Azul de fome

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Por que não existe comida azul? Essa pergunta ficou no passado. Com o sucesso da antocianina, antioxidante que azuleja as supersaudáveis blueberries e promete vida longa, no futuro todo rango que se preze pode ser azulzinho como o amor de Djavan. [Texto pra garantir o leite da criança, costurado na Trip do mês]

“Então eu vou ficar cego, porque não existe comida azul.” Foi com seus olhos implacavelmente azuis que meu filho de cinco anos venceu o caô que inventei para tentar fazê-lo comer. Segundo minha revolucionária dieta das cores, para um moleque ficar forte, teria de ingerir todas as peças do prato, cada uma equivalente à cor de um órgão – tomate pro sangue, carne pros músculos, mandioquinha pro pâncreas, feijão pro intestino, rúcula pro estômago, arroz pra pele e batata pro cabelo (ele é louro).

“E por que não tem comida azul, papai?”

Dammit. Por que as crianças fazem as perguntas mais difíceis bem na hora do almoço? “Não tem porque… porque não tem, ora. Come antes que esfrie.”

“‘Porque não’ não é resposta.”

Se já tinha sido complicado explicar por que o céu era azul – faz uns vinte anos que deixei o ensino fundamental –, imagine o motivo pela ausência de alimentos na mais melancólica das cores. Não tinha a menor idéia, pô. Lembrava vagamente de uma obsessão do colega Armando Antenore com isso (espero que o bravo jornalista não tenha curado sua fixação à base de uma dieta com Viagras).

“Bom. Tem uva…”

“Uva é roxa. Ou então rosa! Não é azul. Eu vou ficar cego! Eu vou ficar cego!” E saiu da mesa. Dammit. Será que vou ter de misturar M&M’s azuis ao rango do Lorenzo para fazê-lo comer mais?

Radicais livres go home
Na verdade, azul foi a última das cores a se tornar um M&M, sete anos atrás. Foram gastos milhões em pesquisas de marketing, estudos de branding e, imagino, consultoria em feng shui para espantar um possível fracasso de vendas. É que, assim como vermelho dá vontade de comer, e amarelo, de jogar o prato fora (por isso o MacDonald’s usa essa paleta), a pacífica cor azul é um clássico supressor de apetite. Teóricos do emagrecimento sugerem que se você meter um bistecão sobre um prato azul não vai chegar à metade. Outro truque para os gordinhos dietantes é ligar uma lâmpada azul na geladeira para entristecer a fominha noturna, ou colocar as luzes da sala de jantar into the blue. Mas por que essa cor seria um afasta-larica?

Simplesmente porque comidas e animais azuis (não estou falando no Bidu) são quase inexistentes. A razão é o velho e bom darwinismo. O azul é associado ao ph alcalino, enquanto que a maioria da vida orgânica é básica ou, amiúde, como canta o Chico Buarque, amarga. Milhões de anos atrás, o que havia de azul, púrpura e negro na natureza estava envenenado ou estragado. Essas cores certamente não trariam água na boca de nossos avós chimpanzés. Portanto, o azul é algo que o hipotálamo – o dono do apetite – nem tchuns.

Tudo bem, há os queijos azuis – o italiano, gorgonzola, feito com leite de vaca, e o francês, roquefort, com leite de ovelha. Mas o azul ali é do mofo, penicilium, que traz o sabor característico. Existe também o blue steak, bifão texano que deixa à mostra os veios da carne azulados de acordo com a temperatura de cozimento. A kale, um repolho siberiano rico em vitamina A que de uns tempos pra cá virou vip nas saladas bacanas. Azul de nascença é a batata azul escocesa, descoberta há um século porém há só uma década causando na Inglaterra (claro, lá eles nem reparam direito no que comem). É ótima frita ou em purê. Seu indigo blue vem da antocianina, poderoso antioxidante que combate os radicais livres, moléculas instáveis cujo processo de degeneração está ligado ao câncer e ao envelhecimento.

Azul é o novo preto
A antocianina está ainda em algumas berries (bagas), como as raspberries (framboesas) mexicanas ou as blackberries (amoras) e ainda as blueberries (mirtilos) norte-americanas. São plantas originárias de clima frio: há somente sete anos começou-se a plantar blueberries no Brasil, em Campos do Jordão (SP). Pesquisas de 2002 apontam a wild blueberry como a próxima rainha da cocada-preta dos cardápios – embora a torta de blueberry não seja o prato mais vendido no bistrô do Jude Law em My Blueberry Nights (me recuso a citar o cretino título em português).

Fora o combate ao envelhecimento, a antocianina encara males cardíacos, arredonda o tratamento de tumores e até refresca a memória de curto alcance. Como fruta mais rica em antocianina, a baga selvagem tem três vezes mais antioxidantes que o espinafre, o que pode fazer do doce favorito de Norah Jones (no longa de Wong Kar-Wai, uma metáfora do amor desprezado) um hype total nas mesas dos obcecados em atrasar a própria morte. Afinal, há algo mais cool que azul?

Caso estejam corretos “os especialistas” – essa volúvel e suspeita raça –, em breve supermercados e restaurantes serão invadidos pelo tom azul e o sabor cítrico das berries. No futuro, tal como o chiclete perfeito criado por Willy Wonka na Fantástica Fábrica de Chocolate (que juntava uma refeição completa, mais sopa e sobremesa, e não acabava nunca), as comidas mais sensacionais serão azuis. Talvez nem seja preciso colocar corante na comida como se faz no musubi, um sushi havaiano em que o arroz é azulzinho feito o amor de Djavan. Fora, Adrià: blue is the new black. Lasanhas azuis. Hambúrgueres azuis. Agriões azuis. Pizzas azuis. O Lorenzo vai ver!

Autor: rbressane

Writer, journalist, editor

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