Filhos de Duchamp na Vila


Artigo previamente publicado aqui no Impostor, agora republicado na revista Simples

Afinal, essa merda é arte? A frase-clichê aparece de tempos em tempos – talvez um dos picos de seu uso tenha sido quando Duchamp lançou urinóis e monociclos aos leões da crítica e do público. Enquanto o enxadrista franco-canadense é canonizado pelos brasucas nos 60 anos de MAM – depois de babar no urinol logo estarão batendo palma pra extintor de incêndio e dando bom-dia a cavalo… -, seus verdadeiros seguidores são pixados. Ou pichados. Enfim, com xis ou ch [não há consenso], a pixação ganha a primeira exposição coletiva em São Paulo neste sábado, na Psicodelia Rústica, Vila Madalena [onde mais?].

Parece meio besta chamar de exposição coletiva a Expo Evoluímos. Certamente deve ser metida a besta para os próprios senhores pixadores. Acontece que, na sala organizada pelo Flávio Gianotti – um dos sócios da loja de streetwear sob a galeria, onde também funciona um estúdio de tatuagem, ele próprio um pixador – estão reunidas cerca de 110 pessoas. Sim, imagine uma sala de 12 metros quadrados com 110 obras… à primeira vista, é estranho. Afinal, as 4 paredes totalmente pixadas – cada pixo em um espaço precisamente determinado de 10 X 50 cm – estão do lado de dentro da casa. Há uma janela gradeada, o que proporciona uma curiosa interação com as pixações que podem ser vistas nos prédios da rua Purpurina – uma inscrição, na esquina com a Girassol, tem assinaturas de vários participantes dessa Expo. Um deles morreu, caindo do terceiro andar.

Não raro pixadores saem desta pra outra no caminho para o audacioso gesto. Conheço um cara no Rio que, fugindo dos gambés, caiu atravessado numa lança de portão [escrevi a história neste conto aqui]. Flávio me afirmou conhecer um cara que continua pixando mesmo agora, na cadeira de rodas. A polícia já matou alguns. Boleta, hoje famoso grafiteiro, teve um revólver apontado na cabeça por um PM que curtia fazer roleta-russa com pixadores destrambelhados. Flávio lembrou a história de um amigo de Pinheiros que foi pego por ladrões quando foi pixar um desmanche em Parelheiros. Os manos resolveram se divertir com o moleque e, pra lhe dar uma lição, resolveram serrar seus dedos. O garoto gritava tão alto que atraiu a atenção de policiais. O pixador já começava a se aliviar quando viu os gambés cumprimentando os bróders bandidos… pra sua sorte, eles o liberaram [quase sem um dedo].

Pra que isso? Pela adrena de escapar, de não ser pego? Para meu espanto – e ecoando um sentimento estranho dentro daquela cela com 110 inscrições – , Flávio sugere: “Tem um lance místico em pixar”. E não é que deve ter mesmo? A idéia de violação, de vandalismo, de transgressão, de conquista de um território – tudo condensado num instante fugaz, na direção de um gesto único, um movimento preciso em que se inscreve na parede o próprio nome: estive aqui, você não pode mais mudar isso, e você não pode me pegar.

Não é arte o nome disso?

E isso não custa nada. É um ato tão gratuito quanto grátis. Ninguém ganha nada na arte do pixo – a não ser talvez notoriedade em seu meio, uma subcelebridade dentro de uma subcultura underground, advinda da conquista de um espaço difícil, uma realização heróica: o último pavimento de um prédio de 20 andares, a totalidade de fachadas em um quarteirão, todos os hidrantes do lado esquerdo de uma rua, uma delegacia de polícia, uma igreja, uma loja hippie chic, uma faculdade maurícia, um condomínio playboy.

Aquela apocalíptica caverna com 110 nomes, inscrições de apelidos ou de gangues, ideogramas quase indecifráveis, caligrafias aparentemente semelhantes porém com sutis variações, estabelecendo um léxico gráfico próprio – o pixo de São Paulo é, por exemplo, muito mais angulado, gótico, comprido e esguio que o pixo carioca, arredondado e suave – está lá dizendo alguma coisa estranha sobre a arte. Uma cela lotada de inscrições pós-rupestres, preto sobre branco, contém o grito de vários indivíduos: estamos aqui. Ouçam. Muito embora alguns deles não estejam mais ali na verdade – mortos, são representados por amigos, por suas gangues.

Há gerentes de banco, carteiros, motoboys, pequenos meliantes, maloqueiros puros, pipoqueiros, skatistas, tatuadores, pintores e até alguns grafiteiros conhecidos [como NÃO, Flip, Zezão e Boleta – não, grafite e pixo não é a mesma coisa]. Gente de todas as zonas da cidade. Juntos, representam uma performance anarquicamente gráfica de São Paulo em todas as suas manifestações, do terror ao humor. Espelham a feiúra e o caos paulistanos, porém também a sua [nossa] estranha gana por acumulação, multiplicação, posse. Que pode de repente desaparecer sob uma simples camada de tinta – fugacidade marca de uma cidade vorazmente fascinada pela idéia do auto-esquecimento.

Cada parede pixada é um vazio que passa a significar. O que era um não-espaço ganha sentido. Lá no começo do século, um franco-americano meteu um insignificante urinol numa exposição, transformando-o numa fonte de idéias. Talvez as paredes pixadas de São Paulo somente adquiram sentido por causa daquele conceitual urinol. Talvez as 110 inscrições da Psicodelia Rústica um dia estejam encapsuladas em um coffeetable book da Taschen, vestido a 10 mil libras, enfeitando salas de estar bacanas [editado pela chique Pinky Wainer, custa R$ 68 a agenda do Boleta, Tsss]. Mas aí talvez, despida de seu gesto fundador, também essa arcaica e libertária arte, mumificada no couchê alta alvura, se torne o que parecia a olhos pouco inspirados – mero ruído na paisagem. Uma merda qualquer.

A Expo Evoluímos abre este sábado, às 3 da tarde, na Purpurina 207, e fica até setembro [ou para sempre… o Flávio ainda não decidiu o que fazer com as paredes depois].

Autor: rbressane

Writer, journalist, editor

7 thoughts

  1. Bravo! Aproveito pra convidar pro lançamento de outra história já longa no mundo do traço, a revista Graffiti, made in Minas, dia 24, HQMix, pça roosevelt, 19h

  2. Discutir o que é arte nesta altura do campeonato é meio trash mesmo, lembro de um amigo da faculdade de “cinema” que dizia odiar arte moderna, e eu ficava indignada, tipo, lhufas, o que fazes aqui? rs. Mas, enfim, os caras se manifestam, registram e não ganham nada, parecido com qualquer artista neste país. Adorei o texto, a dica…ps: o Zezão eh massa!

  3. Genial. Puta visão bacana sobre a pichação. Eu confesso que não tenho opinião formada sobre o assunto. Não que a gente precise ter. Talvez baste apenas concordar que é uma faceta dessa cidade, e da gente. Parabéns.

  4. finalmente não me sinto só!
    já estudo a pixação em geral há alguns anos e é difícil achar pessoas na mesma sintonia.
    parabéns!
    queria perguntar inclusive se vcs não tem algum contato do boleta, quero elaborar algumas oficinas e palestras mas não acho nenhum contato pra pedir orçamento!
    obrigado!

  5. éa pixação evoluindo rapaziada,dai pra melhor,estamos ganhando espaço,queira os playboy os não,a pixação ja se autodenomina como arte
    aqui é pixador desde 1989 e passei por varias coisas nas ruas de sampa,estou escrevendo um livro,quem se interessar por favor entrar em contato no meu email,valeu juk pela exposição foi massa essa

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