Os impostores

Renato, Alê, André, RB e Ulissão: Faith No More... Cover
Renato, Alê, André, RB e Ulissão: Faith No More… Cover

Nos anos 80/90, de ônibus, as bandas cover cruzavam o país levando aos rincões mais longínquos do Brasil Profundo o rock que só era visto na TV

Sim, meus caros, também tive meus dias de pop star — melhor dizendo, de pobre star. Fim dos anos 80, ressaca do rock nacional, o Brasil foi infestado por uma doença chamada bandas cover. Na época, nenhum grupo de rock importante visitava o Brasil, Collor tinha roubado todas nossas economias, não havia internet, ninguém sabia direito como se comportavam os rockstars em tempo real, e o acesso às novidades do pop era muito limitado. Pra ficar sabendo das coisas antes, por exemplo, eu costumava jogar fitas cassetes (lembra?) na mão de um vendedor de discos da Galeria do Rock, que a cada seis meses voltava de Londres com os hits. E hoje você se irrita se o hit daquela banda de pós-rock filipino que um amigo falou de manhã no Twitter demora mais que dez minutos pra baixar.

Voltemos ao meu pobre-estrelato. Como as bandas não visitavam o Brasil, a gambiarra foi inventá-las aqui mesmo. A coisa já havia sido criada com as dezenas de grupos que tocavam o repertório dos Beatles, os milhares de sósias de Elvis e as bandas-tributo a Doors, Stones etc. E assim surgiram o U2 Cover, o Rush Cover, o Billy Idol Cover, o The Cult Cover (cujo vocalista era o saudoso Redson, líder do Cólera), o Gun’s Cover… e a Faith No More Cover, onde este cronista foi tecladista (também fiz uns frilas como o “sexto membro” da Guns’n’Roses Cover).

Ao contrário da maioria, o FNMCover era em nada parecido com sua matriz. Ao contrário: fazíamos questão em não nos parecer com os originais, embora tocássemos, de fato, muito bem (os caras do Sepultura e Ratos do Porão sempre apareciam nos nossos ensaios e volta e meia tocavam conosco). Renato, o histriônico vocalista, longe de exibir o esquizo-sex appeal de Mike Patton, era um índio de 2 metros de altura, 17 anos e longos cabelos abaixo da linha cintura (no busão, nosso lar, o chamávamos de Perla, a cantora paraguaia). Ulissão, o líder e nosso guitar hero, era um gordinho cabeludo-careca (tapava o cocuruto com uma bandana) vagamente parecido com Jim Martin. O multiinstrumentista André Namur, o baixista, tinha uns 30 centímetros a menos que sua fonte Billy Gould e gostava de praticar stage diving a bordo do… case do seu baixo. O baterista, Alê, não headbangeava os dreadlokcs como Mike Bordin: tímido e superfocado, era gago e, ao contrário da maioria dos bateristas que vão se cansando durante as apresentações, ao final do show já tocava duas vezes mais rápido (embora fanático por thrash metal, também frilava para uma banda de axé). Diferentemente do tecladista Roddy Bottum (tive de googlar agora pra lembrar o nome dele — fiquei anos sem conseguir ouvir FNM), minha trademark não era o chapéu de cowboy, e sim wayfarer pretos – nossos fãs tinham certeza de que eu era cego. Um de nossos números era encerrar o show com “Epic” emendando com o triste pianinho da música-tema do seriado Hulk; enquanto o resto da banda saía do palco, eu era abandonado sozinho, com as mãos no vazio, até que o roadie — Ki Chi, hoje dono do restaurante Cão Véio — me resgatasse. Isso sempre fazia sucesso com as fãs mais caridosas.

Sim, FÃS. Muitos fãs. Em 1990, o FNM havia estourado na MTV com “Epic” e nossa chegada a Jundiaí teria contornos de beatlemania não tivéssemos viajado de ônibus de linha – contudo, a chegada foi triunfal, com direito a tietes nos rasgando camisas e cuecas e invadindo o camarim atrás de atenção e carinho. Antes de entrar no busão para voltar a SP, meia-dúzia de moleques me cercou: queriam porque queriam autógrafos. Mas como, se eu não era o Roddy Bottum? No começo me recusava a assinar, mas percebia que os fãs se chateavam com isso — uma vez ouvi que eu era “mascarado”, creiam. Resolvi assinar só RB, iniciais em comum com o “outro”, o que me tirava um pouco a culpa pela impostura.

E, juro, foram muitos autógrafos. Éramos excelentes imitadores, embora todos da banda achassem ridículo copiar roupas e trejeitos da banda matriz, como os outros cover. Éverson, o vocalista da U2 Cover, só falava em inglês no dia do show e realmente acreditava ser o líder da banda irlandesa; no fim de carreira, juntando canções de U2 e Legião fez um combo Bono—Renato Russo… pague por um mala e leve dois. Ganhou muita grana com isso; o máximo que consegui foi juntar 300 dólares para descolar uma jaqueta italiana Perfecto (genuína). Assim cruzamos o país para levar a mensagem de metal, psicodelia e anarquia da banda de San Francisco. No sul, completamente chapados, tocamos o repertório inteiro do FNM em ritmo reggae; revoltados, os fãs nos deram uma surra de latinhas de cerveja e garrafas de pinga, mas ficamos firme arreggueando todas as canções até o fim. Claro, atravessamos o país sempre de ônibus, ao contrário das outras cover, que faturavam bem mais e viajavam de avião. Uma das raras trips pelo ar foi para Aracaju, conforme registrada aí acima, no camarim de uma boate cujo nome me escapa.

Em Adamantina (SP), cidade rota da cocaína, a qual recém havíamos descoberto, nosso ônibus foi parado pela polícia e minuciosamente revistado – encontraram holofotes que nosso baixista bebum tinha surrupiado da casa de shows, além de dois litros de Fanta Uva muquiados na mochila do Ulissão. Em Machado (MG), onde perdi as lentes de contato (precisei ser levado ao palco pelos companheiros, daí nasceu a fama de cego), tive um interlúdio romântico com uma garota que encontrei na minha poltrona – e mais tarde o motorista teve de driblar a polícia da cidade, que perseguia o ônibus, para largar a mocinha em casa: ela era filha do prefeito e muitos anos mais nova do que havia sussurrado ao tecladista cegueta. No interior do Paraná, fomos atirados pra fora do bumba por causa de nossa insistência em fumar e cantar clássicos do punk. Em Campinas, participando do Festival Cover, tocamos para 20 mil pessoas e destruímos os quartos das concorrentes Rush Cover e Guns’n’Cover, hospedados no mesmo hotel que a gente mas mauricinhos demais pro nosso gosto. No Olympia, quando as clássicas cortinas do palco da finada casa de shows se fecharam, derrubaram meu pesadíssimo sintetizador Mirage Ensoniq (eu tocava sempre à frente, à Jon Lord) na cabeça de um fã, que teve de ser levado ao hospital. Em Apiaí (SP), nosso vocalista adolescente comemorou seu primeiro porre em pleno palco, mandando um “Boa noite, Jundiaí!“. Apesar das gafes, Renato era o maior galã da banda; sua companhia favorita era Pulga Joe, o cabeleireiro anão famoso por emular Billy Idol: certa vez encontramos os dois trancados no camarim em uma suruba com seis meninas. Em Alagoas, fomos cercados por agroboys filhos de pistoleiros, que correram atrás da banda na praia disparando o conteúdo de seus três-oitões em nossos calcanhares. Talvez estivessem ainda magoados com nossa versão de “War pigs”, cover do cover (FNM também tocava o clássico do Black Sabbath): no primeiro acorde, um mizão monumental, Ulissão sem querer mandou um ré — e ainda teve a cara de pau de chutar o seu Marshall, colocando a culpa da desafinação no amplificador.

O ônibus, nosso lar semanal, era espaço para profundas discussões filosóficas. Certa vez, o gigante Renato, fascinado pelas tatuagens dos integrantes do Mötley Crüe, tomou vários cascudos de nosso líder Ulisses, sessenta centímetros mais baixo: “Pára com essa babaquice, porra! Tu não é homem? O importante é a música, seu cusão!“. Sempre recordo esse importante mandamento quando vejo uma banda de visual espalhafatoso. E até hoje lembro do impacto que foi ouvir pela primeira vez “Smells like teen spirit”, do Nirvana, que escutamos dezenas de vezes seguidas no bumba; apesar da lição do Ulissão, na semana seguinte todos estávamos usando camisas xadrez pra pegar as gatinhas do New York, então o bar dos roqueiros descolês de SP. E foi de ônibus que a banda foi ver, afinal, ao histórico show do Faith No More no Rock in Rio, em janeiro de 1991. Na volta, decidimos parar com aquela palhaçada e arrumar um emprego. Não fazia sentido: ao vivo, o original tocava muito pior que a cover. Para demonstrar nossa falta de profissionalismo, abaixo tem um vídeo da antológica apresentação no Programa Livre do Serginho Groissmann. Como se pode notar na ridícula entrevista, éramos somente músicos — sem a menor manha para o caô habitual aos pop stars.

Autor: rbressane

Writer, journalist, editor

3 pensamentos

    1. Aê Renato, você que fez este comentário é o vocal? Aqui quem escreve é o Ricardo (Alemão estudamos e trabalhamos juntos na loja Vício) estou no facebook como Ricardo Luis Dias, caso não seja este Renato, favor desconsiderar este comentário e obrigado!

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