Ficção/Prosa

Já vai, 2016?

despedida2

Um dia você vai ter saudade daquele ano horrível quando nosso choro nunca terminava

There is no way to say goodbye, cantava Leonard Cohen, outro que se despediu neste 2016 inacabável. Na virada a gente promete debandar de pessoas ou sentimentos ou hábitos ou lugares que mandaram mal. E vamos desbundar esperançosos pelo 2017 ou com nojo do 2016 pois acreditamos que dia 1 tudo será zerado (fora a ressaca, que vai durar dias). Pelo menos até que a Quarta-Feira de Cinzas embace essas despedidas na memória e eis-nos de novo nos metendo com as pessoas erradas e nos jogando em microsuicídios, trabalhando demais, bebendo demais, comendo demais, gastando demais, gostando demais, passando tempo demais nas redes e tempo de menos numa rede, com os amores e os amigos de verdade, com os livros e os discos ou com nada na cabeça.

Não existe uma fórmula infalível pra vazar – o que me lembra das formas contrastantes como meus avós se despediam. Depois de visitar minha avó materna, a viúva polonesa Amelia Wilczenski, cumpria-se um ritual. Após o longo tchau no portão de sua casinha em Santo Amaro, com muitos abraços e beijos, eu e meus irmãos entrávamos no carro, meu pai descia a rua, fazia um balãozinho e passava de novo em frente à casa da vó, que seguia no portão, magra e frágil mas acenando vigorosa enquanto seus olhos azuis dissolviam-se em lágrimas. Drama queen: minha mãe chorava, meu pai zoava, eles brigavam e todo mundo voltava pra casa quieto se sentindo culpado pela velhinha fofoleta largada no portão (continuou a se despedir chorando todo domingo até seus 95 anos).

Já meus avós paternos eram em tudo diferentes. Seca, a avó andaluza Francisca Garcia mostrava um riso reto; ao seu lado, meu avô Avellino Bresciani gargalhava em todos os 32 italianos dentes, esbanjando euforia ou cafeína (bebia uns três litros de café diários); viviam longe e eu raramente os via, porém, animados com a nova viagem, suas despedidas pareciam muito entusiasmadas, e, embora dos olhos também azuis do vô escorresse um draminha, era uma piada, outra ópera bufa canastrona.

Minha avó materna fugiu ao Brasil vinda da guerra Poloneso-Soviética, onde perdeu metade da família, depois viu marido, irmãos e filhos caírem ao longo da quase centenária existência – e ela lá, firme na choradeira. Já meus avós paternos chegaram como colonos enérgicos na terra nova onde prosperaram, mas na primeira grande derrota – a perda precoce do primogênito –, não seguraram a onda e deram o fora meses depois. Se chorassem mais teriam suportado a melancolia? No velório do meu pai, sério em seu paletó preto, meu avô rosnou, me segurando os braços com dedos de alicate: “Não chore. Você não tem o direito de chorar”.

Volta e meia penso no direito ao choro, que para a rígida moral lombarda era uma conquista e não direito de nascença. Ao contrário, todos temos o direito de lamentar no espelho negro das redes. A tecnologia, além de amplificar o coro dos cretinos, também multiplicou os sentidos do chororô. Daí meu niilista interior, o Emil, pedir, como pediria don Avellino: você não tem o direito de chorar por 2016. Você não viveu a Idade Média, não viveu 1945 (Auschwitz e a bomba H), não viveu o coturno dos anos 70, não viveu Aleppo, etc etc, o Emil fiscaliza. Não viveu também o grande Nada por vir. Um dia você vai ter saudade de 2016, adverte, rindo, o solerte Emil, ah, aquele ano horrível quando nosso choro nunca terminava, e como a gente chorava!, de soluçar tremendo ombros e queixo, tipo criança que embala no sono no meio do nhenhenhém – porque chorar é gostoso né.

Às vezes tenho de olhar de onde vim pra saber pra onde vou. Por isso a imagem dos velhos acenando longe, o drama da avó e o nonsense do avô, os olhos molhados de desespero ou esperança, sem saber se lamento ou deixo cair, sem saber se o pior está indo ou voltando; e tudo bem. Por isso minha dica de Ano Novo é a gente nunca se despedir de 2016: vamos levá-lo pra passear feito a rasgada camiseta preta dos sábados de antigamente, um pirulito sabor chorume, um monstrinho de pelúcia.

[Ilustra por Mari Casalecchi. Originalmente publicada no site de crônicas Vida Breve]

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