Uma árvore de concreto

Unknown Pleasures

São filmes irmãos. Control, de Anton Corbijn, e Joy Division, de Grant Gee. O primeiro diretor é um dos grandes fotógrafos do rock [U2, Depeche Mode, o próprio JD] e o segundo, responsável por um belo doc sobre o Radiohead [Meeting people is easy]. O primeiro longa é p&b e o segundo é colorido. Isso posto, um filme é o negativo do outro.

Em Control, Corbijn realiza algo simples, mas quase impossível: uma cinebiografia sóbria de um astro do rock. Talvez por ter realmente sido próximo da banda de Manchester – são dele as imagens mais clássicas do JD – , a câmera do holandês está sempre íntima de cada personagem. Nota detalhes do rosto, gestos, silêncios, espaços vazios, tempos mortos. Em comparação com a cinebio de um ancestral de Curtis – Jim Morrison, via Oliver Stone – , o filme é quase carola.

Bom, Curtis era um carola. Embora no palco fosse um punk possuído por um soldado nazista em chamas – em JD, um crítico de rock aponta que ‘a performance de Curtis era como a de uma marionete que se dilacerasse pelo público’ -, Curtis, moço bem-casado com crise de consciência por trair a esposa chata com uma gata belga, era um artista apolíneo. Basta ver a perfeita simetria de suas letras, escritas num inglês digno de Donne.

O frio do ar-condicionado no talo do CineSesc me fez lembrar de como me espantei a primeira vez que ouvi JD. Era ‘Atmosphere’, uma das 5 músicas mais perfeitas que existem, a rádio era a Ipanema de Porto Alegre, eu tinha uns 12, Ian tinha se matado havia 3 anos. Eu era um semiautista escondido no campanário do colégio de freiras lendo Poe e suspirando romanticamente pelas potrancas que jamais teria entre minhas estantes [que diria entre minhas pernas]. Entendi vagamente a letra – me identificava com o frio exalado por aqueles teclados; apesar do gelo, a melodia, toda maior [dó/fá/sol], trazia alguma esperança de pacificação, quase um acalanto.

Mais tarde, descolei os vinis, descolei as péssimas fitas cassete com os shows de JD na Holanda e as gravações de John Peel, descolei um xerox vagabundo de uma edição da Assírio e Alvim [tenebrosas traduções], e então começou o culto. Culto é coisa pra adolescentes carolas que se levam a sério, claro. Mas até hoje me impressiona como ‘Atmosphere’, uma composição tão simples, se casa com uma letra de métrica tão sofisticada, cheia de rimas internas e um léxico incomum.

Lembrei disso vendo Ian se casando com a chatinha namorada da infância. A música vai nos levando para outros lugares e nem nos lembramos mais do ponto inicial. Por causa de ‘Atmosphere’ fui atrás de Smiths, Pistols, Bowie, Iggy, Burroughs, Conrad, Ballard, os expressionistas alemães, Herzog, Kraftwerk, Afrika Bambaataa… e a coisa vai indo até chegar na Nação Zumbi, por exemplo.

Uma das grandes imagens desse contido filme mostra Ian, já mais pra lá do que pra cá, a observar uma espécie de árvore de gambiarras – um poste circundando por gatos, parecendo uma coroa de espinhos. A única espécie de natureza em Manchester, essas árvores desesperadamente elétricas sob céus sujos como um chão de fábrica. O tipo de paisagem habitada por todo adolescente, essa gente – como apontou Morrissey numa entrevista – ‘com propensão a espiar lâmpadas quebradas no teto’

Eis a paisagem dominante no documentário Joy Division, todo costurado por entrevistas com pessoas importantes no círculo manchesteriano – menos a esposa de Curtis, Deborah, cujo livro, Touching from a distance, é a base de Control [embora Corbijn afirme que tenha pesquisado a vida do vocalista junto à amante Annik e aos amigos de Curtis]. Logo de cara, Bernard Summers recorda que só viu a primeira árvore aos 9 anos de idade. O excelente batera Stephen Norris lembra que em um ano um quarteirão de casinhas era substituído por um pavilhão de edifícios futuristas, num permanente ‘câncer de concreto’. Peter Hook, o único punk verdadeiro da banda, quebra o tempo todo a seriedade das entrevistas com anedotas; ao contar que conheceu Summers aos 11, comenta: ‘Imagine conviver tanto tempo com uma pessoa? Nem por assassinato se pega uma pena tão longa’.

Embora tudo o que gire em torno de Curtis pareça melancólico feito uma árvore de concreto, tanto a ficção quanto o doc demonstram que a realidade não era bem assim. No longa, Corbijn mostra como, antes do primeiro show, Curtis não parava de beber cerveja barata e peidar no camarim; no doc, Hook conta como a gravação do álbum Closer – quando a epilepsia e a bipolaridade do vocalista estavam no auge – ‘era uma permanente gargalhada’. O designer Peter Saville ri quando lembra que, após ter aprovado com a banda a imagem para a capa [um velório], Ian realmente morria. Era tudo uma brincadeira de punks filhos de operários tentando espantar o tédio de uma cidade industrial se fazendo passar por arianos raivosos e entediados, ‘50% tristes, 50% bravos’, no dizer de Annik.

[Aliás, no doc nunca se toca naquele famoso mito sobre a gravação de Closer – teriam usado uma igreja abandonada como estúdio, ou o teto tinha uma abóbada cuja acústica remetia à de uma capela… deve ser tudo lenda.]

‘Ninguém percebia como aquelas letras eram absurdamente melancólicas’, se lamentava o grande Tony Wilson, um dos fundadores da Factory: ‘E eu dizia o tempo todo: isso é só arte. Como pude ser tão estúpido?’. E ninguém imaginava que as coisas terminariam como terminaram. [Tento não pensar nessa frase com muita solenidade, lembrando daquele moleque autista de Porto Alegre, 25 anos depois.]

Para este ex-autista, o mérito de ambos os filmes é dissecar uma árvore de concreto e prová-la mais concreto do que árvore. Mostram um grande artista e um homem imaturo, um sujeito perseguido pelo ideal de pureza condenando-se por ser eticamente imperfeito, sensível porém doente [e não só do grande mal da epilepsia, como também de uma incerta covardia moral], intuitivo e racional, generoso mas autoritário. ‘Ian, you’re so depressing!’, reclama uma risonha Annik [vivida pela romena Alexandra Lara].

I’ve got the spirit, but lose the feeling‘, responderia Ian.

Ambos os filmes entram em cartaz em maio. Leve o Joy Division a sério, mas não vá ao filme como quem vai ao cemitério – muito longe dos anos 80, ser triste hoje é coisa de emo.

Autor: rbressane

Writer, journalist, editor

4 pensamentos

  1. Não me lembro da primeira vez que ouvi Joy Division, acho que oa porrada foi tão grande que se fez sumir, mas não consigo mesmo nos dias de hoje passar ileso a qualquer música dos caras.

    Espero anciosamente os filmes na telona, ler teu texto deu um certo tipo de prévia do que virá. Teu texto é muito belo.

  2. To answer your earlier question, I believe that in any workshop group, be it advanced, intermediate or beginning, you get writers with variety of background knowledge, skills, and experience. And some people are great at critiquing, even if they havent written much. Between learning from each other and going to the afternoon workshops (open to all participants), Im confident the conference will be beneficial. And Im thrilled to have you in my class!

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