O que é escrita criativa?

Dei meus pitacos nesta ótima reportagem da revista Exame sobre cursos de escrita criativa…

…E aproveito para reproduzir abaixo minha entrevista integral sobre o assunto.

1. Afinal, o que é escrita criativa? De que forma ela difere de uma escrita não-criativa?

>>> Como todo caô, de storytelling a coach, creative writing surgiu nos EUA. O primeiro cara a afirmar que a escrita criativa poderia ser ensinada através de técnicas – dinamitando a mistificadora tese da ‘inspiração’ – foi ele mesmo, o pai de todos, Edgar Allan Poe, em A Filosofia da Composição, livro que disseca seu clássico poema “O corvo”. Isso no século 19. No começo do século 20 se multiplicaram manuais de ‘como escrever’ editados por escritores, em na década de 1920 a universidade de Iowa começou seu Creative Writing Program, berço de seu programa de residência literária, que existe até hoje – autores brasileiros como Sérgio Sant’Anna e Antônio Xerxenesky passaram por ali.
Mas o que seria creative writing? Basicamente tudo o que é escrito de modo criativo, ou seja, nem técnico nem copiado. Bulas de remédio, manuais, teses acadêmicas e livros científicos não costumam ser criativos, embora sejam textos. Afinal, são textos que não ligam para os componentes criativos da linguagem – sua expressividade poética e sua capacidade de contar histórias (e aí inclua-se a criação de personagens, a descrição do espaço e sua dimensão no tempo). Portanto a escrita criativa pode se dar tanto na ficção (poesia, crônica, conto, romance, roteiro de HQ, TV ou cinema) quanto na não-ficção (peças jornalísticas em texto ou em forma de roteiro para audiovisual).

2. Saberia dizer quantos cursos de escrita criativa existem hoje no Brasil? A oferta de cursos desse tipo está crescendo? Por quê?

Putz, é muita gente. Especificamente no âmbito da literatura, no Brasil quem começou a ensinar escrita criativa foi o professor Gílson Rampazzo, em 1967, no Colégio Equipe. Ele manteve seu curso de redação no ensino médio até se aposentar, enquanto dava aulas de escrita criativa em oficinas no Museu Lasar Segall (de que participei durante sete anos). Dá aulas até hoje no Equipe, e acaba de lançar o livro Ensaio, um manual de escrita criativa para textos conceituais (teses, dissertações, monografias etc).
No Rio Grande do Sul é famosa a oficina de escrita criativa do escritor Assis Brasil, que formou autores como Daniel Galera, Michel Laub, Carol Bensimon. Em SP são concorridas as oficinas de Marcelino Freire, que dá aulas no Centro Cultural B_arco. Conheço e recomendo também os cursos de Nelson de Oliveira, Cadão Volpato, Noemi Jaffe, Ivana Arruda Leite, Angélica FreitasFabrício Corsaletti, João Silvério Trevisan, Joca Reiners Terron – todos escritores de prestígio.
No começo eu achava estranho haver tanta procura por cursos de escrita criativa. Depois notei que nem sempre os alunos têm a ambição ou o dom de serem escritores. Procuram a escrita criativa justamente para exercitar sua capacidade de contar histórias de modo criativo, de garantir seu domínio sobre a linguagem. Há ainda quem procure esses cursos pois muitas vezes os professores criam seu próprio cânone, sua própria bibliografia, e assim os alunos têm acesso a um ‘percurso de leitura’ difícil de obter através da leitura de revistas literárias (bem, no Brasil quase não existem revistas literárias…).

3. Qual é o perfil dos alunos que buscam cursos de escrita criativa? São apenas aspirantes a escritores ou também aparecem pessoas com perfil mais corporativo, que trabalham em áreas diversas como contabilidade, finanças, marketing, recursos humanos etc?

Pois é, há também quem procure tais cursos para compreender os mistérios da escrita, e descobrir que não passam de técnicas sutis aplicadas de modo engenhoso. Assim, tenho alunos advogados, que buscam os cursos para fugir do jargão jurídico. engenheiros e contadores que querem ‘pensar fora da caixa’; cozinheiros que pretendem dar mais sabor à descrição de suas receitas; modelos que buscam contar com riqueza suas desventuras pelo mundo da moda; médicos e psicólogos que procuram colocar no papel de modo organizado e interessante as experiências estranhas a que tiveram acesso… Sem contar roteiristas, redatores publicitários e jornalistas.
Outro dado importante a salientar é que a redação é muito mal cuidada pelo ensino no Brasil. Deveria, como a matemática, ser questão prioritária. Pelos textões horríveis que vemos todos os dias no Facebook percebemos o quanto as pessoas não sabem redigir nem um mero bilhete para a faxineira (aliás uma faxineira que trabalhou em casa me escrevia bilhetes sensacionais – duas páginas para descrever o infortúnio de quebrar um copo, por exemplo). Quem não sabe narrar sua própria vida de modo intrigante não é dono dela, assim como quem na escola se sai mal na matemática gere pessimamente sua vida financeira.
É bizarro saber que não existe curso de redação na cátedra de Letras, por exemplo, algo que é usual nos EUA desde os anos 1950. É frequente você se deparar com teses e monografias horrivelmente escritas em lugares como a USP e a Unicamp. Um curso de redação criativa deveria ser obrigatório na universidade para qualquer disciplina. Recentemente, o Instituto Vera Cruz criou um pioneiro curso de pós-graduação para escritores, que ensina poesia, crônica, jornalismo literário (dei aula lá dois anos), romance etc. Já é um avanço.
Outro ponto interessante: os cursos livres de escrita criativa são isso mesmo, livres, portanto fogem tanto do engessamento acadêmico quanto dos padrões do mercado. E como são ministrados quase sempre por escritores, dão aos alunos um posto de observação interessante da literatura – equidistante da academia e do mercado e mais próximo do fazer puro, da ação direta.

4. O que um curso de escrita ensina para pessoas que não desejam fazer da literatura uma profissão? Criatividade, empatia, imaginação, capacidade de contar uma história, prazer pela leitura?

Acho que mais importante de tudo, o que venho observando recentemente, é a questão do Foco. Somos a Geração da Distração, vivemos a grande Era da Dispersão. Nunca houve uma oferta de informação tão grande quanto em nosso tempo; as livrarias nunca estiveram tão abarrotadas de livros. Mas o que ler? E como ler? Como segurar a atenção em uma coisa só quando temos gadgets nos dispersando o tempo todo?
Informação não é conhecimento. O conhecimento só é atingido de modo ativo, e não passivo. Assistir dezenas de horas de uma série, por mais genial que seja, não vai fazer com que você pense melhor. Acredito que os cursos de escrita criativa sejam, sem querer, responsáveis por trazer foco a muitas pessoas – e garantir algumas horas de foco estrito sobre uma história que você mesmo escreveu é algo muito desafiador.
Além, é claro, de tudo isso citado aí em cima.
Nos meus cursos, por exemplo, para forçar a empatia – a capacidade de se colocar nos sapatos de outrem – , eu dou exercícios em que o narrador é alguém de situação social diametralmente oposta à do aluno. Isso força não só a empatia como também a curiosidade por conhecer mundos alheios, e daí estimular a imaginação. Vivemos tão cercados de ficção alheia que vamos ficando embotados e perdemos a capacidade de nós mesmos criarmos a nossa ficção, em vez de simplesmente engolir o que nos empurram a mídia jornalística, as redes sociais, a TV, o cinema e até mesmo o mercado financeiro (não passa de uma ficção, para mim).
Os cursos de escrita criativa, penso, são capazes de fazer o aluno questionar o mundo e se voltar para seus próprios interesses, suas próprias pautas, ao mesmo tempo em que é estimulado a lidar com problemas alheios (como se colocar no corpo de outro e ver a realidade através de perspectivas surpreendentes). William S. Burroughs dizia: a linguagem é um vírus. Se o humano for inoculado com o vírus da linguagem criativa, e conseguir constituir um mundo à parte dos lugares comuns e dos clichês a que a sociedade o impele, poderá ter meios de se tornar uma pessoa mais independente. Escrever o mundo criativamente é saber moldá-lo – e, com isso, torná-lo seu.

Autor: rbressane

Writer, journalist, editor

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