Zed, o antropófago

Zed Nesti em seu ateliê na Santa Cecília
Zed Nesti em seu ateliê na Santa Cecília

Zed Nesti, pós-realista? “Arte não é coisa que se pendure na sala de jantar.” Desde sempre essa é a minha definição de arte — ao ver uma obra em que sinta alta densidade de caô, de begismo ou de fru-fru, surge certeira a dúvida: “Colocaria esta obra na minha sala de jantar?”. À resposta positiva, já saberia: não, não é arte — é bonito, é bacana, mas não é arte.

(Fru-fru eu definiria como excesso de decorativismo; begismo é o movimento cultural parido pela cor bege, fornecendo produtos artísticos assemelhados às roupas íntimas das nossas avós e tias; e caô é tudo aquilo que tem cheiro de arte, parece arte, fala como arte… mas não é arte — caô é como carisma: você não sabe definir o que é, mas sabe o que é quando vê.)

Ok, sei que minha concepção de arte é bastante simplista — afinal, despida de todos aqueles torneios sintáticos e ornamentos teóricos que lemos nas resenhas das obras dos principais artistas do jet-set. “Meu amor me ensinou a ser simples. Como um largo de igreja. Onde não há nem um sino. Nem um lápis. Nem uma sensualidade”, diria Oswald de Andrade. Olhar direto as coisas, que nos parecem bastante complicadas só de ver, parece ser uma das lições trazidas pela arte de Zed Nesti. Que, vejam só, quando perguntado por mim qual seria sua concepção de arte, me disse, na lata: “Arte não é coisa que se pendure na sala de jantar”. Já tinha gostado da sua arte; ao escutar isso, passei a respeitar o artista (que, além de pintor, ilustra para revistas e jornais e, fora embalar o jovem Joaquim, ainda arranja tempo para tocar guitarra e praticar esgrima).

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Talvez porque à grande arte não se permita a digestão fácil. Não se almoça enquanto se observa um massacre, não se janta enquanto se presencia um redenção, não se mergulha um croissant no café enquanto se apaixona. A grande arte prende o estômago, prende a respiração, prende o olhar. A grande arte de Zed Nesti prende os sonhos. Os seus sonhos, os sonhos da sociedade consumista, os nossos sonhos consumidos. As obras desta exposição, Pinturas 2011—2013, foram concebidas e concluídas em um período difícil para Zed. Tempo de perdas pessoais, de mortes, mas também de nascimentos: despediram-se seus pais, lhe deu as boas-vindas seu filho Joaquim. Um período em que a realidade bambeou sob os pés do artista (como em Homem Levitando I e II e Mulher Levitando com Mesa). “Realidade”, disse Philip K. Dick, “é aquilo que sobra quando você para de acreditar nela”. Entre 2011 e 2013 Zed foi assombrado pela natureza por vezes incrível e inversossímil da realidade. O artista respondeu à perturbação trazida pela realidade apropriando-se dela, e lhe devolvendo em forma dos quadros desta exposição.

Apropriação é um conceito cental em sua obra. Obcecado pelos painéis publicitários que ainda havia espalhados por São Paulo antes da Lei Cidade Limpa (que varreu a publicidade do mapa paulistano expondo sua feiúra), Zed apropriou-se de imagens das propagandas da Calvin Klein para transpô-las em grandes quadros a óleo, concebendo a obra CK (2005-2007) — uma das peças chegou a levar um ano e meio para ser pintada. Em Celebs, exposição que levou sua arte ao Japão em 2009, Zed apropriou-se de imagens conhecidas de artistas famosos (feitas por grandes fotógrafos) como Heath Ledger, Angelina Jolie, Iggy Pop, Scarlet Johanson, em uma série de quadros a óleo de 22,8 por 30,5 cm. Em The Book of Faces of Facebook, Zed apropriou-se de dezenas de rostos do catálogo de amigos de seu perfil no Facebook e os desenhou a carvão em cadernos de papel reciclado no tamanho 14 x 22 cm.

Embora seja direto seu olhar para a realidade — da publicidade, da fotografia ou da rede social — , a arte de Zed não faz uma cópia direta da realidade. Ao buscar uma transposição exata das cores dos originais para a cópia em óleo sobre tela ou carvão sobre papel, o artista impõe-se um procedimento irônico, crítico, e ao mesmo tempo com a ambição de verossimilhança — talvez, uma certa nostalgia — na observação da realidade. Afinal, sua técnica consiste basicamente roubar uma imagem, trabalhá-la através do Photoshop, e em seguida projetar a imagem roubada sobre uma superfície lisa, para daí mapear-lhe as cores, dividindo-a em centenas de pequenos quadrados, até encontrar o tom certo de tinta para cada um deles. Usar uma técnica tão antiga quanto a pintura a óleo para reproduzir com exatidão uma imagem feita para vender jeans, e nisso demorar-se anos, como na série CK, é uma tremenda ironia em relação ao capitalismo e à sociedade de consumo: aquilo que poderia ser objeto de consumo rápido passa a ser objeto de longa maturação.

O mesmo procedimento irônico se dá em relação aos retratos. Síntese de identidade, sequestro da alma, o retrato do rosto resume a personalidade. Em um primeiro estágio, o rosto de cada celebridade é fotografado com excelência. Em um segundo estágio, é multiplicado milhões de vezes em todos os meios possíveis, impressos ou eletrônicos. E, então, através da curiosa operação de deslocamento de valores estéticos administrada por Zed em suas pinturas e desenhos, o retrato, ao passar da imagem multiplicada bilhões de vezes para uma solitária peça de arte, volta a ter um valor único. Tanto em Celebs quanto em Facebook, temos ainda um terceiro elemento, vital para o funcionamento da sociedade pós-capitalista: a acumulação. O desfilar inumerável de celebridades e rostos comuns brinca tanto com nosso desejo (em relação a essas imagens) quanto com o desejo delas em relação a nós (das celebridades e dos amigos do Facebook; do mercado da cultura e do mercado da amizade).

Keith, roubado de Annie Leibovitz, roubado de Rembrandt, roubado de Caravaggio
Keith, roubado de Annie Leibovitz, roubado de Rembrandt, roubado de Caravaggio

Para dar o exemplo de como funciona o processo de apropriação através de uma das peças de sua nova mostra, tome-se Keith Richards. O quadro baseia-se numa propaganda da Louis Vuitton cuja fotografia do lendário guitarrista é assinada por Annie Leibovitz. A união Keith+Vuitton+Leibovitz por si só é uma joint venture de ícones da cultura, da arte, do pop, da moda — e do capitalismo. Rolling Stones é a banda de rock que mais faturou na história; Louis Vuitton é a marca de acessórios de viagem mais cara e desejada; Annie Leibovitz, a principal fotógrafa das capas das revistas Rolling Stone e Vanity Fair. Leibovitz usou o chiaroscuro de Caravaggio para que Keith vendesse malas. Caravaggio usava assassinos para retratar santos. Zed, que tem Rembrandt (seguidor de Caravaggio) como uma das maiores inspirações, usou a imagem de Leibovitz para ressignificar o santo maldito Keith Richards. Sequestrou a alma do stone do império das malas de volta aos domínios da arte. Através da pintura a óleo, o olhar de assassino de Keith sai da perspectiva do pop — assimilável, multiplicável, consumível — e ganha de novo o real. Corporificado no óleo, Keith Richards volta a ser perturbador, perigoso, instável — como a realidade. O que era multiplicado aos milhares passa a ser novamente único.

Ao lado dessa apropriação crítica, na arte de Zed um novo procedimento surge nesta exposição: a colagem. Nas principais peças de Pinturas 2011—2013, é como se o artista roubasse para sua obra dois dos principais conceitos psicanalísticos de Freud: o deslocamento e a condensação. Em Freud, os sonhos seriam essencialmente a tentativa de realização de um desejo reprimido alojado no inconsciente — um desejo primordialmente sexual, proibido pela moral. O sonho é, segundo a psicanálise, formado pelo deslocamento e pela condensação. O deslocamento é a obra de censura — em que um elemento do sonho, no nível latente (a realidade a olhos abertos), é substituído por seu todo, ou em um cenário modificado, ou por seus fragmentos constituintes.

Já a condensação é o resumo das ideias que têm pontos em comum, uma analogia entre si, fundindo elementos do nível latente com traços comuns, em um só. A condensação estabelece uma relação entre o conteúdo manifesto (a lembrança) e o latente: propõe um jogo entre o nível do conteúdo, onde existem ideais, conceitos, sensações, e o nível do manifesto, onde existem imagens. Nesse processo, pode ocorrer uma transferência de uma ideia para outra totalmente diversa. O desejo inconsciente pode não vir à consciência, por conta de convenções sociais, culturais, morais — e, se o inconsciente busca o prazer, a censura impede a sua realização. Então, esses desejos surgem nos sonhos como relâmpagos, disfarçados através da condensação, que junta no sonho parte das vivências do cotidiano com vivências censuradas.

O mecanismo da condensação omite elementos dos pensamentos inconscientes, e permite que apenas fragmentos do conteúdo oculto apareçam no sonho — ali, vai combinar elementos do conteúdo oculto em um só conteúdo manifesto. Por outro lado, o mecanismo do deslocamento muda a ênfase de um elemento relevante, que pode ter importância no inconsciente, para algum outro elemento, sem importância — com o intuito de disfarçar o desejo oculto. Ambos os mecanismos operam de forma cruzada; daí ser tão complexa a interpretação dos sonhos.

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É complexa a interpretação dos sonhos de Zed, expressos em suas pinturas, e esta tarefa deixo a espectadores e críticos. Só quero chamar atenção, aqui, em como ambos os mecanismos psicanalíticos podem ser aplicados à sua arte: a apropriação, através do deslocamento, e a colagem, através da condensação. Porque nesta exposição também temos apropriações de imagens da propaganda (como modelos e editoriais de moda), retratos de artistas (como o tropicalista Zé Celso), imagens icônicas (amplificadores Marshall, latas de Heineken, edifícios paulistanos) e até mesmo editoriais (como reportagens sobre os desastres de Chernobyl). É possível que o inconsciente de Zed, assim como o nosso, seja assombrado não somente por seus fantasmas pessoais, mas também pela fantasmagoria que nos coloniza a indústria da mídia, da moda, da cultura pop.

Tais fontes comparecem em um estranho trabalho de colagem, uma vez que estão justapostas ora em cenas aparentemente realistas, ora marcadamente anti-realistas, uma vez que não há nelas uma necessidade de uma perspectiva única. Em obras excepcionais como Mesa Branca, Rifaina e Queimada, seres muito grandes coexistem com seres menores; criaturas de épocas diferentes compartilham o mesmo quadro; cenários urbanos e da natureza agregam-se sob o mesmo ponto de vista. Nelas, a meu ver, além dos citados Rembrandt e Caravaggio, podem ser vislumbrados no percurso que Zed percorreu em sua obra os nomes de Goya, Velásquez, Francis Bacon, Lucien Freud, Chaim Soutine e Neo Rauch — todos artistas que pautam sua obra por imagens figurativas em que o corpo humano tem evidente protagonismo. Mas aí também consigo ver reflexos do anti-realismo de Hyeronomus Bosch, tanto por sua renúncia a uma perspectiva única quanto por seu apreço a um simbolismo de hermética interpretação. Se as escuras cores de Zed estivessem em exposição no início do século 20, o teríamos um antropofágico modernista; se Zed estivesse expondo durante os 60, seria o mais sombrio dos tropicalistas. Nos anos 10, trata-se de um melancólico anti-realista — que, por ironia, é obcecado pelas técnicas da pintura realista. Um pós-realista?

Talvez, melhor que rotular ou interpretar a arte do esgrimista Zed Nesti seja deixar-se ser perturbado por ela. “As pessoas da sala de jantar/ são ocupadas em nascer e morrer”, cantavam os Mutantes. Na sombria antropofagia de Zed Nesti, mais que simplesmente nascer, morrer e jantar, importam os sonhos — e os sonhos que dos sonhos nascem.

— Bar do Fuad, São Paulo, março de 2013

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Autor: rbressane

Writer, journalist, editor

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