Assassinômetro

Como aconteceu com o primeiro jornal, o primeiro rádio e a primeira sinagoga da América do Sul, a inovadora Recife tem desde a manhã desta quarta-feira (30) o primeiro contador de homicídios de rua – do mundo. A iniciativa é uma parceria do PEbodycount e da Faculdade Maurício de Nassau. O equipamento eletrônico fica na esquina das Ruas Joaquim Nabuco e Guilherme Pinto, nas Graças; é atualizado uma vez por dia e dará o número de registros de homicídios no dia, no mês e no ano.

Repercussão internacional: violência no Recife é notícia em mais de 30 jornais mundo afora

Desde a última sexta-feira, os leitores do Miami Herald, do Los Angeles Times, do Chicago Tribune e de dezenas de jornais dos Estados Unidos e de outros países estão podendo constatar um pouco do dia-a-dia na capital mais violenta do Brasil. Segue matéria do repórter Michael Astor, da Associated Press:

RECIFE, Brasil.

Com o olhar perdido no vazio, Inês Maria da Silva descreve, em frente ao seu barraco, como perdeu seus cincos filhos para a violência que coloca o Recife como a cidade mais violenta do Brasil. Seu primeiro filho morreu há 15 anos em uma briga por uma garota. Outro por tentar impedir que um tarado fosse morto em frente à sua casa. O terceiro foi esfaqueado em uma discussão com um amigo. O quarto foi morto a tiros confundido com um ladrão. O que restava, caiu abatido por uma bala perdida enquanto brincava Carnaval no ano passado.

“Só quero que me digam: por que ninguém é punido?”, afirma a viúva de 68 anos, que agora cuida de seis netos e três filhas desempregadas e recolhe lata, garrafas e lixo para alimentar seus porcos, na Favela do Coque. “Tem gente que mata só por diversão”, explicou da Silva. Dois dos homens que mataram meus filhos são meus vizinhos. Se eu tivesse para onde ir, já teria partido há muito tempo”

Esta cidade litorânea, preferida dos turistas europeus, recebe muito mais atenção pelos ataques de tubarão que mataram 18 pessoas desde 1992 que pelos homicídios, pelo menos 2.617 na região metropolitana, no ano passado. Ainda que se advirtam os turistas para que não levem objetos de valor para as praias, da mesma forma que na maioria das cidades brasileiras, pouco se diz sobre a taxa de homicídios, principalmente porque a violência se restringe às zonas pobres.

As violentas disputas entre traficantes no Rio de Janeiro ganham as manchetes internacionais. Enquanto que esta cidade, de um milhão e meio de habitantes, tem uma taxa de homicídios de 90,9 para cada 100 mil habitantes, mas do que o dobro do Rio, segundo o Mapa da Violência da Rede Tecnológica da América Latina.

Atualmente, um grupo de repórteres policiais locais trabalha para mostrar o custo humano dessa violência. “Durante os últimos dez anos estamos escrevendo a mesma história, o que muda é o nome das vítimas, dos assassinos e das autoridades que dão a desculpa do momento”, explica João Valadares. “Isso só vai mudar quando toda a sociedade se mobilizar contra essa situação, não apenas quando a violência bater na sua porta e sim quando todos se conscientizarem que são seres humanos sendo mortos”.

Valadares e três colegas lançaram o site http://www.pebodycount.com.br com números atualizados de assassinatos no estado de Pernambuco. No dia 21 de abril, o contador alcançava 1.403 casos e seguia subindo. Os jornalistas estão associados a outro site que utilizada a tecnologia do Google para marcar o local de cada morte com uma bandeira vermelha.

O grupo também usou tinta vermelha para marcar os locais de assassinatos no Recife durante um mês. No próximo dia 30 de abril, planejam inaugurar um contador eletrônico em uma das vias mais movimentadas do Recife, a Rua Joaquim Nabuco, que irá somando o número de vítimas, assim como o site PEBodyCount.

Autor: rbressane

Writer, journalist, editor

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