A redenção dos ruminantes

Shhh
– Quê que foi?
– Por favor, o filme já começou, vocês podem ficar quietos?
– Como é que é?
– Que absurdo!
– Shhh, a gente quer ouvir o filme…
– Vem calar!
– Que idiota!
– Velho, quer conversar, vai pra tua casa, pô! Se liga!
– Ah, quer dizer que não pode conversar aqui agora?
– Mas que demente!
– E ainda acha que dá exemplo de educação pro filho!
– Imbecil!
– Shhh…
– Óinc! Óinc!

Só me restou trocar o olhar espantado por uma gargalhada aberta à família de pneumáticos que insistia em falar alto ao meu lado e do Lorenzo, enquanto mastigava com todos os amarelados dentes cerca de três quilos de pipoca. Por certo não seria bom exemplo pro meu filho dar um banho de pipoca nos kurkovos [já fiz coisa pior – embora não me orgulhe -, mas prefiro estar sozinho]. Então coloquei o zen state em mode ON e caí na nova animação da Disney, Kung Fu Panda.

Bom, o roteiro em si não tem nada de mais. Troque um Karate Kid por um panda e dá na mesma, todo aquele papo budistóide de mestre e gafanhoto etc. Também nenhuma piada é especialmente brilhante. O que vale mesmo é a animação – principalmente na abertura e no fim, de inspiração declarada e bidimensionalmente oriental. Lindo. Há também uma cena sensacional entre o Panda e seu mestre lutando com hashis por um bolinho gyoza. E só.

Mas intrigante é a mensagem da Dreamworks. Além de adular escancaradamente o público chinês em ano de Olimpíada, a produça puxa o saco do tipo de audiência que mais grassa nos cinemas: os grossos – a exemplo da família pipoquenta que nos encheu os pacovás com seus comentários burros [em vez de deixar a filha entender o filme sozinha, insistiam em legendá-lo].

O herói da animação é um gordinho mala, que, solitário, enche o bucho com os rangos que o pai [um pato…] inventa na cozinha. Por ser vidrado em kung fu, insistente e fofinho [porra, é um panda], acaba virando uma espécie de super-herói libertador que salva a aldeia das garras de um tigrão musculoso e arrogante. O panda sintetiza o espectador-padrão contemporâneo. Sua redenção é a redenção de todo fofucho, comilão, pentelho, humilde e lambe-botas. É um exemplo perfeito de adequação total do produto ao consumidor.

O público que vai aos cinemas ver filmes infantis é majoritariamente formado por adultos obesos ruminantes que mastigam milho sem parar enquanto arrotam e peidam Coca-Cola, as bocas, falantes ou mascantes, sempre abertas. Na real, se liga: esse é o público majoritário que vai ver QUALQUER filme. A alternativa pra não cruzar com essa sub-raça é ir aos metidos Reservas Culturais da vida ou tentar as salas nas segundas-feiras à tarde [só vão velhinhos, que, com medo de perder as dentaduras, cambiam pipoca por silenciosos confeitos]. Ou comprar uma tela bem grande e jamais sair de casa.

Tem uma alternativa melhor, à Tyler Durden, mas não é muito recomendável

Autor: rbressane

Writer, journalist, editor

One thought

  1. tem uma crônica do vinicius que fala sobre barulho no cinema. li há uns dez anos, nem lembro o nome.. mas ele fala que tem gente que acha que desembrulhar o papel de bombom beeeeem devagarinho é uma coisa boa, quando é mais irritante ainda! haha
    =)

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