cruza ainda muitas outras narrativas. Como a de dois irmãos que viajam pelo interior do Brasil em busca de um amigo imaginário. De um gorila mutante que lidera uma insurreição de párias. De um escritor morto de modo misterioso, e de outros escritores que se tornaram imortais. É também uma história sobre o Brasil do futuro, ou de um futuro que o Brasil já teve no passado. Assim, se trata de uma crônica de anacronismos.

O livro não é uma narrativa linear nem realista. Em 47 capítulos, é contado por 15 narradores em múltiplos pontos de vista: o personagem de um capítulo pode ser coadjuvante em outro, e vice-versa. Pode ser lido em qualquer direção, a partir do meio para os extremos, do fim para o começo; é um quebra-cabeça em que o tempo permanece fluido e estático ao mesmo tempo, e que o leitor monta em seu tempo, em sua própria cabeça. É um livro incompleto, porque fala da sensação de busca e incompletude permanentes que nos vem ao tentar compreender o futuro através do nosso passado. É, talvez, um livro sobre a impermanência.

Essa ficção-científica encontrou na Demônio Negro, pequena editora do tradutor Vanderley Mendonça, o veículo ideal para se tornar um livro-objeto que, em vez de dialogar com o futuro, como se espera do gênero, apropria-se de tecnologias vintage. Vanderley usa métodos, técnicas e artes antigas para criar seus livros. Afinal, é um livro anacrônico, certo?

40 exemplares. Para que mais?
40 exemplares. Para que mais?

Um dos pilares da Mnemomáquina é: “O futuro está no passado“. Daí criamos este livro em edição artesanal: capa em tecido escarlate, como os códices do século 14, impressão em clichês tipográficos (técnica do século 18), mancha gráfica em proporção áurea (descoberta no século 16) toda em fonte Garamond (também datada do século 16), vinhetas gráficas em uma cor e acabamento inteiramente à mão. (Ok, o miolo é impresso em gráfica digital, mas nem tudo é perfeito.) A tiragem, única e numerada, restringe-se a 40 exemplares (a R$ 50). Há livros demais no mundo — e poucos podem ser passados direto do escritor ao leitor, de mão a outra. Como antigamente. Como pode voltar a acontecer no futuro.

Mnemomáquina será lançado na Feira Plana, dias 8 e 9 de março, no estande da Demônio Negro, onde também se encontram as artes visuais de Eva Uviedo, autora das vinhetas do livro. Tubarões, polvos, seres fantásticos, náufragos em terra firme: os personagens de Eva transitam em um universo semelhante ao do romance — mas, com ela, nadam no ambiente gráfico de cartazes e zines. Se você não conseguir chegar à banca dos Pretos Gêmeos na Feira Plana (na entrada do MIS, estande 11), tanto as artes de Eva quanto os livros da Demônio Negro poderão ser vistos no Hussardos, clube literário na rua Araújo, 154, 2º andar, tel. 11/ 5825-2426. Não por acaso, o clube funciona em cima da Academia Paulista de Esgrima, este esporte antiquado, em frente ao edifício Copan — edifício tão futurista quanto clássico, testemunha do futuro do pretérito de um incerto país.

Comentários

10 respostas a “Mnemomáquina”

  1. […] Crédito:Divulgação Ronaldo Bressane, ex-Trip e Alfa, lança seu primeiro romance, “Mnemomáquina”   Com objetivo de ser livro-objeto e fetiche, “Mnemomáquina” terá apenas 40 exemplares, todos eles produzidos artesanalmente, com “capa em tecido escarlate, impressão em clichês tipográficos (técnica do século 18), mancha gráfica em proporção áurea (descoberta no século 16), vinhetas gráficas em uma cor e acabamento inteiramente à mão. Ok, o miolo é impresso em gráfica digital, mas nem tudo é perfeito”, como explica Bressane em seu site.  […]

  2. Avatar de Preciso Ler
    Preciso Ler

    Como adquirir o livro ?

    1. Avatar de faker

      Dia 29 de março o romance será relançado no clube Hussardos: https://www.facebook.com/pages/Hussardos-Clube-Liter%C3%A1rio/791622577530347?fref=ts. Apareça!
      abraço,
      RB

      1. Avatar de Preciso Ler
        Preciso Ler

        Obrigado…desde que li V.I.S.H.N.U. está difícil parar ler

  3. Avatar de Nino Corrêa

    Ronaldo, existe alguma forma de comprar o livro e ele ser enviado via correios? Estou super interessado mas não pude ir p/ São Paulo comparecer no relançamento…

    1. Avatar de faker

      Nino, tudo bem? Obrigado pelo interesse. Você pode encomendar o livro com o editor da Demônio Negro, o Vanderley Mendonça, pelo email hussardos@gmail.com. Mas corre, porque acho que só tem uns 15 exemplares da última tiragem. Abraço, RB

  4. […] Primeiro o Lorenzo, filho do Ronaldo, acordou no Copan e disse que tinha visto um tubarão voador pela janela. […]

  5. […] rabiscos que viraram clichês de impressão para o livro Mnemomáquina, e que viraram cartazes […]

  6. […] Primeiro o Lorenzo, filho do Ronaldo, acordou no Copan e disse que tinha visto um tubarão voador pela janela. […]

  7. […] MnemomáquinaDemônio Negro, 2014 (romance) Fabrizio Fabrizzianni, homem solitário que mora no edifício Copan com um tubarão, Hannah, lê, nas manchas do peixe, o futuro. E o futuro é só uma lembrança coletada pelo tubarão nas águas do aquário, conectadas às águas que inundam a São Paulo do futuro — quando o mar subiu a tal ponto que se ligou ao Tietê. A Mnemomáquina prevê o futuro através de lembranças, usado pela seita anarcoterrorista Divisão dos Não-Lineares. Um dos agentes da seita é Zed Stein, homem desmemoriado que surgiu do nada em São Paulo mas achou Baby Gasoline — uma garota com lembranças demais. Do cruzamento entre essas duas histórias nasce a trama, que cruza outras narrativas. Como a de dois irmãos que viajam pelo Brasil em busca de um amigo imaginário perdido. De um gorila mutante que lidera uma insurreição de párias. De um escritor morto de modo misterioso e de outros escritores que se tornaram imortais. Em 47 capítulos, o romance é contado por 15 narradores em múltiplos pontos de vista, e pode ser lido em qualquer direção. Esta ficção-científica encontrou na editora Demônio Negro o veículo para se tornar um livro-objeto: capa em tecido escarlate, impressão em clichês tipográficos, mancha gráfica em proporção áurea, vinhetas desenhadas por Eva Uviedo, acabamento à mão. Ok, o miolo é impresso em gráfica digital, nem tudo é perfeito… A tiragem, única e numerada, restringe-se a 150 exemplares. Pedidos podem ser feitos diretamente ao editor, Vanderley Mendonça, em hussardos@gmail.com. […]

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