Julio & Julio S/A
Lembrando o centenário de vida e os 30 anos da morte do argentino Julio Cortázar, o livro El Último Combate, lançado na Espanha, registra, além da frutífera amizade e parceria artística do escritor com o pintor Julio Silva, uma verdadeira autobiografia do autor de Jogo de Amarelinha, exposta nas cartas que trocou com o melhor amigo

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Julio Cortázar gostava de contar uma historieta em que o amigo Julio Silva trocava um quadro por um carro “parecido com um pote de iogurte onde se entrava pelo teto de fibra de vidro em forma de cápsula espacial” e ia buscar a mulher para estrear a novidade.
“Com algum trabalho se introduziu no iogurte no bairro latino, e quando ligou o carro tive a impressão de que as árvores da calçada retrocediam em vez de avançar, detalhe que não inquietou Silva embora uma olhadinha no câmbio mostrasse que estávamos de marcha a ré, método de deslocamento que tem inconvenientes em Paris às cinco da tarde e que culminou no encontro nada fortuito do iogurte com uma dessas casinhas inverossímeis onde uma velhinha friorenta vende bilhetes de loteria. Quando se deu conta, o mefítico tubo do escapamento do carro havia se enganchado no cubículo e a idosa fornecedora de sorte emitia esses gritos que os parisienses resgatam de vez em quando do silêncio cortês de sua alta civilização. Meu amigo tentou sair para socorrer a vítima semisufocada mas como desconhecia a maneira de abrir o teto de fibra de vidro viu-se mais preso do que Gagárin à sua cápsula, sem falar da multidão indignada que cercava o infausto cenário do incidente e já falava em linchar os estrangeiros como parece ser obrigação de qualquer multidão que se preze.”
O trecho, tirado de “Um Julio fala de outro”, integra A Volta ao Dia em 80 Mundos, reunião de textos inclassificáveis entre crônica, ensaio, relato de viagem, poesia e conto. Mas integra também o recém-lançado El Último Combate (Editorial RM), que recolhe todas as colaborações entre os Julios — o Julio caneta e Julio pincel, como os amigos chamavam Cortázar e Silva.

Conheceram-se em 1955, quando o jovem pintor argentino, depois de estudar no curso do pintor surrealista Batlle Planas, decidiu tentar a sorte em Paris e bateu no apartamento do compatriota. Silva fascinou Cortázar com uma verborragia não-linear a respeito de seu amor por uma musa surrealista chamada Sara. Demorou algum tempo para Cortázar sacar que a pronúncia arrevesada de Silva se referia na verdade a Tzara, Tristan Tzara, o dadaísta romeno que participou do movimento estético liderado por André Breton — influência capital sobre o realismo fantástico que norteia a literatura cortazariana. Dias depois Silva abriria uma mostra em Paris e inquietaria Cortázar com desenhos em que uma fauna em perpétua metamorfose ameaçava pular sobre os espectadores. O escritor achava as edições de seus livros convencionais demais e convidou Silva a colaborar em futuras publicações.
O trabalho conjunto se revelou ainda mais frutífero. Muito antes que se falasse em multimídia, hipertextualidade, livros-objeto e formatos híbridos, Cortázar e Silva brincavam com volumes mágicos, desafiando a estrutura linear e incorporando elementos gráficos como parte fundamental da obra, sem cair na mera ilustração. Cortázar em especial era um crítico das caretas edições francesas dos livros de literatura e propunha um diálogo intrigante entre texto e imagem.

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“Nossa ideia era que as ilustrações não fossem apropriadas ao texto, para que a história e o desenho tivessem força própria”, conta Silva a Saúl Yurkievich na entrevista que encerra El Último Combate. Amante do livro como objeto de arte e bibliógrafo empedernido, Silva concebeu ilustrações, pesquisou fotos para capas e miolos ou realizou os projetos gráficos das primeiras edições de praticamente todos os livrros de Cortázar: Jogo de Amarelinha, Todos os Fogos o Fogo, Bestiário, Histórias de Cronópios e de Famas, 62 — Modelo para Armar, As Armas Secretas, Território, Último Round — e A Volta ao Dia em 80 Mundos, em que até mesmo participa como personagem, como se viu na anedota do carro-iogurte.
Em carta de 23 de agosto de 1966 para o xará Silva, Cortázar demonstra entusiasmo pelos textos que escreve para o almanaque-colagem A Volta ao Dia em 80 Mundos, “livro para cronópios”, segundo diz, lembrando o animal fantástico a que é frequentemente associado.
“O editor me deu carta branca para meter vinhetas, mapas, biscoitos secos, gatos dissecados etc (…) Queria um livro com muito vento dentro, brancos por todos os lados, vinhetas entre texto e texto, desenhinhos esquisitos nas margens, e outras astúcias sílvicas e cortazarianas”.

Assim, em 1967 escritor e pintor publicam as 214 páginas e 132 ilustrações de A Volta ao Dia em 80 Mundos, em que prosas dispersas com fotografias e desenhos conversam superando as classificações de gêneros literários e convertendo a leitura em uma autêntica peripécia ao redor do mundo literário, poético e artístico do criador de Jogo de Amarelinha, que havia estarrecido o mundo literário em 1963 com seu jogo narrativo não-linear. (Infelizmente a pobre edição nacional, da Civilização Brasileira, teve pouco cuidado com o trabalho gráfico de Silva, que nem mesmo é creditado). No almanaque, os trajetos de leitura como círculos que se unem e se separam sugerem que a “realidade é sempre outra”. Fazendo a referência a ambos Julios, Cortázar dizia: “a meu xará devo o título deste livro e a Lester Young a liberdade de alterá-lo sem ofender a saga de Phileas Fogg”.
Dois anos depois, em 1969, repetiam a experiência e no México saía à luz o livro-colagem Último Round, de novo com desenhos originais de Silva separando as páginas com o corte horizontal que serve a Cortázar para construir os livros (sempre esta ideia de dois distintos níveis de leitura) com o “andar de cima” e o “andar de baixo”. O novo almanaque, que incorpora na capa um índice alternativo em forma de anúncios classificados, traz uma citação de Lênin:
“É preciso sonhar, mas a condição de crer seriamente em nosso sonho, de examinar com atenção a vida real, de confrontar nossas observações com nosso sonho, de realizar escrupulosamente nossa fantasia”.

Por era exatamente o que os inseparáveis amigos faziam ao montar livros como experiências vivas. Para o conto “Boneca quebrada”, de Último Round, usaram uma sinistra série fotográfica. “Como se tratava da história de uma boneca estraçalhada, compramos uma bonequinha, a levamos para o apartamento de Cortázar e meticulosamente arrancamos suas pernas e seus braços. Eu mexia na boneca e ele fotografava. Depois durante uns dias não conseguíamos falar nem nos encarar. Muita culpa. Tínhamos vivido algo sádico”, explica o serelepe octogenário Silva, ainda vivendo em Paris.
Les Discours du Pince-Gueule (em tradução aproximada, As Falas do Belisca-Cara, primeiro livro de contos que Cortázar escreveu em francês, em 1966), com litografias de Silva, também faz parte de El Último Combate. Até então inédito em espanhol, foi traduzido por Aurora Bernandez, primeira mulher de Cortázar — falecida neste 8 de novembro último — , e traz historietas protagonizadas por um animal fantástico que atormenta a vida do grande cronópio.
Já em outro capítulo, Silvalandia, o percurso de colaboração se inverte: Cortázar parte das ilustrações de seres estranhos desenhados por Silva para inventar contos curtos que vagam entre a dicção infanto-juvenil e o território do realismo mágico — sob a advertência de que o leitor possa se encontrar com autorretratos travessos ou mafiosos dos próprios autores. Outra vez temos aqui a ideia de complementaridade, posto que o texto jamais explica a imagem, assim como Silva não ilustrava exatamente as palavras de Cortázar. Pareciam estabelecer seu diálogo em um território invisível. Da mesma forma como, fanáticos por boxe como bons argentinos, frequentemente paravam numa esquina de Paris para um round rápido de boxe a seco, em que emulavam uma luta com socos e esquivas de mentirinha.

Para além do registro da amizade dos dois Julios, El Último Combate vale, sobretudo, por trazer à luz as cartas originais de Cortázar a Silva (o escritor teria jogado fora todas as cartas que os amigos lhe enviaram). Partindo de junho 1966 até novembro de 1983 (pouco antes da morte de Cortázar, em fevereiro de 1984), formam, de certa maneira, uma espécie de autobiografia. Ali são vistos detalhes do Cortázar mais íntimo: brincalhão, generoso, detalhista, afetuoso, demonstrando tanto a paixão por suas mulheres (Aurora Bernárdez, Cris Rossi, Ugné Karvelis, Carol Dunlop) quanto por seus ideais políticos — como sua atuação descaradamente esquerdista e o deslumbre com a Revolução Cubana e os sandinistas.
Em uma carta de 1967, Cortázar revela-se “demolido” com a notícia da morte de Che Guevara. A morte do guerrilheiro argentino o instigará a escrever um dos contos mais célebres de Todos os Fogos o Fogo, “Reunião”, em que descreve a tomada de Sierra Maestra pelos barbudos. Uma história nem tanto política — mas acima de tudo sobre a amizade em meio ao perigo.
Nas cartas, são frequentes as menções a conversas e churrascos que dividiam em Paris com os amigos Saúl Yurkievich, Arnaldo Calveyra, Sara Facio, Alejandra Pizarnik, Luis Tomasello e Nelly Kaplan. O porte esguio e comprido (1,93m), as grandes e ossudas mãos que regiam o discurso sinuoso pautado por uma voz grave e rápida como um solo de Charlie Parker faziam de Cortázar uma atração hipnótica.
“Toda vez que jantávamos em casa, chegava e contava uma história a partir do que tinha visto em seu trajeto no metrô: todos caíam subjugados pelo modo como narrava. Era um conto por publicar”, lembra Silva.
Nesses anos, nas jazzísticas festas na casa de Cortázar em Saignon, na Provença, não faltavam García Márquez e Carlos Fuentes. “Mas ninguém falava de literatura”, confessa o pintor, que lembra uma anedota curiosa.
“Quando Cortázar falava de um pintor de que eu não gostava, eu rebatia com um escritor que ele detestava… Era um código. Descobri muitas coisas graças a ele, e acho que ele também coisas da vida cotidiana de um pintor. Foi um intercâmbio de mundos”, recorda.

Apesar das calorosas demonstrações de amizade, na intimidade Cortázar era um solitário.
“Não se reunia com a elite literária e nunca andava atrás de editores. Trabalhava metade do tempo como tradutor para a Unesco, e aí tinha seis meses livres para ler, escrever, escutar jazz, tocar trompete e derrubar garrafas de vinhos rosés e uísques”, dedura Silva.
As derradeiras cartas de Cortázar são tristíssimas — reflexo da doença misteriosa contraída por ele e seu último amor, a fotógrafa e ativista norte-americana Carol Dunlop, com quem escreveu o clássico road novel romântico Os Autonautas da Cosmopista. O laudo oficial aponta leucemia para o escritor e aplasia medular para ela — porém uma grande amiga de Cortázar, a escritora uruguaia Cristina Peri Rossi, revelou que ambos teriam morrido em decorrência de aids.
Cortázar haveria contraído a doença após uma transfusão de sangue a que foi submetido, em agosto de 1981, quando teve uma hemorragia estomacal em Saignon, e teria transmitido a moléstia a Carol. Anos depois se soube que o sangue utilizado na transfusão dos hospitais no sul francês estava contaminado — o que confirma a tese de Cristina, uma vez que os diagnósticos sobre leucemia não foram conclusivos.
Cortázar viveria dois anos sem sua amada Carol. Apesar da densa melancolia refletida nas cartas, teria ainda muita energia para se jogar de cabeça em uma aventura: acompanhar os sandinistas em sua tomada de poder na Nicarágua, trabalho jornalístico para a agência EFE. Revela que corre perigo, pois em breve acompanhará os sandinistas até a linha de fogo com os seguidores de Somoza, na fronteira com Honduras.
“Estou na Nicarágua há três dias, lançado ao trabalho, bendito trabalho que me enche a cabeça e me ajuda a viver sem esse pesadelo diurno que tem me perseguido até agora. O problema é que aí não há linha de fogo, pois as coisas acontecem em qualquer parte e em qualquer momento, então pode acontecer que eu forme a cota dos que caem em emboscadas etc”, escreve Cortázar.

Não parecia temer a morte o já doente escritor, cada vez mais magro em seus últimos dias, o que passava a impressão de, como Abraham Lincoln, continuar crescendo depois de adulto (outra lenda cortazariana afirma que o escritor sofreria de gigantismo). Na correspondência com Silva, Cortázar parecia, tal como Manuel Bandeira escreveu se referindo à morte próxima, se preocupar em deixar “lavrado o campo, a casa limpa, a mesa posta, com cada coisa em seu lugar”. Dava últimos pitacos nos livros Silvalandia e El Negro Diez (este, de poesia, em parceria com Luis Tomasello, foi revisado um dia antes de sua morte; este ano foi relançado em edição reduzida de 150 exemplares).
Em uma penúltima carta, Cortázar pedia a Silva (sempre chamado afetuosamente de “patrón”) que, na tumba de Carol Dunlop, não colocasse “esposa de Julio Cortázar” porque “ela valia por si mesma”. Também requisita os préstimos do amigo para a concepção de uma escultura funerária. “Será para ela e também para mim”, avisa.
Dois anos depois, no cemitério de Montparnasse, Julio Cortázar seria enterrado junto a Carol Dunlop, ao pé da escultura Despedida com sorriso, desenhada e esculpida por Julio Silva — a lápide foi concebida por Luis Tomasello, mas o patrón concretizou todo o monumento. Neste mundo e no além, um cronópio solitário precisa estar sempre rodeado de amigos.


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