Ensaio

Amor-aroma

img Guilherme de Freitas

img Guilherme de Freitas

Há mais mistérios entre os genitais e as narinas do que sonha a vã filologia

1. O nariz nos aproxima dos elefantes. Está tudo escondido bem na nossa fuça: amores e temores mais subterrâneos, de que não nos esquecemos jamais. Perdemos um tanto do olfato quando nos civilizamos — ao virarmos bípedes, escapamos de farejar as pegadas alheias no solo. Se a linguagem nos distanciou de nossa natureza animal, o nariz nos devolve ao que de fato somos e nunca deixamos de ser: bichos em pânico, famintos, ansiosos, perdidos, violentos, à caça de um território para nomear, de um buraco para se esconder, de um bálsamo por descobrir. De todos, um único cheiro simultaneamente nos atiça e nos acalma o sangue. O cheiro de sexo.

2. É possível sintetizar o cheiro do amor? Em Animal Tropical, Pedro Juan Gutiérrez se reparte entre duas mulheres: a jinetera cubana Gloria e a jornalista sueca Agneta. A primeira, uma mulata ninfomaníaca, costuma dar perdidos para se prostituir. “Às vezes tem cheiro de peixe. Agora estava com gosto bom: tinha cheiro de queijo.” A segunda, morena carinhosa e tímida, trabalha o dia todo para à noite ser transtornada pelos acessos de luxúria de Pedro Juan — mas tem nojo do oral e do anal. O escritor acaba voltando para Gloria; antes, cai em um banquete afrodisíaco — resumo do fartum de nheco-nheco. “O jantar consistiu de mariscos fervidos com ervas finas. Molhos picantes e vinhos em abundância. Na sobremesa, torta de mandrágora e ginseng, queijo mexicano recheado de chiles e peiote, e uma maconha holandesa curtida em conhaque e cerejas. Tive de me esforçar para não fazer um strip-tease.” A Suécia era inodora demais para o rei de Havana.

Como o esperma é básico (alto pH) e as secreções femininas são ácidas (pH entre 3.8 e 4.5, por conta do ácido láctico, barreira natural para infecções), sua reação cria um blend de propriedades imprevisíveis. A tal química a dois é questão de pHs — algo mais importante que credos políticos e clubísticos ou gostos pesoais na sessão de Netflix. E claro, tudo o que o casal comer antes de se comer muda olfato e paladar. Laranja, tomate, vinagre e açúcar refinam fragrâncias e sabores, tanto do esperma quanto das secreções. Banhos prolongados, produtos de beleza, sabonetes, espermicidas, lubrificantes, preservativos e brinquedinhos lúbricos nem sempre melhoram. Já fumo, stress, remédios, papel higiênico, absorventes, lenços umedecidos, roupas apertadas, bebidas e drogas detonam tudo. Alimentos recomendados à superodorificação a dois: alho, banana (melhoram a circulação); chocolate, frutos do mar (sensação de bem-estar); e frutas secas (aumentam a libido).

3. Misteriosos componentes do cheiro do amor são os feromônios, substâncias excretadas por glândulas de insetos a mamíferos, tanto por saliva ou lágrima quanto pelas áreas genitais, sendo capturados na enigmática estrutura vomeronasal. Ainda não decodificados pela ciência, os feromônios são muito explorados pela indústria, conforme se nota em visita a qualquer sex shop. Prometem mundos e fundilhos — a verdade é que nenhum estudo sério comprovou sua eficácia na sedução do outro, mulheres ou homens. O efeito placebo ainda é complicador nessas pesquisas (há quem se sinta mais confiante na sedução por usar tais produtos).

Sem falar na complexidade da cultura humana, a afastar um parceiro só por conta de religião, voz estridente, CEP distante, falha na dentadura ou uso de pochetes e crocs. Embora seja inquestionável que cada indivíduo tenha sua assinatura olfaltiva, nenhum estudo concluiu como funciona a estrutura vomeronasal em humanos e se feromônios são determinantes durante a corte sexual.
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Enquanto isso, nos EUA e na Europa proliferam as Festas do Feromônio. Funciona assim: você usa a mesma camiseta por três dias. Leva a camiseta à festa, numa sacola fechada. No começo da festa as sacolas são numeradas e os participantes se ocupam em aspirar o máximo de camisetas possíveis. Se ocorrer um match olfativo, o participante se fotografa ao lado da sacola e a imagem é projetada numa tela. Caso role também um match visual, é só correr para o abraço. Há relatos de casamentos nascidos de tais baladas, mas não se sabe se até o altar os participantes trocaram de camiseta.

4. Os cheiros determinam algumas parafilias — perversõezinhas que não machucam ninguém. Osmolognia é a capacidade de se excitar com essências, não necessariamente esquisitas — há quem tese em cheiro de gasolina, de café, de madeira, de maresia. Contudo, para alguns osmolognistas, o que outros percebem como nojento é superexcitante: sovacos suados, cabelos ensebados ou pés catingosos (para louvá-los, o poeta pedólatra Glauco Mattoso elaborou centenas de sonetos).

Já a nasofilia é o fetiche com nariz — gostar de pessoas com narizes grandes, por exemplo (na Antiguidade se afirmava que quanto maior o nariz, maior o pênis ou o clitóris; há quem ainda creia nisso, e se decepcione). Nasófilo é também quem usa o nariz como principal objeto de desejo e excitação, o que inclui vê-lo, tocá-lo, lambê-lo ou chupá-lo, fora e dentro, ou utilizá-lo para penetração — conforme ensinou gostosamente Alisson Williams em um controverso episódio da série Girls, em que a beldade é narigada por trás.

5. É possível sintetizar um aroma humano? No clássico moderno O Perfume, Patrick Süskind conta a história de Grenouille, um homem que, apesar de nascer sem cheiro, tem o olfato absoluto. Certa tarde, entrevê uma adolescente em uma floresta. “O suor dela odorava tão fresco quanto a brisa do mar, o sebo dos seus cabelos tão doce quanto o óleo das amêndoas, o seu sexo como um buquê de lírios-d’água, a pele como flores do pessegueiro… e a conjunção de todos componentes resultava num perfume rico, equilibrado e fascinante (…) Centenas de milhares de odores não tinham mais nenhum valor diante desse único aroma. Era a pura beleza.”

Enlouquecido em busca de seu ideal olfativo, Grenouille clona a essência humana para se misturar ao povo sem ser percebido. Usa cocô de gato, notas de vinagre, sal moído, queijo velho, ranço de sardinha, ovo podre, castóreo, amoníaco, noz-moscada, raspa de chifre, toucinho chamuscado, uma alta quantidade de almíscar. “Misturou esses horríveis ingredientes com álcool, deixou dissolver e filtrou. O caldo tinha um cheiro devastador. Por cima dessa horrenda base, Grenouille acrescentou uma camada de aromas oleosos frescos: menta, lavanda, terebintina, limão, eucalipto, controlados e mascarados por um buquê de finos óleos de flores como gerânio, rosa, laranjeira e jasmim. (…) Parecia emanar do perfume um odor etéreo de vida.” Usando este cheiro, Grenouille consegue se camuflar e assassinar 25 virgens: usará o cheiro delas para criar o perfume supremo.

6. Capítulo curioso na conexão nariz-sexo: na época em que entupia as narinas de cocaína, enquanto formulava a psicanálise, Sigmund Freud requisitou os serviços do otorrinolaringologista Wilhelm Fliess. Acabaram amigos, e Freud indicou Fliess a seus pacientes. Embora respeitado, Fliess era imaginativo demais: propunha que distúrbios do comportamento sexual — em especial o feminino — fossem justificados por problemas olfativos, e criou o bizarro termo “neurose do reflexo nasal”, em que uma simples crise de espirros explicaria tendências ninfomaníacas. Anna Eckstein, que tratava com o psicanalista sua compulsão maníaca por masturbação, após algumas sessões perdeu a sensibilidade em metade do rosto — Fliess chegava a retirar os folículos nasais dos pobres pacientes. Megalomaníaco, Fliess acusou Freud de roubar suas ideias; o psicanalista rompeu com o bizarro otorrino, cuja fedentina nunca mais foi sentida nas páginas da medicina.

7. Mais negligenciado dos sentidos, o olfato não guarda muitos primos na linguagem verbal — está aquém do paladar neste quesito. Tal problema é percebido na lírica amorosa: as metáforas sobre o objeto de devoção são florais… ou marinhas. Ao comprar um bacalhau, Reinaldo Moraes teve uma epifania: “Cheirei, senti, pirei. Aquele cheiro me falava direto à libido, pá. Nada mais nada menos que o cheirinho do amor”, escreveu em uma crônica.

“Vadio/ eu procurava, no frio/ de tuas calças/ e te adorava; sentia/ teu cheiro a peixe, bebia/ teu bafo de sal”, cantou Vinícius de Moraes em “Marina”. “Debruça-se sobre seu aroma/ faz abrir mais ainda/ as pétalas, de onde ele assoma/ e enquanto mais fundo se adentra/ (vermelho-puro caindo ao último grau de escuro — magenta do pistilo)/ vê-lo,/ ei-lo que se deslinda/ — impaciente centelha”, descreve, sinestésica, Claudia Roquette-Pinto. “A brisa/ a luz/ o calor/ tateiam/ bolinam a flor/ quase vexada/ e ela, voláteis,/ perfumadas de cor-de-rosa/ aos poucos/ vai abrindo as pérnalas em vãos/ num copo à janela”, desenhou concreto Décio Pignatari.

Todos beberam na fonte do rei Salomão, que nos Cantares, mais belo livro da Bíblia, louvou os odores de Sulamita: “O aroma dos teus bálsamos são melhores que de todas as especiarias! Mel e leite estão debaixo de tua língua, e o cheiro dos teus vestidos é como o cheiro do Líbano. Teus renovos são um pomar de romãs, com frutos excelentes: o cipreste, o nardo, o açafrão, o cálamo e a canela, toda a sorte de árvores de incenso, a mirra e os aloés. Poço das águas vivas que correm do Líbano, assopra no meu jardim para que se derramem teus aromas!” Sorry, Reinaldão, mas o rei Salomão tinha olfato mais apurado.

8. É possível fazer sexo sem cheiro? Aromas são evanescentes; o de sexo, surgido do encontro entre dois corpos (pelo menos), dissolver-se no ar instantes após o ápice (caso os praticantes tenham sorte, dura horas). “Sexo só é sujo se for feito direito”, dizia Woody Allen. Um amigo disse ter topado com um par de damas que não cheiravam nem fediam. Tampouco nos cabelos, pés, nuca, atrás das orelhas, axilas — essas alegóricas vaginas que toda mulher esperta usa como arma de abdução. Resultado: ele mal se lembra delas. Culpa do festival de photoshopismo que nos assola; se misses e modelos parecem cada vez mais a mesma mulher, suas pudendas também acabam por trescalar no padrão globalizante. O ideal da propaganda é simples — a perfeição. E a perfeição, sabemos, não cheira.

Aroma de sexo, melado e atritado e esfolado em alta temperatura, por pessoas em pleno gozo das faculdades gozosas, contém porções generosas de suor, saliva, sêmen, sangue, sarro, sebo de cabelo, cera de ouvido, mucos diversos, lágrima, chulé, urina, gases, fezes — e aquela seiva feminina tão maravilhosa de que jamais se soube o preciso nome. Insistida pelos inodoros alfarrábios, a palavra secreção provém do latim secretum, de que também deriva a palavra segregar, no conceito de separar, afastar: secreção é o líquido saído da glândula.

Daí talvez a cultura ver a secreção como tabu, algo a permanecer oculto. Discordo: nos jogos do bem-bom, é de bom tom que os amantes criem nomes próprios às coisas alheias. Particularmente aprecio um termo cunhado pelo trovador galego Bernardo Bonaval, neologismo que junta flâmula, flama e minha: flamínia.

9. Infelizmente, tanto quanto formatar a pentelheira ao design da moda, editar o odor é tendência entre damas. Tem a ver com o faxinamento machista que prende as mulheres ao binômio água-sabão: uma tia uma vez confessou um pesadelo: “morrer na rua, sem ter tido tempo de trocar a calcinha”. Uma amiga dermatologista afirmou ser frequente mulheres a procurarem para aplicar Botox nas glândulas sudoríparas – “assim nunca suam”. Soubessem o poder de um bom cecê sobre os instintos… Sujeira, para muitos dessas criaturas que expelem gelatinosos fluxos de sangue, é pecado. “Em estudos sobre compulsão por higiene, psicólogos descobriram que mulheres relatam mais obsessões de contaminação que homens. Certa autorrelação corporal neurótica segue como herança feminina”, critica Laura Kipnis no elucidador Coisa de Mulher. Se, por um lado, não há necessidade de espalhar o cheiro íntimo atrás das orelhas como arma de sedução, como no engraçadíssimo romance Zonas Úmidas, de Charlotte Roche, também não é preciso confundir higiene com neurose.

10. Caso a leitora e o leitor ainda duvidem da necessidade dos cheiros para nos metamorfosear em seres majestosos como elefantes, apelo a Caio Fernando Abreu.

“Cheiros íntimos, secretos. Ninguém saberia deles se não enfiasse o nariz e a língua lá dentro, no fundo das carnes, no meio dos cheiros. E se tudo isso que você acha nojento for o que chamam de amor? Quando você chega no mais íntimo que de repente a palavra nojo não tem mais sentido. Você também tem cheiros. Os animais cheiram uns aos outros. O que você queria? Rendas brancas imaculadas? Amor não começa quando nojo, higiene ou qualquer outra dessas palavrinhas burguesas e cristãs não tiver mais sentido? Amor no sentido de intimidade, de conhecimento fundo. Da pobreza e também da nobreza do corpo do outro. Do teu próprio corpo que é igual, tragicamente igual. O amor só acontece quando uma pessoa aceita que também é bicho. Se amor for a coragem de ser bicho.”

Certo é que mulher alguma enlouquece por um sujeito regado a Old Spicy nem homem nenhum se lembra da amada pelo Chanel nº 5. Chega de frescura, caros aprendizes de elefantes. Conforme dita a Bíblia, relaxai e exalai!

[pensata-playground para a revista The President # 26]

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