Máximas de Jorge Cardoso


Apostar nos outros é querer perder rápido.

Em uma festa, uma sueca queria praticar espanhol comigo – ela era quase anã. Eu não falo espanhol. Mas quando eu falei que havia encontrado o diabo na Inglaterra o sol que refletia na parede se apagou misteriosamente. Quando eu falei do diabo de novo o sol voltou. Ela bateu palmas – mas quando eu perguntei pelo número do telefone, disse que não. Hablamos mañana – ela disse e virou de costas.

Queria que existisse um médico que me consertasse por inteiro. Até hoje, como um monstro de cemitério, nem posso dizer que fui consertado. Fui remendado aos pedaços. Sendo mais preciso o quê que você quer? – me perguntaram. Não acredite, mas eu queria o que qualquer idiota tem: uma mulher.

Eu conheci um cara que nasceu em uma caçamba de lixo. Ele me disse que a mãe dele falou assim: “Agora que já tem trabalho, se vire, é contigo!”. E assim a gente fica trabalhando e pagando as contas, trabalhando e pagando as contas, sempre. Porque assim é a vida.

Imensidão? Imensidão? A ti me entrego, não ligo mais para porra nenhuma. Ninguém responde. E o sinal de ocupado no outro lado da linha – falei com estruturas matemáticas e barulhos elétricos, aquele sinal de ocupado e continuei falando comigo mesmo.

Hoje eu conheci um modelo. Um rapaz. Ele trabalha comigo nos correios. O quê que um modelo está fazendo trabalhando nos correios? Eu não sabia que ele era um modelo, apesar de ser magro, até decidirmos beber em um bar perto de um rio. “Eu nunca contei isso para ninguém” – ele me disse que havia falhado na carreira de modelo porque não conseguia parecer feliz quando pediam para que ele parecesse feliz em certas sessões de fotos. “Besteira”, eu disse. “Se me pagassem eu dava cambalhotas. O que a sua família faz?” – por instinto sempre traço a árvore dos genes. “Meu pai é ministro” – ele me disse. “Ministro?” Me levantei, e acendi um cigarro enquanto o rio carregava umas folhas.

Nos correios, uma mulher disse não acreditar em Deus, não ter Deus, e que gostaria de deitar e morrer. Notei o rosto dela ficando vermelho e nervoso. Eu então troquei o nome de Deus, a casa de Deus e lhe disse. “Dentro da minha cabeça, no fundo da minha cabeça existe um rio de águas negras, mais negras do que todos os pântanos e dentro dessa água na corrente caudalosa e lânguida, uma serpente quase uma sombra, robusta, se move – entre superfície e fundo. Esta serpente eu chamo Jesus Cristo. E eu vez por outra bebo desta água negra.
Então eu disse:
– O que você tem para me oferecer?
– Como?
– Eu sou completamente sozinho. O que você tem para me oferecer?
Depois de um tempo de silêncio, a resposta que eu esperava – ela disse:
– Nada.
– Mas eu tenho para te oferecer… um pouco da água negra de dentro da minha cabeça.

Eu não completo nada. Tudo até o fim da minha vida estará por fazer. Nenhum texto está acabado, nunca. Eu não termino um desenho, uma pintura, mesmo em guardanapos. A educação do meu filho, nem a minha, o Eu por preguiça e vontade – parte essencial do que eu sou – não termina nada.

A criança, toda criança, habita o paraíso por seis anos. Depois é uma descida vertiginosa ao inferno, vamos caindo e batendo, e em cada pedaço de pedra vez por outra encontramos uma brisa que refresca. E rimos.

Jorge e seu filho Noah - entre eles, os mojos O Boneco e A Criança
Jorge e seu filho Noah - entre eles, O Boneco e A Criança

Autor: rbressane

Writer, journalist, editor

9 pensamentos

  1. Oi Jorge, quando você virá ao Brasil? Encontrei aqui vários textos que vc me deu prá guardar…Estou com saudades. Noah está lindo! E enorme. Lulu está morando sozinha e gravou um cd. É cantora de metal. Ela é cantora lírica. Me mande um email para nos falarmos mais! Bjs, Clau

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