Tudo azul para o tarja-preta

Perfilete do amigo Lourenço Mutarelli para o caderno Outlook, do Brasil Econômico

Mutarelli por Mutarelli
Mutarelli por Mutarelli

Romances, drogas e cartões de crédito

Como tem lidado com o reconhecimento o multiartista Lourenço Mutarelli, que lança dois livros e vive no cinema papel escrito por ele mesmo no romance O Natimorto

Mutarelli está feliz, hiperprodutivo, mas anda meio paranóico. Enquanto tenta reduzir o consumo do Lorax, tranqüilizante que o embala há 15 anos, mantendo diariamente uma Sertralina rebatida com meia garrafa de Chivas, estréia como protagonista em O Natimorto, filme baseado no romance homônimo, e lança Miguel e os demônios, trama policial que equilibra em doses iguais múmias, travestis, possessão e pedofilia. Contudo, não são as drogas nem as insólitas obras que lhe trouxeram mania de perseguição – e sim a fama, inusitada aos 45 anos deste desenhista/escritor/ator.

A quem se espante com a naturalidade em tocar no assunto drogas, Mutarelli é ambíguo. “Não faço apologia. É uma questão pessoal, de saber usar. A droga faz parte da minha vida”, afirma este ex-gerente de farmácia, fã do notório drug abuser William S. Burroughs. Já a fama, este poderoso estupefaciente, ele diz manter sob controle estrito. Mas se o recente sucesso não embriagou o artista paulistano, causou estrago nas finanças. Em 2000, Mutarelli vivia com um salário de R$ 300, saía de casa duas vezes por mês, vivia no Itaim Paulista. Hoje mora na Vila Mariana, guia um carro novo, tem livros filmados, muitos projetos, obras lindamente editadas – e uma fúria consumista por cultura, que o jogou nas garras dos cartões de crédito. “Entrei o ano no vermelho, só consegui zerar minhas dívidas em julho”, conta. “Nunca me deslumbrei com a melhora financeira, mas aumentei muito os gastos com livros, CDs, filmes… É que na época da dureza ir ao cinema era um programa anual: só ia no aniversário de namoro!”, ri.

Para além de temas de sua narrativa, drogas e distúrbios psíquicos são mesmo responsáveis pela estrutura das obras mutarellianas. Houvesse uma linhagem na literatura brasileira dando conta de um interesse psiquiátrico (e não psicanalítico, perceba), Mutarelli ali estaria, ao lado de gente como Qorpo Santo, José Agrippino de Paula, Maura Lopes Cançado, Lima Barreto e o recentemente desaparecido Rodrigo de Souza Leão. Ele aceita a estirpe. E vai mais longe: “Acho que até mesmo a própria manifestação artística é uma expressão de distúrbio psíquico. Há quem aceite esse distúrbio e se torne artista. E há quem não consiga lidar com essa força”, sugere Mutarelli, indicando o próprio irmão como exemplo. “Investigador de polícia como o meu pai, ele não segurou a onda do que viu no trabalho. Hoje está tratando a esquizofrenia”, conta o artista – que revela ter escutado do irmão muitas das histórias encarnadas pelo investigador Miguel, de Miguel e os Demônios.

Contudo, Mutarelli não se limita a adaptar horrores alheios à sua escrita. Também folheia avidamente ensaios como os de Alice Flaherty, uma pioneira no entrelace literatura/psiquiatria (como se percebe no excepcional capítulo “Hipergrafia”, que se pode ler na Serrote #2, excerto de The midnight disease). E está sempre de olho nos desvarios catalogados no DSM-IV, a bíblia da sociedade norte-americana de psicopatologia. Não à toa romances como O Natimorto enfileirem velhos conhecidos dos homens de avental branco – folie à deux, psicose maníaco-depressiva, compulsão obsessiva, mania de grandeza e outras doces esquisitices.

O homônimo filme de Paulo Machline, que se distancia do humor negro do livro para dar a uma estranha história de amor um tom trágico, foi ovacionado no Festival do Rio. Até então, Mutarelli tinha rodado alguns curtas e se preparava para estrelar uma minissérie na Globo. A boa acolhida d’O Natimorto e o sucesso de O cheiro do ralo, de Heitor Dhalia, adaptação do primeiro livro, fez pensar que deslancharia a tardia carreira de ator. Ele desdenha: “Nunca mais vou atuar! Imagem toma conta de tudo. As pessoas que antes te tratavam mal agora tratam bem, e detesto bajuladores“, chia. A pior chegada foi num cinema: “Estava no banheiro quando um cara me estende a mão. E eu ali com as mãos ocupadas… Que situação!”, diverte-se. “Ando com vontade de sumir”, promete.

Assim, tão cedo Mutarelli não sai do estúdio. Depois de cinco anos longe dos quadrinhos, voltará ao romance gráfico com a história de um velho decadente que tem uma experiência com ETs. Finaliza E ninguém gritava na ponte, livro ambientado em Nova York, sobre um triângulo amoroso formado por pai racista, filho bobo e sua namorada negra. E rabisca Nada me faltará, narrativa sobre um sujeito desmemoriado que perde mulher e filha durante uma viagem. “Um romance bem experimental”, resume Mutarelli, que não teme o possível aburguesamento que a fama traz. “Vivo fácil no osso. Ruim mesmo seria se a profissionalização afrouxasse minha arte”, analisa. A se fiar pela hiperatividade, um risco tão remoto quanto o do artista perder de vista os amados remedinhos.

Autor: rbressane

Writer, journalist, editor

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