[Quase] obra-prima

O novo desenho da Pixar, WALL-E, é uma fábula de alerta ecológico, uma história de amor e amizade entre dois robôs e, ao menos em sua primeira meia-hora, provavelmente a mais triste animação jamais feita.

A paleta de cores naquela seção inicial, um mosaico de cinzas marrons difusos numa luz solar empoeirada, fala de solidão e de uma desesperada vontade de viver enfrentando um futuro vazio. Na segunda metade, WALL-E fica menos lírico e mais satírico, mesmo quando sua ironia é surpreendentemente aguda.

No fim, porém, WALL-E já se tornou outra coisa: um filme tão determinado em encerrar num tom de felicidade [ou pelo menos um tom de ‘ok’] que acaba por trair a triste e sutil beleza daquelas cenas iniciais. O diretor Andrew Santon – o homem por trás do enorme sucesso de Procurando Nemo – provavelmente não quis ser um desmancha-prazeres: “A gente não pode mandar todos esses bebês pra casa assim jururus, pode?”.

Só que isso faz o filme parecer estranha e decepcionantemente mal-ajambrado – algo que começa como poesia e termina como produto.

A agridoce resenha da Stephanie Zacharek, que assino embaixo por absoluta preguisss e falta de tempo pra escrever, segue na nova edição da Salon, aqui.

Mas, pra temperar a ranhetice de dona Zacharek… lembre-se que, enquanto Kung Fu Panda bajula a audiência obesa – bem como a maioria dos desenhos atuais [hoje é o milho que banca a celulóide, e não o contrário], WALL-E a satiriza – e propõe: um pouco de ação pode tanto eliminar as banhas quanto trazer de volta certa humanidade. Por outro lado, é um pouco assustador observar que, daqui a 700 anos, a elite obesa herdará a Terra…

Outro dado curioso é toda a produção ser ‘assinada’, bem depois dos créditos, pela BNL, a hipercorporação corrupta que transformou a humanidade numa massa encéfala controlada por máquinas. Isso não deixa de ser uma piscada de olho para os pais que foram levar seus filhos ao cinema – antes que eles já saiam alucinadamente procurando brinquedos baseados na franquia.

Uma animação quase muda, de direção de arte e sound design perfeitos, cujo registro começa melancólico, se torna irônico e muda para esperançoso, encerrando-se com uma nota sarcástica… não deve ser fácil realizar isso dentro de uma corporação ultraconsumista como a Disney. No entanto, no fundo, a produção reafirma o velho mito norte-americano, atualizando a fronteira oeste na Terra devastada: o anti-herói solitário e feio [um PC 286?] que, lutando contra tudo e todos, beija a mocinha gata [um MacBook?] e vira o salvador da humanidade.

Contrapondo-se a essa ingênua tese, a safada aparição final do logo da BNL sintetiza: um pouquinho de venalidade não vai perturbar nosso romantismo. A Pixar, um vírus rebelde habitando confortavelmente as entranhas da Disney, lembra que vivemos tempos em que a hipocrisia é o modus operandi. It’s all about showbiz: do amor, herdarás só o cinismo.

> Mais críticas aqui.

Autor: rbressane

Writer, journalist, editor

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