Memória X esquecimento


A última “invenção” de Steve Jobs, o iCloud, promete salvar toda a sua vida em rede. Quem precisa de tanta lembrança? Pra cada inventor que cria coisas como a infinita e-memory, como o cientista Gordon Bell, há quem afirme: o melhor caminho para pensar é esquecer – caso do escritor Joshua Foer e do professor Mayer-Schonberger (todos bebendo na fonte do memorável Borges). Pensata-playground para a revista V (também dá pra ler aqui, página 68)

Lembrar demais nos faz idiotas? (Ilustra by Guilherme Lepca)

Imagine se deparar de repente com uma foto sua meio ruim. Foi o que me aconteceu quando fui fazer uma palestra sobre literatura em uma cidadezinha do interior do Brasil. O mediador da conversa, um afável professor de História, ao me apresentar se pôs a ler um currículo que eu havia escrito… treze anos antes. Foi engraçado e assustador. O texto escrito para a orelha do meu primeiro livro dizia coisas como “Bressane detesta axé, pipoca e leite“. Na época eu achava orelhas de livro idiotas – mas hoje acho mais idiota fazer gracinhas nas orelhas de livro. Mais idiota ainda, decerto, é acreditar em tudo o que se lê na rede; tanto é que o desorientado mediador começou o papo literário lançando-me a candente questão: “Por que você não gosta de pipoca e leite?“.

Mais eternos que os diamantes, só as bobagens que publicamos na internet. Pode apostar: aquela couve que ficou no seu dente em uma despretensiosa feijoada no início do século e foi fotografada por um amigo e jogada em um velho blog, quando vocês eram estudantes divertidos, ainda estará lá, impavidamente verde, tão logo um possível empregador der uma busca sobre você no Google e clicar no vigésimo primeiro link. A rede é o Supremo Elefante: nunca esquece de nada.

Imagine acordar amanhã e descobrir que toda a tinta do planeta se tornou invisível e que todos os bytes desapareceram“, pede o escritor Joshua Foer no livro A Arte e a Ciência de Lembrar Tudo: Memórias de Um Campeão da Memória (Rocco).

Nosso mundo desmoronaria. Literatura, música, leis, política, ciência, matemática: nossa cultura é um edifício construído de memórias externalizadas“, entende o jovem escritor novaiorquino que, encafifado com a assombrosa habilidade de esquecer o aniversário da namorada, o que ele estava procurando na geladeira e o número do próprio telefone, resolveu se focar durante um ano em um duríssimo treinamento mnemônico – e faturou o caneco no Campeonato de Memória dos EUA.

Foer voltou ao tempo em que não tínhamos sequer papel pra gravar nossos conhecimentos e descobriu um método infalível para lembrar tudo. Chama-se o Palácio da Memória. Teria sido inventado pelo poeta Simônides de Ceos, a V a. C., na Tessália, Grécia. Simônides estava em um banquete quando alguém lhe chamou à porta. No que recebeu a comunicação de um mensageiro, ouviu um estrondo às costas: o teto do palácio onde minutos antes acontecia uma festa havia desabado. Todos os convivas morreram. Em choque, Simônides fechou os olhos e passou a rememorar cada um dos aposentos daquele palácio, que conhecia tão bem. Lembrou detalhes da decoração, das pessoas que ali viviam, coisas que haviam acontecido em cada espaço.

Simônides abriu os olhos, tomou pelas mãos cada um dos parentes histéricos e, pisando cuidadosamente sobre os escombros, conduziu-os aos locais onde os respectivos entes queridos estiveram sentados. Naquele momento, diz a lenda, nascia a arte da memória“, conta Foer.

O Palácio da Memória consiste em construir, mentalmente, um espaço que possa ser habitado por lembranças. Nunca falha. Foer usou essa e outras técnicas para ultrapassar grandes campeões mnemônicos americanos – gente capaz de memorizar, em minutos, uma ordem aleatória de 1000 números primos. Seu objetivo era investigar os remanescentes dessa arte de preservar as memórias internas. No extremo ponto, há quem lute pela extinção pura e simples da memória biológica.

É o caso de Gordon Bell, uma lenda-viva do Vale do Silício, que registra tudo o que lhe acontece com câmeras, gravadores e computadores – o que ele chama de lifelog. Segundo ele, rumamos em direção a um futuro em que teremos memórias externas omniabrangentes, registrando nossa rotina e lançando-a na Nuvem, conforme escreve em Total Recall: How the E-Memory Revolution Will Change Everything (Dutton, 2009, sem edição no Brasil).

O título faz alusão a Total Recall, conto de Philip K. Dick já adaptado ao cinema duas vezes (a primeira, com Arnold Schwarznegger; a segunda estreia em 2012 e tem Colin Farrell como protagonista). No conto, um pobre trabalhador de 2084 recorre à empresa Total Recall para implantar memórias de suas férias felizes em Marte.

Bell pretende gravar absolutamente cada movimento que faz, cada passo que dá, cada fôlego puxado pelos pulmões. Recorre a um arsenal de câmeras e microfones que captam tudo o que lhe acontece; módulos de GPS, câmeras embutidas nos óculos, microfones nos brincos, sensores implantados no corpo para detectar o batimento do coração, medidores de pressão e de fluxo sanguíneo também serão coordenados pelo software Total Recall, criando o que Bell chama de e-memory. Tudo vai parar na Nuvem, claro.

A Nuvem é o novíssimo modelo de computação em que todos os computadores estão ligados via internet e as memórias são acessadas remotamente. Seu computador não requer memória, afinal os arquivos serão salvos em um gigantesco conglomerado de servidores, podendo ser acessados de qualquer computador em qualquer lugar do mundo. O modelo tem sido pesquisado há alguns anos por empresas como Microsoft, IBM e Google. Mas foi Steve Jobs, o gênio supremo do marketing digital, quem popularizou o conceito através de sua última aparição ao vivo, em julho de 2011, quando lançou o iCloud – o serviço da Apple que disponibiliza de graça 5 gigabytes para sincronizar todos os arquivos dos gadgets de seus assinantes.

Imagine registrar virtualmente tudo o que te aconteceu. Você terá um Você virtual guardado. Suas memórias digitais, incluindo padrões de sua personalidade fossilizada, serão sintetizadas em um avatar que as futuras gerações poderão conhecer e com quem poderão se comunicar. Em um texto quase publicitário, Bell afirma que Total Recall já é realidade. “Primeiro, nunca registramos nossas vidas de modo tão frequente“, enumera ele. “Segundo, essa montanha de dados pode ser guardada por um custo baixo em um servidor remoto. Terceiro, empresas como Google provêm tecnologias refinadas de busca para encontrarmos o que quisermos em nossa memória.

Se gente como Joshua Foer prefere voltar ao passado para entender como era nossa memória antes de se contentar em ser somente uma senha para abrir uma cornucópia de lembranças armazenadas na Nuvem, há pensadores como Viktor Mayer-Schonberger, um professor austríaco de Princeton que sustenta a tese de que o melhor caminho para lembrar é… esquecer. Tanto Foer quanto Mayer-Schonberger recorrem a um personagem de Jorge Luis Borges para atacar o excesso de memórias trazida pela revolução digital. Trata-se de Funes, O Memorioso, protagonista de conto homônimo de Ficções (1956). Funes era um rapaz dotado da memória total para mínimos detalhes.

Suas lembranças não eram simples; cada imagem visual estava ligada às sensações musculares, térmicas etc. Podia reconstruir todos os sonhos, todos os entressonhos. Duas ou três vezes havia reconstruído um dia inteiro; nunva havia duvidado, cada reconstrução, porém, tinha requerido um dia inteiro“, conta Borges. O pobre Funes, assombrado por um oceano de recordações, tinha, no entanto, um problema essencial. “Ele não pode prioriazar, não pode generalizar. Como Borges conclui, talvez seja o ato de esquecer, e não o de lembrar, que nos faz humanos“, entende Foer. “Pensar“, escreveu Borges, “é esquecer“.

A tese (que foi aliás confirmada por outro argentino, o neurocientista Iván Izquierdo, nas páginas da V 43) – é o centro de Delete: The Virtue of Forgetting in the Digital Age (Princeton Press, 2009), de Mayer-Schönberger. O autor lembra o caso de AJ, uma californiana de 41 anos, que nasceu com o desafortunado dom de lembrar tudo. “Sua memória é incontrolável, automática, como um filme que nunca para“, diz ele. A despeito de uma memória inusual, AJ é uma mulher presa ao passado. O esquecimento, mostra esse triste exemplo, pode agir como um filtro criativo, deixando passar apenas o que realmente importa, reinventando o passado.

Mayer-Schönberger relaciona a impossível memória de AJ à rede. “A memória digital paralisa as pessoas; nega-lhes a chance de evoluírem; pecados bem-preservados proíbem-lhes a capacidade de perdoar“, escreve o professor. Ele lembra um caso curioso: um professor canadense teve barrada sua entrada aos EUA depois que um agente de imigração googlou seu nome e encontrou uma entrevista em que ele contava suas experiências com LSD. O detalhe é que o professor havia experimentado o ácido nos anos 60! Como o psicodélico mestre, muitas pessoas se sentem fragilizadas pelo que fizeram no passado – e ficou registrado para sempre na internet. Recente pesquisa demonstra que 92% dos norte-americanos querem direitos legais para forçar sites e agências de propaganda a apagarem toda a informação acumulada sobre eles.

Se informação é poder, sempre haverá alguns poucos que saberão tudo sobre muitos – e essas informações serão transformadas em dinheiro. Já há empresas que oferecem o serviço de “apagamento digital“, como o Reputation Defender nos EUA ou o My Image Control alemão. Mayer-Schönberger conta que políticos de países como Japão, Alemanha e França sugeriram às principais empresas de internet que controlem uma “data de validade” para as informações pessoais nas redes sociais.

Quando confrontado se ele mesmo põe em prática sua tese de que “esquecer é pensar“, Mayer-Schönberger lembra que, ao se mudar da Áustria aos EUA, levou CDs com todos os emails e contatos que guardara em décadas de academia. Logo percebeu, porém, que os havia salvo em um formato obsoleto, e o arquivo estava cheio de defeitos. Tinha perdido tudo. “Fiquei devastado, deixei de trabalhar por dois dias. Então a vida continuou, e descobri que nunca realmente precisei daquelas velhas mensagens, e ao contrário, passei a me divertir com minha nova liberdade digital“, conta: perder sua memória digital foi menos doloroso do que imaginava. “É algo que gosto de lembrar“, brinca.

Imagine só: memória e esquecimento serão o grande telecatch na cultura das próximas décadas. Enquanto essa briga não atinge, tento lembrar por que diabos escrevi que não gostava de pipoca.

Autor: rbressane

Writer, journalist, editor

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