Karam!

Diz como quem lê haicai: não há inferno ou céu, existe somente beleléu.

Dirigiu-se ontem resoluta e irremediavelmente para o beleléu o nosso amigo Manoel Carlos Karam. Um dos grandes, sim, um dos grandes. Não que desse bola pra isso. Preferia uma Heineken. Das grandes. Que o beleléu lhe seja leve, como suas elegantes sentenças.

Ele marcou o duelo para meio-dia de segunda-feira, não tem cabimento.

Faz uns 3 ou 4 anos, bati à sua porta em Curitiba. Saí de lá seis horas depois, convencido que o casamento era um empreendimento sustentável – e invejável. Desde que à base de koincidências e heinekens. Karam, sua mais que simpática Kátia e cerca de dois ou três engradados de cerveja me honraram com uma noitada excelente, da qual evidentemente só me lembro as lhufas.

Que fim levaram os cães chamados Rex?, pensa, e pensa em perguntar em voz alta.

Um ano depois, nos reencontramos na Mercearia. Numa mesa com o Cardoso e o Galera, discutíamos a respeito da suposta existência do Acre. “Eu não tenho dúvidas de que o Acre é uma ficção!”, ele bradava, os olhos brilhantes, o nariz vermelho, os cabelos esvoaçantes e a perene Kátia ao lado. “Precisamos organizar uma expedição à Amazônia para desvendar essa pouca vergonha e delatar a calúnia aos meios competentes. E aos incompetentes também. Até quando irão nos querer enfiar essa mentira goela abaixo e ouvidos acima?”

Eu quero fazer mágicas com cartas de baralho, eu só quero isso da vida, é pedir demais?

Criava essas ficções assim, do ar, de uma borbulha de cerveja, um fiapo de riso. Sabia achar a anedota contida no suvaquinho da perna do vento. Tirava cócegas do nada, assim como Beckett, com menos sal no chope, porém. São fundamentais Pescoço ladeado de parafusos e Comendo bolacha maria no dia de são nunca [editados pelo Joca na Ciência do Acidente], além de Encrenca [Ateliê] e Sujeito oculto [Barcarolla], seu livro mais recente, de 2004.

O volume da música dentro do automóvel é tão alto que o atropelado dá um passo de dança antes de cair.

“Karam cultiva a dúvida com o fervor desses fiéis que vão ao Maracanã entregar o salário para a seita de sua devoção. E, cá pra nós, sem uma dose de fervor, hoje em dia você não consegue nem pegar um táxi”, dizia Marçal Aquino na orelha de Pescoço. Por certo – as ficções de Karam têm esse enlouquecido amor pela indecisão, pela hesitação; pela escolha, entre a linha reta e o atalho chocho, da múltipla e dionisíaca encruzilhada.

Que coisa mais nojenta, e às cinco da tarde!

Essas aparentemente simples porém geniais frasezinhas estão todas no capítulo “Comendo bolacha maria no dia de são nunca”, do livro homônimo, 1999. Na orelha, o também grande Valêncio Xavier – talvez o último grande de Curitiba, ao lado de Dalton, posto que Snege nos deixou há alguns anos – diz de Karam: “Ele está escrevendo sempre o mesmo livro, só os grandes conseguem isso […]. Só os grandes escrevem coisas assim, e de quebra conseguem apitar o pênalti para que o leitor chute a bunda da pomba”.

[A ave entrou na orelha pois o autor de O mez da grippe havia recém logrado a proeza de desferir um chute bem na bunda de uma pomba; chutou-a porque detesta pombas, e também porque havia acabado de ler o Bolacha maria, livro que lhe dá “a liberdade mental de você pensar e fazer o que tem na cabeça”.]

Solidão é não ter pra quem segurar a escada, diz.

manoel-karam.jpg

Eu contra eu, um dia eu desempato, me passe o pudim.

Autor: rbressane

Writer, journalist, editor

7 pensamentos

  1. Fernando, a Kátia vendeu todo o acervo do Karam para a Fundação Cultural de Curitiba, que irá criar um espaço dedicado a obra dele. De acordo com ela, o MCK deixou tudo organizadinho no computador e num pen drive. O Paulo Sandrini conseguiu verba na FCC para editar alguns inéditos – onde se inclui o Hotel Luar do Sertão. Quem me passou essas infos foi o Joca Terron.
    abraço
    RB

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