‘Sem memória não há alma’ [Eco]

Sem aquele caderno, era possível [tal como acabava de acontecer] eu esquecer com quem havia falado, e o que fora dito, até mesmo na véspera, e o que alguém ficara de fazer para mim no dia seguinte. Nos últimos três anos, eu havia acumulado vários cadernos desse tipo, desde o dia em que me dei conta de que minha memória não era mais de todo confiável, quando um branco como aquele era um incômodo ocasional e eu ainda não havia compreendido que o processo de esquecimento era algo progressivo, e que se minha memória continuasse a se deteriorar no ritmo dos últimos anos, minha capacidade de escrever , poderia ficar seriamente prejudicada. Se um belo dia eu pegasse a página escrita na véspera e não me lembrasse de que a havia escrito, o que fazer? Se eu perdesse a relação com minhas páginas, se não conseguisse mais escrever um livro, nem mesmo ler um livro, o que seria de mim? Sem meu trabalho, o que restaria de mim?

Philip Roth, Exit Ghost

Autor: rbressane

Writer, journalist, editor

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