Outro assalto

Tomamos e fomos pra praia.
No chão, uma espécie de depressão. Ninguém se mexe, por um bom tempo, com medo. Um cavalo vem. Foi andando sobre o pequeno vale.
Percebemos que o tal buraco era só uma sombra feita por um coqueiro. Lentos, resolvemos continuar andando. O cavalo cada vez mais vermelho, longe. Virado, meu pescoço dói, seguindo seu trote. Aí lembro que um amigo tinha ficado no meio do caminho.
Volto pra buscá-lo.
Ando quilômetros.
Está agachado, beira da estrada. Me sento do lado dele: vamos pra praia, disse.
Nem, responde. Descobri que tem um cemitério indígena ali. Olha você mesmo, aponta para o leste.
Só vi mato. Só tem mato aí, vamos embora.
Olha direito.
Fico olhando por um bom tempo. Não sei bem quando, senti que o mato se mexendo era um monte de braços, acenando. 
E vejo as pessoas acenando para mim. Como se me chamassem. Uma ou duas horas ficamos ali, olhando para os índios mortos, a garganta fechada de desespero? Vamos pra praia, digo, violento, puxando o braço do meu amigo.
Mas meu amigo é só uma pedra. Não tem ninguém ali.
Voltei pra praia assim mesmo.
Estavam todos deitados no chão, acenando para o céu.
O sol vai nascer. É dia de ano novo.
Meu amigo surge do mar, todo molhado e nu. Chorava. Estão todos mortos lá embaixo também, disse. Não tem como fugir.
Encontro uma pinga numa macumba. Meu amigo e eu tomamos toda a garrafa.
Tire isso de mim, por favor, grito pro médico.
Tire você mesmo, gritou meu amigo, me oferecendo um revólver.
Atirei. 
O aço à minha frente se quebra.
O médico me xingava.
Quer mais um?, pergunta uma amiga.
Não, disse. Vamos pra praia.
E fomos pra praia.
Tem uma sombra grande de um coqueiro. Dentro da sombra, uma espécie de depressão. Praia de tombo, a lua quase cheia. Entramos no pequeno vale, rolando. O biquíni de minha amiga é um relâmpago vermelho. O som do mar se intromete nas minhas narinas e eu tinha sede.
O médico não me dá água.
O médico dança um ritual indígena.
O médico está doente e matou meu amigo, eu disse pra ela.
Minha amiga está nua e monta o cavalo vermelho. Diz que eu fico bem de branco. Me acena, como se me chamasse. Com medo, eu caminho até ela.
O sol vai nascer.
Aí lembro que um amigo tinha ficado no meio do caminho.

Autor: rbressane

Writer, journalist, editor

One thought

  1. Gostei de ler. Me lembra cortazar; nao que eu tenha gostado por causa disso. Tem um outro poema seu, recente, na primeira paina do blog. Voce e paranaense? Nunca vi um nao paranaense usando “piá”.

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