Eu, eu mesmo e eu também

LOURENÇO MUTARELLI EXPOSIÇÃO
auto-retrato de Mutarelli em sua expo Meu Nome Era Lourenço

Por que a autoficção se tornou um dos subgêneros mais cultivados na literatura contemporânea?

          Lourenço Mutarelli é Lourenço Mutarelli, Mauro Tule Cornelli, Oliver Mulato e Raimundo Maria Silva — todos protagonistas de O Grifo de Abdera, seu romance recém-lançado pela Companhia das Letras, sobre os conflitos entre um sujeito que ao mesmo tempo é vários: roteirista, desenhista, escritor (e, hum, professor de educação física). Paulo Scott, em O Ano em Que Vivi de Literatura (Foz), conta, na primeira pessoa, a história de um escritor gaúcho que vive no Rio de Janeiro (como Scott) uma sucessão de casos amorosos trepidantes, e através deles e do seu confronto com a escrita expõe às vísceras os mecanismos mais escrachados e escrotos do mundo literário brasileiro. O mesmo mundo é retratado com fúria e desencanto por Reginaldo Pujol Filho em Só Faltou o Título (Record). João Paulo Cuenca investiga um obscuro episódio de sua vida — um homônimo achado morto — para dirigir o longa A Morte de J. P. Cuenca (baseado no mesmo caso, a Caminho acaba de publicar em Portugal o romance Descobri Que Estava Morto). No recente História da Chuva (Record), Carlos Henrique Schroeder, o autor, conta a história de Schroeder, o editor, e suas desventuras com o casamento, o teatro de bonecos e as enchentes em Santa Catarina. Ricardo Lísias, na novela Delegado Tobias (E-galáxia), criou uma investigação criminal usando o próprio nome e chamou a atenção de um delegado que resolveu passar a limpo a história; triste a época em que a polícia federal substitui a crítica literária — a novela, ignorada pelos suplementos culturais, só virou notícia por conta do inquérito do delegado trapalhão.

Em quase todos esses lançamentos, os protagonistas têm os nomes dos autores — e às vezes são eles mesmos (no de Scott, o narrador é Graciliano, não por acaso o nome de seu autor predileto). Mas, como veremos a seguir, nem sempre a confusão entre autor, narrador e protagonista redunda em autoficção — e nem sempre resulta em ficção que preste. O que se sabe é que a autoficção virou um subgênero literário — no qual a saga Minha Luta, escrita pelo norueguês Karl Ove Knåusgard, desponta como exemplo supremo da arte de extrair beleza, reflexão e epifania da “vida real” do escritor (aí incluídas páginas e mais páginas descrevendo os intrincados processos de lavar louça e trocar fraldas). O escritor francês Serge Doubrovsky vangloria-se de ter criado esse termo e um novo gênero literário nos anos 70, sob a lei: “Para que haja autoficção, o nome do autor, o do narrador e o do protagonista precisam ser o mesmo”. Embaralhar as categorias de autobiografia e de ficção não chega a ser uma novidade pós-moderna. Mas talvez o problema com as obras autoficcionais contemporâneas seja a quantidade.

De fato, é uma onda que vem tumultuando as livrarias há tempos. De Proust, que iniciou a moda com sua série Em Busca do Tempo Perdido, até Knåusgard, a maior estrela do subgênero hoje, a autoficção reinou na prosa de autores tão variados quanto Philip Roth, Michel Houellebecq, Will Self, Gertrude Stein, Alberto Manguel, Vladimir Nabokov, Marguerite Duras, Enrique Vila-Matas, Paul Auster. No Brasil, flertaram com o subgênero o Lima Barreto de O Cemitério dos Vivos e o Cristóvão Tezza de O Filho Eterno, passando pelo Rodrigo de Souza Leão de O Esquizoide, o Silviano Santiago de O Falso Mentiroso e a Maura Lopes Cançado de Hospício é Deus. Para entender os mecanismos do subgênero e o motivo pelo qual invadiu as livrarias, a Revista da Cultura conversou com escritores — que parecem tão curiosos com o fenômeno quanto os próprios leitores.

 

Mentiras ou marketing?

“Escrevi autoficção, mas uso o ‘eu’ para falar dos outros: meus livros são meio a meio, pois a autoficção vem disfarçada”, assume Sérgio Sant’Anna, recorrendo a Fernando Pessoa: “Um dos baratos da ficção é você poder inventar e até mentir. Aquele negócio do ‘poeta é um fingidor’…”, cita o autor de O Livro de Praga, sobre um autor que viaja a Praga em busca de um romance. Ou seja, o autor está sempre fingindo, mesmo quando pretende contar a verdade. “Já usei a autobiografia, gosto de usar a técnica da primeira pessoa, mas é fácil para um escritor brincar com isso, dando pistas falsas e chamando atenção para detalhes irrelevantes, deixando o que é verdadeiramente autobiográfico (e constrangedor para o autor) passar batido”, cutuca Michel Laub, autor de Diário da Queda, em que usa elementos biográficos — como o judaísmo e o bullying. “Mas os efeitos da autoficção têm mais a ver com o modo como as pessoas leem, sobre os quais não tenho nenhum controle: se acham que sou alcoólatra e bato em mulher, como o protagonista do Diário da Queda, o que se vai fazer?”, brinca.

“Trazer à tona a primeira pessoa é um recurso bastante usado pelos escritores contemporâneos”, afirma Juliana Frank. “Mas até os soldados faziam diários para recordar quem eram antes das catástrofes: é uma técnica bastante antiga e boa. O diário de si mesmo nunca alcança a verdade: é preciso tentar, como Proust, mas somos muito obscuros para acreditar em nós mesmos ou no nosso relato”, comenta a autora Meu Coração de Pedra-Pomes e de A Calcinha Suja de Um Amor Qualquer, diário em que ficcionaliza — no Facebook! — suas experiências em Buenos Aires. “Muito do que está em História da Chuva é real: enchentes, meus fracassos no teatro, dias terríveis de chuvas, e os grupos de teatro citados existiram”, conta Carlos Henrique Schroeder. “Mas há também a infecção, o delírio, a contaminação: no meu livro mesclo minha vida à narrativa para embaralhar as histórias que criei. O César Aira tem uma linda frase: ‘A literatura é uma forma de não se decidir entre o real e a ficção'”, lembra.

Já Paulo Scott não acredita em autoficção — mero “truque de marketing”, diz. “Mas creio no escritor que diz que a narrativa de sua autoria se baseia em fatos e pessoas da sua vida, em situações pelas quais passou ou experimentou”, afirma. Scott alerta para os perigos da autoficção: “Imagino que alguém que eventualmente tenha se acomodado nesta justificativa (para se promover, abusando da dúvida que, porventura, seja desencadeada na cabeça de seus leitores) sinta dificuldade em abandonar a posição do ‘vendo minha intimidade’ — e, por consequência, a intimidade de outros que o circundem”, avalia. Outro ponto atacado é o demasiado apego ao narcisismo, conforme dedura Nelson de Oliveira — que costuma cindir seu eu literário sob os pseudônimos Luiz Bras, Valério Oliveira e Teo Adorno. “A autoficção é um sintoma da vulgarização da figura do escritor: para não morrer de fome, o escritor precisa falar de si o tempo todo, nas redes sociais, em feiras e bienais etc. Exercitar a autoficção é o pretexto que muitos romancistas encontraram para tentar falar da obra, falando de si mesmos”, desdenha. Frequentadora assídua das redes, Juliana Frank vê a autoficção como sintoma do zeitgeist que tornou possível a milhões divulgarem suas experiências na internet tal como clicam-se obsessivamente em selfies. “Fico magoada quando leio a pouco interessante vida das pessoas, suas misérias sem atrativos narrativos, seus discursos pessoais, suas terapias de mentira: incrível notar como um psicologismo dos mais baratos domina o pensamento de uma geração”, reflete.

Verdade, autenticidade, sinceridade e realidade

Existe uma demanda do público pela “verdade”, uma obsessão pela ficção “baseada em fatos reais” pelo público de hoje — basta ver a quantidade de reality shows na TV ou no crescimento do gênero biografia. Mas até que ponto esses conceitos podem ser validados pela autoficção como uma resposta a esta demanda? “Tem uma questão louca que é esse desejo de real, essa hiper-realidade”, rebate Reginaldo Pujol Filho. “Há um valor para esse atestado de “realidade”, um desespero pela autenticação. Mas leríamos esses livros, veríamos esses filmes da mesma forma, sem o tal selo de realidade? A história é boa, interessante, intrigante ou não é? A construção, a forma, a estética tem interesse ou não? E a outra pergunta: não percebemos o que há de fabricação no reality show? Não lemos mais sobre as coisas, não imaginamos (no sentido de formar imagens na cabeça), e sim consumimos provas de realidade o tempo inteiro (ao ponto de nem questionar muitas vezes). É o consumo do fato e não da narrativa”, analisa o autor, que se autoficcionou ainda no romance Quero Ser Reginaldo Pujol Filho.

“A melhor ficção é aquela que suspende esses conceitos. Hoje proliferam produções midiáticas que alardeiam sua fidelidade ao ‘fato real’, como se ele também não fosse, em grande parte, construído pela nossa percepção, pela nossa cognição”, analisa Carlos de Brito e Mello, autor do imaginativo romance A Passagem Tensa dos Corpos. “Prefiro apostar na capacidade da obra literária fundar o próprio espaço, usando referências autobiográficas ou não. Curioso que, para cada dado de realidade presente nos reality shows, há mais espetáculo — e a própria realidade tem uma dimensão imaginária. No Brasil vemos que a defesa da Verdade tem sido conveniente, assim como a Justiça ou a Honestidade. O pensamento circulante é: ‘Defendo a Verdade, a Justiça e a Honestidade desde que elas possam ser cobradas dos outros, e não de mim, já que para promover essa defesa eu me tornei Inverírico, Injusto e Desonesto”, diverte-se o autor mineiro.

A contista e crítica Vilma Arêas vai além ao satirizar a obsessão atual com a Verdade. “Será que está tudo tão evaporável (basta ler qualquer  jornal) que as pessoas querem a ver-ver-da-da-de-de? Logo na ficção? Verdade com rima ou sem rima? A verdade como coerência? Como consenso? Como o sapatinho de Cinderela, que provou que o pezinho existe? Verdade como realidade? Como fé? Meu Deus, lá vem de novo a Inquisição! A verdade sincera? O contrário de falso? Quem disse que não há verdade primeira, só há erros primeiros? Acho que foi Bachelard…”, brinca a autora de Vento Sul.

“A autoficcção antecede essa era do espetáculo, mas o marketing hoje está enraizado no mundo editorial e se aproveita das facetas mais frágeis”, concede Carlos Henrique Schroeder. “A demanda se deve ao modo expositivo como tudo é tratado hoje, em todas as esferas, e não seria diferente na cultura. Isso é um problema, os piores aspectos do marketing se infiltrando na arte. O problema não é a autoficção, mas o que o marketing está fazendo dela: autores não deveriam aparecer mais que suas obras”, critica.

“O que menos gosto nessa discussão são autores e leitores que acreditam demais nas palavras de um livro, mais de um século depois do Modernismo”, azeda Michel Laub. “É dar à literatura uma importância que, para o bem e para o mal, com raríssimas exceções, não tem mais. Achar que essas confusões entre vida e obra têm algum significado mais nobre que o de uma fofoca ou um golpe de marketing é egocentrismo ou ingenuidade. Isso não impede de o livro ser uma obra-prima, se for o caso, mas, se isso ocorrer, não vai ser por causa do truque, e sim apesar dele. Não há literatura sem fantasia. E não há existência sem fantasia”, alfineta Laub. Por fim, Nelson de Oliveira lembra que a realidade… não existe. “A mentira da ficção é mais verdadeira que a verdade do jornalismo e da historiografia porque a realidade não é ‘real’, é uma convenção social cuidadosamente ajustada. Os textos mais verdadeiros são os que denunciam o autoengano social dessa irrealidade cotidiana. O ficcionista que pouco se afasta do núcleo da ‘veracidade objetiva’, de natureza jornalística ou historiográfica, tende a produzir falsificações da realidade. Se quiser ser verdadeiro, fantasie”, sugere Nelson.

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*Originalmente publicado na Revista da Cultura de novembro de 2015

Autor: rbressane

Writer, journalist, editor

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