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Na rede, estamos nos transformando em outras pessoas?

Pensata-playground para pagar a Germana das crianças publicada na linda Audi 04/2010. Sim, este Impostor pedestre colabora equino, digo, equanimemente para as revistas motorizadas Audi, MIT e V. Curioso como o texto autoral tem ido estacionar em veículos customizados.

Aliás, com este textinho comemoramos 10 anos de jornalismo. 7 de abril de 2000 eu entrava na Trip para ser chefe de reportagem sem nunca ter pisado antes numa redação. Mas divago… ao texto:

Fernando Pessoa, na arte de Mestra Samaia

Rogério tem inquietantes olhos azuis e uma língua afiada. Gosta de Caetano, de Mutantes, e Rimbaud. Ativo, nada três vezes por semana e prepara sua primeira maratona. Curte crianças e gatos, se vira nas massas, detesta mentiras e é favorável a demonstrações públicas de afeto. No seu quarto há velas, almofadas, livros de poesia, acessórios místicos e uma certa loucura no ar.

Haroldo é careca, gordinho e tem a língua pguesa. Curte heavy metal mas já se pegou batendo o pezinho com o Chiclete com Banana ouvido pela irmã mais velha. Mora com a família, adora ver um futiba no sofazão da sala e tem uma coleção de ímãs de geladeira com as cantinas mais baratas do bairro. Nunca namorou – a não ser os pôsteres da Playboy espalhados pelo quarto.

Haroldo e Rogério são a mesma pessoa, como você suspeitou. Quem engana quem? Haroldo tem problemas em assumir a identidade? Vira super-herói ao entrar na cabine do Facebook? Quando Dr. Jekyll se olha para o espelho, se vê como Mr. Hyde? A internet trouxe, além da segurança do anonimato, mais dispositivos para que as pessoas sejam cada vez mais falsas? Isso é doença, doutor?

Colocar a culpa na rede por conta de tais transtornos de personalidade soa tão exagerado quanto justamente dedurar, nesses mascaramentos possibilitados pela rede, sintomas patológicos. O exagero é da mesma grandeza dos que vêem a tecnologia como a fonte de todos os males. “A cibercultura se tornará provavelmente o centro da gravidade da galáxia cultural do século 21, mas a proposição segundo a qual o virtual irá substituir o real, ou que não poderemos mais distinguir um do outro, nada mais é do que um jogo de palavras malfeito, que desconhece os significados da virtualidade“, afirmava resolutamente o filósofo francês Pierre Lévy no já clássico Cibercultura (Ed. 34), dos idos de 1997.

Lévy, um dos mais apaixonados intelectuais pró-internet, fazia questão de situar as fronteiras entre virtual e real neste que já é considerado um clássico do tema. Lévy alerta para o uso equivocado do termo virtual – filosoficamente, o virtual não se contrapõe ao real (se fosse, “realidade virtual” seria impossível). O virtual é “toda entidade desterritorializada, capaz de gerar diversas manifestações concretas em diferentes momentos e locais determinados, sem contudo estar ela mesma presa a um lugar ou tempo em particular“. Ou seja, as noções de “falso” e “verdadeiro” não têm nada a ver com “virtual” e “real” – o virtual é só outra dimensão do real. Algo tão simples e ao mesmo tempo complexo em resumir quanto a definição aristotélica para identidade: “Aquilo que é idêntico a si mesmo”.

Philip K. Dick, autor de O caçador de andróides, era fascinado pelos conceitos de falso/verdadeiro, real/virtual – quase todos os seus livros são baseados nesses pares de opostos. No romance Identidade perdida (Brasiliense – precisando urgente de uma reedição), um superfamoso apresentador de TV, Jason Tavernier, subitamente desperta em um mundo em que ninguém o conhece. Mais à frente, surge uma hipótese para explicar o fenômeno: a ingestão de uma nova droga, chamada KR3, cria uma ilusão de multiespacialidade que contamina todos os objetos de um determinado campo de possibilidades. Em um desses mundos possíveis, Jason não existia – e esse fato contagiava outras pessoas como um vírus. Assim que o efeito da droga passava, o universo alternativo se dissipava e Jason voltava a existir. O enredo é uma alegoria da famosa blague de K. Dick: “A realidade é aquilo que, mesmo que você não acredite nela, não vai embora“.

Assim, mesmo que Rogério não acredite em Haroldo, Haroldo não vai embora. Lembre-se que a nossa “realidade” já é “virtual”: a própria percepção é uma convenção, uma representação que tomamos como verdade para que tenhamos um chão em que pisar. Na tese Orkut, a identidade virtual, a teórica em comunicação Meyrilane da Silva Gomes comenta que, no mundo virtual, a identidade é fruto de um processo de construção intencional, e, desse modo, os sujeitos têm total liberdade na reelaboração de suas personas.

A identidade pós-moderna metamorfoseia-se, aparece em sua multiplicidade, evidenciando o ser complexo dos novos tempos, fragmentado. O mundo virtual se origina no pensamento e nas ações dos homens comuns, se afirmando como real para eles.” Nesse mundo, a superexposição é fundamental para a construção da nova identidade: “As pessoas crêem que suas vidas comuns e seus dramas banais ganham alguma efetividade, consistente e verdadeira, no ato mesmo de se mostrar ao outro“. Faço log in, logo existo.

Em outras palavras, tudo bem que Haroldo seja Rogério. O problema virá quando Rogério matar Haroldo, aí sim nosso perfil do Facebook estará encrencado – se tornando portador do transtorno de personalidade dissociativa. As pessoas com esta patologia, segundo o Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders – IV da Sociedade Americana de Psiquiatria, “podem assumir cem identidades, todas coexistindo. Em alguns casos, as identidades são completas, cada uma com seu próprio comportamento, tom de voz e gestos“. Relacionar estes sintomas à navegação pelo ciberespaço ainda é um fato novo; no Brasil ainda não há sequer literatura psicanalítica especializada nisso.

Porém, no recém-publicado estudo Time out of mind – Dissociation in virtual world (American Psychological Association, 2009), a psicanalista Ellen Toronto registra dois casos em que os pacientes não se lembravam de sua atividade online – e eram cobrados offline pelo que faziam na rede. É um dos sintomas mais claros de personalidade dissociativa: “Incapacidade de lembrar-se de informações pessoais importantes amplas o bastante para serem explicadas pelo esquecimento comum“. Um dos pacientes marcava encontros amorosos mas não conseguia, “ao vivo”, sustentar a personalidade online – não por não saber simular a outra personalidade, mas sim por se esquecer completamente do que havia conversado online.

Falso Fernando Pessoa

Em outro estudo pioneiro, A psicologia do ciberespaço, o psicólogo John Suler pesquisou o comportamento das pessoas no Palace – um software de chat, espécie de pré-Second Life usando avatares animados, que fez sucesso na virada dos 90 para os 00. De acordo com a experiência de Suler, é justamente a capacidade de se reinventar online que afasta uma pessoa de forte tendência dissociativa. Suler aproxima essa brincadeira do processo onírico.

A mudança de forma dá ao usuário controle consciente sobre o processo psicológico chamado ‘dissociação’. É quase como ter uma múltipla personalidade ‘controlável’. Os usuários não estão conscientes do que exatamente expressam sobre suas personalidades através de seus avatares. A mesma coisa acontece durante o sonho. Cada objeto no sonho é um pedaço ou componente dissociado do Eu – mas nem sempre o sonhador sabe disso.” Quer dizer: Haroldo inventa Rogério para fugir de Haroldo, mas, nisso, fica ainda mais parecido com Haroldo.

No ciberespaço, algumas pessoas dizem sofrer de esquizofrenia ou personalidade dividida… Não se trata de esquizofrenia, mas de uma divisão da identidade entre o que apresentam aos outros no mundo físico e no ciberespaço. Porém, um não é mais ‘real’ que o outro: são aspectos da mesma identidade“, diz o psicólogo. “É até possível que experimentar com personalidades alternativas afaste o perigo de um transtorno dissociativo, uma vez que se começa a compreender, aceitar e integrar essas personalidades alternativas em um senso consciente do Eu.

Mal comparando, esta é uma explicação possível para que o maior escritor de Portugal nunca tenha enlouquecido – ou cometido algum crime. Como se sabe, Fernando Pessoa tinha mais de cem heterônimos diferentes; personalidades literárias absolutamente diversas, cada uma com seu mapa astral (Pessoa foi um dos grandes astrólogos de seu tempo). Há uma história famosa sobre um encontro que Pessoa havia marcado com a namorada Ofélia, no café A Brasileira. Ofélia chegou à hora combinada. Pessoa apareceu cinco minutos depois, dirigiu-se ao balcão, pediu um café, bebeu e foi embora sem sequer olhar Ofélia. Indignada, ela escreveu-lhe pedindo satisfações. Pessoa desculpou-se: “Não era eu, era o Álvaro de Campos…“.

É isso mesmo, Haroldo: melhor conformar-se em ser Rogério e quantos outros você quiser. Está tudo certo. Como escreveu Drummond no “Sonetilho do falso Fernando Pessoa”: “Onde nasci, morri. 
Onde morri, existo. 
E das peles que visto
/ muitas há que não vi“.

Se mata!

Passando tempo demais no Facebook? Suicídio virtual é a solução. Esta é a possibilidade oferecida pelo site Seppukoo.com: uma imolação inspirada nos rituais dos samurai japoneses, que se matavam para recuperar a honra perdida. Para se suicidar no Seppukoo, o usuário passa seu nome e senha de Facebook; depois, edita sua página de despedida, com as imagens e frases que deseja para o obituário. O serviço enviará suas últimas palavras a todos seus contatos no Facebook, desativará sua conta e criará uma página de recordação para o finado em uma espécie de cemitério virtual, onde se pode visitar as tumbas dos imolados, deixar mensagens e condolências. Fora isso, existe uma competição entre os espíritos libertos da tirania digital, dando mais pontos a quem convidar mais amigos para o ritual de purificação.

Na verdade, a idéia toda é uma presepada criada pelo grupo de artistas italianos Os Invisíveis. Eles querem denunciar como as redes sociais estão controladas pelas megacorporações que tiram proveito das informações dos usuários, invertendo esse processo ao converter o suicídio ritual em uma experiência social excitante. Para dar um bom exemplo, os 13 membros d’Os Invisíveis (entre eles Kurt Cobain, Jim Morrison, Elvis Presley, Chet Baker, Romeu e Julieta, Virginia Woolf e Cleópatra VII) cometeram suicídio coletivo no último 5 de novembro, iniciando uma campanha viral a que já se uniram 20 mil usuários. Caso você se arrependa do seu harakiri, sempre se pode ressuscitar: para isso, só precisa voltar a entrar no Facebook. Porém, jamais poderá cometer suicídio de novo no Seppukoo, e aí sim sua honra ficará manchada para sempre…

Autor: rbressane

Writer, journalist, editor

8 pensamentos

  1. A 1º imagem de Fernando Pessoa que segue o titulo (log in logo existo) é da autora da Mestra Samaia 2010 e ilustrou o poema “Fernando Pessoa Poeta da Nação”, da autoria de Jómy Nogueira. Tanto a imagem como a poesia tem registo de autor do mesmo ano.

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