Homem-biblioteca


Mindlin vai ao Capão encarar Ferréz no clique de Antônio Gaudério

Pro Outlook de 6-3, pensata-playground donde se analisa a morte de José Mindlin em contraponto à chegada em massa dos Kindle DX, conta-se o dia em que o autor de Uma vida entre livros conheceu a biblioteca do Capão Redondo, aventa-se sobre seus possíveis “sucessores” e sugere-se o tombamento definitivo do termo bibliófilo dando lugar a palavra mais simpática

Bibliófilo é uma palavra que eu nunca gostei. Além do óbvio pedantismo, sempre me lembrou termos sexualmente negativos: pedófilo, necrófilo, coprófilo. Ao ver José Mindlin pela primeira vez, a palavra que me veio à cabeça não foi esta, que, de tanto aparecer grudada ao editor, escritor, jornalista, empresário e colecionador paulistano morto aos 95 anos em 28 de fevereiro, torna-se desde já termo tombado por falta de usuário à altura. Vi Mindlin e pensei: um menino. Ele estava escarrapachado numa poltrona em sua casa, mergulhado na leitura de um livro – mergulhado é o termo exato, uma vez que o velhinho ocultava-se por trás de volume tão colado ao rosto que parecia cheirá-lo em vez de lê-lo.

O vi e logo vi a mim mesmo, deslumbrado com os poros do papel de uma velha edição de Vinte mil léguas submarinas. T também havia sido um míope de marca maior (13 graus, agora desaparecidos após uma cirurgia; Mindlin tinha graus nas alturas), e os míopes têm essa vantagem de conseguir enxergar detalhes extremamente pequenos, como veios de vinil, pintas de joaninha. Imaginei que, pela proximidade física, o cheiro do papel, da encadernação, da cola, da tinta, tudo isso também fosse degustado por aquele grande leitor – fazendo tão parte da experiência de ler quanto o próprio conteúdo do livro.

(Livros têm cheiro, e-books não. Já já falo de Mindlin e Kindle, essa rima sem solução.)

Fora o par de fundos de garrafa que lhe ornava o narigão – esbugalhando seu olhar, lhe dando um ar de espanto e desamparo miguilim –, Mindlin tinha à mão uma lupa. Empunhando-a como raquete de tênis, levantou, me cumprimentou; e, depois de me honrar com a exibição de sua biblioteca pessoal (os 40 mil volumes de sua Brasiliana já tinham sido doados à USP), acompanhou-me ao Capão Redondo – os guarda-costas seriam suas filhas Diana e Betty mais um segurança motoqueiro. Para uma reportagem da revista Trip, seu José conheceria a recém-estruturada Biblioteca Êxodus, sediada em um dos maiores bairros de periferia de São Paulo (1,2 milhão de habitantes), tocada pelo escritor Ferréz e pelo rapper Mano Brown. O encontro entre o autor de Uma vida entre livros e do escritor de Manual prático do ódio, mundos tão diversos, aconteceu numa tranquila (embora o traficante local tenha vetado o segurança, ex-cana, de subir o morro; o milionário Mindlin, que há pouco havia escapado de uma tentativa de sequestro, nem ligou).

O assunto girou entre Lima Barreto e João Antônio, admiração comum, e lembranças inusitadas. “O senhor sabe que tentei trabalhar na MetalLeve?”, disparou Ferréz, remetendo à indústria de autopeças da família do intelectual. “Mas cheguei lá e dei com a cara numa placa de Não Há Vagas.” Mindlin foi esperto: “Então a culpa por você ter virado escritor é minha, porque quem colocou a placa fui eu!“. Cordialidades à parte, nem a biblioteca de Mindlin nem a do Capão foram fotografadas. Seu José pediu que não se mostrasse sua coleção por temer “a soberba na comparação“; Ferréz invocou uma ordem de Mano Brown, que não queria ver as estantes da favela “numa revista de playboy“. A dupla negativa sugere que, mesmo se sua natureza for múltipla, pública e passível de bisbilhotice, bibliotecas são seres privados, cuja fruição se dá no olho no olho individual e intransferível de escritor para leitor.

Mais de 200 anos de leituras no clique de Renato Parada

Mindlin = mindlin

A morte de Mindlin ocorre no momento exato em que o Kindle e outros leitores eletrônicos de livros começam a participar da rotina de escritores brasileiros – como Rodrigo Lacerda, Sergio Rodrigues e Fábio Fernandes –, quando editores, jornalistas e tradutores passam a usá-lo profissionalmente; com a queda no preço, logo ficarão acessíveis a todo leitor. Aí uma Brasiliana poderia ser vista como uma dúzia de Kindles empilhados – afinal, o modelo DX armazena 3,5 mil livros.

Perspectiva profundamente equivocada“, refuta o escritor e editor Joca Reiners Terron. “Obras do século XVII em português arcaico pro Kindle? Never. Fora o valor (não exclusivamente intelectual, entenda: bibliofilia = $$$$$ inestimável).“, afirma Terron, que, no campo musical, não troca discos e vitrola pelo mais turbinado dos iPods. Apesar do muxoxo dos puristas, um apaixonado defensor da palavra impressa como Robert Darnton, diretor da biblioteca de Harvard, em A case for books defende a digitalização do universo, “que outros chamam a biblioteca”, no dizer do escritor, poeta – e bibliotecário – Jorge Luis Borges. No livro que sai por aqui em maio, Darnton afirma que, assim como a fotografia não matou a pintura e o MP3 revalorizou o vinil, os meios digitais acabarão por conservar o conhecimento que realmente importa, “filtrando” as obras de edição mais cuidadosa daquelas mais comerciais (e as florestas agradecem). Por outro lado, Darnton tem ressalvas quanto ao poder da Google em engolir todas as bibliotecas disponíveis: e se a empresa monopolizar o que deveria ser um bem público? Como proteger os interesses dos autores e editores? A Google deveria atuar como editor comercial? E se, ao transformar livros em bytes, ocorrer um bug que nos faça perder irremediavelmente obras inteiras?

Enquanto esse debate esquenta, por aqui nos detemos na sucessão de Mindlin. A vida e a obra do velho-menino é difícil de ser comparada, mas há colecionadores de peso que poderiam ocupar a vaga de bibliófilo-em-ação, como Pedro Corrêa do Lago, ex-presidente da Fundação Biblioteca Nacional, detentor de absurdo acervo de livros e documentos raros; Cleber Teixeira e Dorothée de Bruchard, da editora artesanal Noa Noa, de Florianópolis; Marcelino Freire e Luiz Ruffato, caçadores de primeiras edições de literatura brasileira. “No sentido pleno de um bibliófilo, que não se restringe ao acúmulo de livros mas socializa seu acervo, citaria Ubiratan Machado, autor de Dicionário de Machado de Assis, e o editor José Mário Pereira, da Topbooks, homem de grande erudição, dono de vasta e qualificada biblioteca“, indica o poeta Antonio Carlos Secchin, autor de Guia dos Sebos – ele mesmo elogiado por Mindlin pelo garimpo cuidadoso que hoje atinge 12 mil volumes.

O citado Zé Mário indica outros possíveis candidatos à sucessão bibliófila. “Manoel Portinari Leão é dono de preciosidades que deixavam o doutor Mindlin com água na boca: originais de Machado de Assis, Castro Alves, Guimarães Rosa, livros dedicados por Eliot, Proust… Há também o Fernando Fortes, que recentemente comprou uma primeira edição de Memórias póstumas de Brás Cubas como se novo fosse, e com dedicatória preciosa. O poeta Alexei Bueno, entre outros itens, tem a primeira edição de Mensagem, livro inaugural de Fernando Pessoa. Da turma mais jovem, vale citar Augusto Massi, editor da Cosac Naify, que tem vários livros raros que pertenceram a João Cabral. Agora, em termos de tamanho, uma das maiores bibliotecas do Rio é a de Evaristo de Moraes Filho,
da ABL, com mais de 30 mil volumes, sendo que uns 300 são livros raros sobre Goethe, em várias línguas
“, enumera o editor da Topbooks, um dos homens mais bem informados sobre livros no país.

Todos nomes muito credenciados. No entanto, convenhamos, não existe sucessor com a magnitude e carisma do fofo velhote (por que ninguém lançou um bonequinho de farinha com sua fachada?). Sendo assim, proponho que doravante, em vez de bibliófilo, se passe a usar termo mais simpático: o amante de livros será chamado de mindlin. Tenho certeza que, lá da grande biblioteca celeste, a idéia seria aprovada pelo seu José – o maior mindlin que já existiu.

Autor: rbressane

Writer, journalist, editor

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