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O pai do fim do mundo


Sob um céu eternamente cinza, um homem e seu filho viajam do nada ao lugar nenhum. Passando por paisagens desoladas, passam frio, brigam por comida, fogem de canibais – e tocam com profundidade alguns dos mistérios em seguir vivo. Com The Road, Cormac McCarthy ganhou o Pulitzer de 2007.Em outubro, a narrativa – a exemplo de outro livro de McCarthy, No country for old men – estréia nos cinemas. Como a direção é do australiano John Hillcoat, craque em paisagens desérticas (é dele o pós-faroeste The proposition, filmado a partir de um argumento do amigo Nick Cave) e o ator principal é o poeta Viggo Mortensen, coadjuvado por gente como Charlize Theron e Robert Duvall, não parece exagero profetizar que o apocalíptico filme se torne um kit de Oscars – a exemplo de outra história original de McCarthy enquadrada pelos Irmãos Coen.


Nascido em 1933 em Rhode Island, o escritor, que costuma ambientar suas narrativas secas nas planícies idem entre sul do Texas e norte do México, tem sido a salvação da lavoura do faroeste. Todos os elementos do gênero estão em seus livros: a obsessão pela honra, a lealdade entre os homens, o mundo como um lugar dominado pelo Mal, a esperança como última qualidade humana. Tudo isso está extremado no romance que no Brasil saiu pela Alfaguara sob o título A estrada. Em entrevista a Oprah Winfrey, ano passado – em que a apresentadora transformou o premiado mas obscuro escritor em best-seller –, Cormac revela que teve a idéia do livro quando ele e o filho de 4 anos estavam num hotel de El Paso, Texas. Enquanto o menino dormia, o escritor olhou pela janela e imaginou como a cidade pareceria em 100 anos. Pensou na solidão dele e do filho e viu El Paso com seus fogos acesos na distância como algo absolutamente destruído, morto. Ali estava uma história sobre o fim do mundo.

Cormac McCarthy no clique de Jim Herrington

Cormac McCarthy no clique de Jim Herrington


Não quero dinheiro

“Fora isso, é só um livro sobre um homem viajando com seu filho”, resumiu. E pouco mais Cormac revelou na entrevista, das raras que concedeu em vida: “Escritores devem escrever, não falar”, manda. Nascido Charles, o autor rebatizou-se sob a forma gaélica de seu nome, homônimo de um rei irlandês do século III, Cormac Mac Art. Casado três vezes, dois filhos, passou 4 anos na Força Aérea, dois deles no Alasca; viveu 3 anos na Europa, especialmente em Ibiza, onde finalizou seu romance Outer dark; foi mecânico, criador de porcos e fazendeiro. De poucos amigos, prefere a companhia de cientistas – gosta de visitar o Santa Fe Institute em Novo México, organização que reúne pesquisadores em economia, tecnologia e ecologia, para “entender como as coisas funcionam; isso me ajuda a escrever”.


Cormac não usa computador: prefere uma Olivetti Lettera 32 – ali batucou dez romances, que hoje o colocam ao lado de Thomas Pynchon e Philip Roth no mais alto grau da literatura norte-americana. Um desfecho lógico para quem, entre escassas palavras, disse que a prioridade sempre foi a literatura. “Nunca me interessei em ter dinheiro. A vida é breve e fazer o que alguma outra pessoa quer que você faça não é um jeito de viver.” Assim fala um pistoleiro solitário puro-sangue.

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