A mais triste vitória


Sócrates (1954-2011)

Artigo publicado no caderno Aliás, do Estadão, em 11-12, lembrando de Sócrates à luz [ou à sombra] do Corinthians pentacampeão

Domingo foi estranho. Logo ao acordar, fiquei sabendo pelo amigo Xico Sá que nosso querido ídolo Sócrates se foi. Fui assistir ao jogo com a amiga Phydia me sentindo estranho, o coração amarrado.

Como todo corinthiano sabe, e como todo anticorinthiano desconfia, ganhar ou perder não importa, o que importa é estar junto: eis o significado de ser um fiel. Claro que ser pentacampeão brasileiro é incrível. Mas o travo, dividido na mesma cerveja com os alvinegros na casa em que via o jogo, amargava tanto na melancolia pela perda do símbolo maior quanto no despropósito em torcer para uma equipe contrária à filosofia socrática.

Esse Corinthians de Tite e seu futebol titebitate é o oposto do talentoso esquadrão dos anos 80, de craques como o Doutor, Zenon e Casagrande, secundado pelo brio de Biro-Biro, Wladimir e Zé Maria. Talento oscilante – já que aquele time, se foi bicampeão paulista sobre o São Paulo, uma das melhores equipes da época ao lado do Flamengo, também caiu para a segunda divisão em 1981 e nunca venceu um Nacional. Mas trocaria a burocracia dos passes laterais de 2011 por uma única tabela genial de 1982, ou um só desconcertante passe de calcanhar do Magrão.

Politicamente, este pentacampeão é bem diverso daquele bicampeão: se este é um clube forte, cujo maquiavélico cartola estica ao máximo o conceito de pragmatismo ao ser ao mesmo tempo filiado ao Partido dos Trabalhadores e funcionário de Ricardo Teixeira, aquele, um clube provinciano, sonhava com o poder repartido entre pequenos – tanto que, com ideário semelhante ao PT original, entrou para a história com a democracia corintiana, que mandava mais que os cartolas. (Em entrevista dada em 1983, Sócrates declarava ter votado em Lula para o governo paulista; dizia também que gostaria de morrer em um domingo, com o Corinthians campeão.)

A morte de Sócrates divide a história do Corinthians em dois tempos opostos – trajetória parecida com a do próprio PT, partido ao qual, hoje, interessam mais os fins que os meios. Ao time dos anos 80, iluminado por relâmpagos de criatividade e suportado por uma massa de sofredores, contrapõe-se este todo-poderoso Timão que vence nada utopicamente em campo e, fora dele, vive de tenebrosas transações. Ontem tínhamos um Corinthians de oposição, identificado com as massas que combatiam a ditadura, e essas identificadas com os princípios do PT, a ocupar estádios alheios por falta de casa própria – como os 160 mil que apoiaram Lula no estádio de Vila Euclides, São Bernardo do Campo, 1979.

Em 2011, temos um Corinthians de situação, ganhador, que plantou o técnico Mano Menezes na seleção, o ídolo Ronaldo no Comitê Organizador da Copa e o presidente Andrés Sanchez como diretor de seleções da CBF. Tá tudo dominado. E se, enfim, pode ter um estádio, é graças à mãozinha do ex-presidente Lula; afinal, aquela massa de sofredores se transformou na ascendente classe C, que hoje vai ao Pacaembu de SUV importado, paga uns R$ 200 por ingresso e outros R$ 300 por uma camisa lotada de patrocínios – fazendo da marca Corinthians a mais valorizada do futebol brasileiro. Se a utopia democrática prega que todo poder emana do povo, os petistas Lula e Sanchez, mais pragmáticos que idealistas, souberam capitalizar o poder da Fiel com esperteza.

O nublado 4 de dezembro de 2011 marcou o fim de uma era. Ao fazer lembrar a beleza de seu futebol, a morte de Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira obscureceu o título do time que lhe deu fama, agora representado por um jogo medíocre. Pervertendo a máxima “nenhum jogador é maior do que o jogo“, o Doutor ensinava a ser sem nunca ter sido: descendente da nobre estirpe dos artistas boêmios, sempre viveu com orgulho de seu lifestyle, mais cioso de sua classe em pensar do que em só jogar, defendendo que todo atleta seria responsável pelas opiniões e pela cerveja que cativa – nada de capitalizar em cima do biblicamente correto, como 99% dos jogadores de hoje.

Com a bola no pé, mesmo sem vencer na seleção de 1982 (superior às de 1994 e 2002), sua rara originalidade o colocou na galeria dos melhores da história. Em sua desfaçatez pela competitividade do esporte – considerava o futebol uma arte -, Sócrates ensinava que o erro pode ser mais sublime que o acerto. “Nunca ter falhado/ Não importa/ Tentar outra vez/ Falhar outra vez/ Falhar melhor“, diria o alvinegro Beckett.

Domingo foi estranho, por isso, um dia corinthiano: é da natureza de um fiel ser triste ao ser alegre. Em um dia cinzento, o rebelde Sócrates nos legou uma lição de dissonância e paradoxo. Nada mais alvinegro, então, que se harmonizem os polos contrários dando o nome de Sócrates Brasileiro ao estádio de Itaquera – em vez de ceder naming rights a uma empresa de olho na grana da Fiel. O time e sua torcida são muito maiores do que o presente clube. Ainda que o Doutor, crítico dos métodos da CBF, também não fosse muito com a cara da atual diretoria do clube, seria bacana ver Sanchez & companhia ter a romântica capacidade de produzir um gesto dessa grandeza. Seria socraticamente corinthiano.

*

Escrevi o texto abaixo para meu blog na Alfa depois da primeira internação de Sócrates. Tinha certeza total de que ele sairia dessa – daí fechar essa outra lembrança do Doutor em tom mais esperançoso.

Corinthians homenageia Sócrates: punho erguido

Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira não está legal. E o mundo está preocupado com o médico que voltou ao hospital como paciente: jogue Sócrates no Twitter e perceba o tamanho do admiração e do amor que o mais brasileiro dos jogadores provoca na arquibancada, mesmo 30 anos depois de sua retirada dos gramados onde desfilou seu estilo peculiar que o colocou entre os maiores craques da história. Voltou ao hospital, em estado grave, para tratar de uma hemorragia causada pela cirrose – e esta, causada pelo alcoolismo. Sócrates nunca escondeu ser fã de birita.

Nem quando era jogador. Ao contrário: mentor da Democracia Corinthiana do lendário time dos anos 80, preconizava que todo atleta seria responsável pela cerveja que cativa. Nada de passar uma de politicamente correto nem ficar se explicando à imprensa que bebeu menos caipirinhas do que todo mundo viu (é com você, Fred).

Hoje aposentado dos campos – embora vez ou outra tirando onda nos churras dos amigos; quase imóvel joga mais do que todo o atual escrete alvinegro –, o Doutor é raríssimo representante do clube dos ex-craques que pensam com a própria cabeça e ainda sabem escrever. Bom, fora o também médico Tostão, você lembra de mais alguém? Mas, ao contrário do abstêmio ex-10 do Cruzeiro, Sócrates descende da nobre estirpe de atletas e artistas boêmios, sempre viveu assim e tem orgulho de seu lifestyle.

Se, jogando, o Magrão já parecia um homem de outro tempo – do tempo em que homens não fugiam da responsa e usavam a inteligência para driblar de beques a censores –, por que não o seria na arte de jogar conversa fora? Na tal entrevista que deu ao Fantástico, ao ser perguntado pelo repórter se seria alcoólatra, respondeu com um misto de bonomia e desfaçatez: “Sim, claro”. Certeza de que por pouco não mandou um “Tá me tirando, véio?”.

Encontrei duas vezes o Doutor. Na primeira, para uma entrevista ao meu documentário Só Quem É Sabe O Que É (co-dirigido com Phydia de Athayde e Artur Voltolini), sobre a torcida do Corinthians durante a queda na série B. Em duas horas matamos, creio, meia-dúzia de long necks enquanto o barba discorria sobre a identificação das torcidas organizadas de futebol e os reinos bárbaros europeus, além das diferenças entre a torcida do Flamengo (“ela baila, ela brinca”) e a do Corinthians (“ela é séria, ela joga”), os grandes clubes que defendeu no Brasil (fora uma furada passagem pelo Santos).

Já na segunda vez, na Mercearia São Pedro, em nove horas de trabalhos ele certamente bateu o recorde mundial de cervejas derrubadas (por óbvios motivos não me lembro do astronômico número de ampolas que lotou nossa mesa). Na Merça ele é tratado como rei: tirando o tricolor França e o chapeiro Seu Antônio, torcedor do Náutico, todos os garçons são corinthianos – o Doutor nem precisa levantar o braço para receber a bola, que lhe é servida quase de joelhos. Nunca me esqueço do entusiasmo com que contava uma recente viagem à Amazônia. “O avião não chegava, nunca chegava, nunca que chegava, e eu morrendo de sede, olhava aquele mundããão de rios e florestas e ficava imaginando um oceaaano de cerveja”, ria, abrindo o erre ribeirão-pretano.

Ele afirmava – e eu acredito, porque o Calcanhar de Ouro é homem do tempo em que se fiava o homem pelo bigode – que só bebia cerveja. Sim, a mesma birita vendida pelo treinador Mano Menezes nos intervalos comerciais da nossa selecinha. Vinho, às vezes, com a namorada. Destilados, cigarros e outras substâncias, nunca – bem, pelo menos, não ultimamente. Uma hora a conta chega, e o Doutor tem ciência disso, tanto que ressabiava-se com os recentes exames que havia feito, constatando sua cirrose. Tinha moderado – de verdade – a manguaçagem, o que influenciou na acidez e na aridez dos comentários no Cartão Verde e na coluna na CartaCapital. Essa ranzinzice é jogo de cena: numa mesa de boteco, a timidez some, em meia hora vira seu amigo de infância. Mas, se você for tricolor, desculpe – vai ser zoado a noite toda, com direito a gozações estendidas ao irmão Raí, personagem onipresente em suas piadas.

(Nos últimos meses, tinha trocado a onipresente cerveja pelo vinho. Xico Sá, seu colega de Cartão Verde, me revelou que, ao visitá-lo no hospital em sua primeira internação, os médicos lhe confidenciaram que o fígado de Sócrates havia sido bastante avariado não só pelo álcool como também pelas infiltrações de cortisona e xilocaína que lhe eram aplicadas para amenizar inchaços e dores das pancadas sofridas nas pernas.)

Eu, que descobri o futebol o vendo jogar na gloriosa Copa de 1982, em que nossa derrota demonstrou o quanto o erro pode ser mais sublime que o acerto (“Nunca ter falhado/ Não importa/ Tentar outra vez/ Falhar outra vez/ Falhar melhor”, diria Beckett), torço sinceramente para que o Doutor vire a partida e saia outra vez tirando onda. Tenho certeza de que ele vai achar um caminho nesse jogo, vendo, como só ele via em campo, algo de que nunca suspeitamos. Ele vai descortinar, eu sei, um lance impossível no vazio entre o primeiro copo e o apito final. Cerveja sem álcool gostosa, quem sabe?

Autor: rbressane

Writer, journalist, editor

5 pensamentos

  1. Ronaldão, uma única observação ao ótimo texto: no início dos anos 80, ou seja, ainda em tempos de pré-globalização, vencer os regionais de SP e Rio era quase tão importante (ou maior até) do que conquistar o Nacional (na época, uma bagunça completa com cerca de 40 times divididos em “n” chaves, mais Taça de Prata, repescagem e o escambau). Outro detalhe fundamental: o Timão da Democracia ganhou o bi paulista em cima dos Bambis, cujo plantel só era comparado na época ao Flamengo de Zico & Cia. Portanto, o bi de 82/83 foi uma conquista e tanto.

  2. Ah, claro que dá saudades daquele time, o primeiro para o qual torci, e o que eu mais gostei na vida. E claro que não tem nenhum Sócrates neste Corinthians de 2011, como aliás nunca mais vai haver nenhum Sócrates em nenhum time. Mas daí a chamar este aqui de oposto àquele… Sim, sim, o presidente do time é chapa do RT, o que não o recomenda. Mas é também um corinthiano apaixonado, amante daquele time do passado, respeitoso da torcida e, para o bem ou para o mal, sonhador. E, se não tem ninguém com o talento, com o caráter e com o cérebro do Magrão, tem sim neste time muito do espírito guerreiro e da entrega apaixonada que fazem o Corinthians ser o Corinthians. Tem o Jorge Henrique, dando carrinhos na defesa e no ataque, incansável, me fazendo lembrar do Biro Biro. Tem o Paulinho de 2011, melhor que o Paulinho de 1983. Tem lances heroicos, viradas inacreditáveis, paixão. Óbvio que não comemorei este título como comemorei aqueles. Mas, até aí, assim como só existe um Sócrates, só temos 10 anos uma vez.

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