Ficção/Prosa

Síndrome do Comecinho

by Mari Casalecchi

by Mari Casalecchi

Sou só um absolute beginner, ele me dizia. Nova série de Doenças Crônicas na revista Pessoa

 

Marco: Você gosta de samba?

Gabriela: Sou da Camisa Verde e Branco. Topa ir lá comigo?

Marco: Supertopo. Você acredita em fantasmas?

Manu: Não. Qual seu superpoder preferido?

Marco: Ficar invisível. O que você escolhe, queimar a bandeira ou queimar livros?

Kátia: Queimar bandeiras. Você pratica algum esporte?

Marco: Strip poker. Você gosta de ver pornô online?

Fabíola: Eu já fui atriz pornô. Você dorme do lado esquerdo ou direito?

Marco: Durmo atravessado. Você é boa em perdoar?

Adriana: Não, eu sou rancorosa e ressentida. Você gosta de gatos ou cachorros?

Marco: Nenhum dos dois, não sou bom em cuidar de coisas. Você usa drogas?

Erica: Usava, agora só vendo. Você mais apanhou ou bateu?

Marco: Eu nunca apanhei. Você olha pro vaso antes de dar a descarga?

Letícia: Olho, fotografo e coloco no Instagram. Você prefere arte abstrata ou figurativa?

Marco: Eu quero matar o Romero Britto. Você já pensou em matar alguém?

Patrícia: Eu já matei alguém. Você gosta de armas?

Marco: Eu sou uma arma.

 

“Meus comecinhos são lindos”, me dizia Marco, em um café hipster de Santa Cecília. “Tem aquela expectativa toda. Começo no Tinder, no Happn ou no Okcupid, daí vou pro Facebook, depois caímos no Whatsapp… e dentro do Whatsapp, do texto pra mensagem, pro áudio, e daí pra uma foto… e de uma foto pra um nude. E quem sabe um telefonema. Quando finalmente eu encontro as mulheres ao vivo, nosso date quase não tem mais uma ameaça ou uma expectativa: já é como se fosse uma lembrança”, dizia, enquanto contabilizava o número de garotas com quem tinha saído nos últimos seis meses.

“Se eu viro uma média de duas por semana, deve dar umas 50. Mas já teve semanas com quatro, teve três encontros no mesmo dia, e teve um mês no zero a zero”, sorriu. “Já pensei até em criar um aplicativo pra isso, assim não corro o risco de confundir nomes, datas, lugares e conversas.” Boa ideia, elogiei; você devia fazer isso antes que alguém pense nisso antes. “Na real, já estou desenvolvendo. O nome vai ser Sexcel. A planilha do amor”, riu Marco, um amigo de quase 40 anos que já foi artista plástico, virou designer e agora se vira criando sites e apps.

Ao pedir outro café, Marco me disse que tinha começado essa rotina no ICQ, depois foi pro Orkut, daí migrou o procedimento para o MSN… A tela então é seu escudo, eu provocava. Ou a tela é sua rede de pescar? “Tem mesmo a ver com rede”, concordou, olhando distraidamente o celular, “porque praticamente tudo já está armado para a gente transar depois do date”. Não perde a graça você já sair de casa sabendo que vai rolar? “Nem sempre rola. Às vezes a menina não gosta de mim ou então tem algum tipo de trava ao vivo. Tem umas que saem comigo só pela curiosidade. Tem também uns desastres…”, riu.

“Teve uma que surtou quando viu que o meu apartamento era o mesmo de um cara com quem ela tinha ficado um tempo antes. Teve outra que só me revelou na hora que o filho estava dormindo no quarto do lado, e eu broxei epicamente. Teve outra que viu um alface no meu dente, tirou e comeu – perdi total o tesão. Teve outra vez que jantei com a moça num japonês esquisito e passamos a noite vomitando”, sorriu, tapando o rosto envergonhado. Mais encenação que embaraço real: meu amigo dá a impressão de já ter visto de tudo.

Essa sua história me parece um filme dos anos 70, comentei; só que a serial dater era uma mulher. Um filme chamado À Procura de Mister Goodbar. “Conheço o filme. Uma dessas amigas me falou dele. Mas não tem nada a ver comigo. Aquele filme é moralista… o final é horrível. Machista até. Se você quer saber, a maioria das mulheres com que eu saio pensa como eu. Nenhuma a fim de achar um príncipe encantado, como o Mister Goodbar. Elas já saem de casa procurando uma one night stand. A gente só quer ficar no comecinho mesmo. Ficar no comecinho pra sempre”, confessa, me sorrindo de um jeito sedutor e ao mesmo tempo cândido. Então vocês estão presos no começo de um romance. Como no romance Se Um Viajante em Uma Noite de Inverno, do Italo Calvino: cada capítulo começa um livro diferente. Um livro dentro do livro? “Mais ou menos”, Marco me disse, espiando lá fora do café uma garota que prendia sua bicicleta no paraciclo em frente ao café. “Porque as histórias não se encadeiam. É mais como aquela música do Bowie, ‘Absolute beginners’… “Nothing much could happen/ Nothing we can’t shake/ Oh we’re absolute beginners/ With nothing much at stake/ As long as you’re still smiling/ There’s nothing more I need’… Saca? Oi!”, Marco cumprimenta a garota.

“Você é o Marco?”, ela pergunta, meio sem graça. Ele me apresenta a morena alta de cabelo curtinho e tatuagens de pin-ups no ombro, e entendo que é minha hora de ir. Pode sentar, digo, eu já estava saindo mesmo. Me despeço dos dois que pedem seus expressos – e iniciam seus amores expressos – e vou pagar minha parte no caixa. Enquanto fumo um cigarro do lado de fora do café, fico mirando o casal com certa inveja: como nunca começa, a síndrome do comecinho é uma história de final aberto. Ou já é o próprio final feliz em si… em looping.

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Originalmente publicada na revista literária Pessoa, na seção Doenças Crônicas. Assine.

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