El mutante

Bellatin

Dia 17-11, sábado, na Livraria da Vila, às 14h30, participo de uma conversa com o escritor mexico-peruano Mario Bellatin. Me auxilia nas perguntas o gaúcho Marcelo Carneiro da Costa – o papo faz parte da Balada Literária idealizada pelo Marcelino Freire [começa nessa quinta, fique esperto]. Um dos mais inventivos escritores hispânicos de hoje, Bellatin tem um projeto literário bastante sóbrio: desvendar, com precisão, clareza e até alguma mecanicidade, as narrativas do corpo – as histórias do corpo e seu embate com a cultura. Talvez nisso seja o cara mais próximo de JG Ballard a escrever em espanhol. Fascinado por mutantes, ele mesmo é um: nascido sem o antebraço direito, usa uma prótese de metal.

As exceções são regra em sua escrita. Como um poeta cego [Poeta ciego, 1998] que funda uma seita baseada em uma sexualidade mágica; um escritor narigudo [Shiki Nagaoka: una nariz de ficción, 2001] que usa a fotografia como arte narrativa; um farmacêutico que cria monstros, em uma novela dividida em capítulos nomeados por diversas flores [Flores, 2001]; a tocante história de um cabeleireiro gay e transformista que transforma seu salão em uma antesala para a morte de aidéticos [Salón de belleza, 1994], entre outros livros da vasta obra do autor de 47 anos nascido no México, criado no Peru e formado em cinema em Cuba.

Esta última novela será seu primeiro livro lançado em português, em tradução de Maria Alzira Brum. Que aliás me mandou esse excelente texto, em que o escritor apresenta sua Escuela Dinámica de Escritores, que funciona na Cidade do México.

A ARTE DE ENSINAR A ESCREVER *

Mario Bellatin

tradução: Maria Alzira Brum Lemos

Além de fazer meus livros, dirijo uma escola de escritores. Um lugar onde só existe uma proibição: escrever. Ou seja, que os alunos, talvez deva dizer os discípulos de um grande número de professores, não podem levar para esse espaço seus próprios trabalhos de criação. Eles devem, em vez de cotejar seus textos, ter a maior quantidade possível de experiências com criadores em plena produção. Não é possível ensinar a escrever, esta pode ser a premissa de uma escola desse tipo e, precisamente por isso, é imprescindível sua criação e manutenção.

Trata-se de uma escola vazia na qual não existem programas de estudo. De um lugar onde se examinam assuntos, não unicamente relacionados com a literatura mas, especialmente, com os modos de que se servem as outras artes para estruturar suas narrações. É aqui onde acho que este projeto se situa nas fronteiras, onde de algum modo se desfaz aquilo que conhecemos como literatura e se forma um corpo no qual o exercício da escritura assume a categoria de uma prática artística. E como é óbvio, a fronteira se configura com dois espaços que permitem pensar que a prática literária é capaz também de transformar em literatura o âmbito das outras artes. Trata-se talvez de orientar os escritores para que se localizem nos limites do literário para perceber que o exercício da escritura é uma arte entre outras e que está sujeito aos movimentos e regras que se manejam ao considerar a experimentação artística como parte de um todo que não se fragmenta em cada uma das partes particulares.

A escola está dividida em três linhas de trabalho: composição, conteúdos e formas de construção. Na primeira são discutidos assuntos relacionados com a linguagem literária. Experimenta-se com aspectos concretos do exercício de escrever como o ponto de vista, a primeira pessoa, o uso de adjetivos, a utilização de diferentes tipos de modos, técnicas ou formas capazes de fazer com que se produza um tipo de sistema dentro dos textos que se pretende criar.

A segunda linha está relacionada com os conteúdos. É difícil fazer entender que os conteúdos não são importantes em si, mas que, acima deles, está a forma de abordá-los. Implica certa dificuldade que se entenda como numa escola de escritores pode-se falar tanto de Faulkner quanto de Kafka sem que tenha maior importância o que se diga deles, mas onde o fundamental é perceber que elementos, que pontos são os que se abordam na discussão. Nessas sessões, o autor ou o tema é apenas mero pretexto para estabelecer um diálogo literário.

Por outro lado, abordando a terceira linha do trabalho, estou convencido de que as formas de construção narrativas são quase impossíveis de mostrar a partir da própria literatura. Como nela não parece contar-se com uma retórica predeterminada que se tenha que seguir – e se isto existisse e fosse acatado daria como resultado precisamente uma má literatura –, acho importante recorrer às formas de construção de outras artes para, a partir da visão que elas apresentam, contar com uma perspectiva da arte de narrar. Ver que, assim como a escultura, a pintura, a arquitetura a dança ou a fotografia contam com elementos narrativos que, de alguma maneira, estão fora do que se narra em si, na literatura acontece a mesma coisa, embora uma série de idéias estabelecidas digam o contrário, que se deve escrever seguindo uma série de preceitos em que muitas vezes se confunde a forma com o conteúdo.

Na verdade, a escola vem a ser apenas um centro de confluência de uma série de criadores de reconhecida atividade com disciplinas que pretendem dar forma aos seus escritos. Os alunos devem gerar seus textos pessoais num espaço alheio à escola. Devem construir seus próprios lugares de criação onde o aprendido ou, melhor dizendo, o experimentado na escola, possa ser posto em prática. A escola deve servir somente como um tipo de detonador capaz de fazer com que cada um se enfrente, de forma solitária, com seu próprio trabalho. Isso se pratica com a intenção de que a obra resultante só se encontre sob a tutela do próprio criador. Uma obra executada sob estas condições deixará mais evidentes suas particularidades, permitirá a existência de um tipo de escritura própria e será um elemento que ajuda a fazer do literário uma coisa dinâmica.

Precisamente neste ponto, para propiciar o movimento que deve ter toda escritura, deve-se transitar, como apontei, pela fronteira sutil onde se põe em jogo uma série de elementos comuns a todas as artes. É para propiciar este enfrentamento que se deve passar pela experiência de compartilhar muitas horas de trabalho com oitenta dos mais reconhecidos criadores, tanto de literatura quanto de outras artes, que farão com que o discípulo seja partícipe de uma série de universos vedados – um deles, por exemplo, o gabinete de trabalho dos criadores convocados –, ganhando dessa forma um tempo sumamente valioso para descobrir a quantidade de possibilidades que os alunos podem aplicar à sua própria criação.

Não se deve, não se pode ensinar a ser escritor. Embora fosse preciso reconsiderar e perguntar o que é que define um escritor. Pode ter a ver com a consciência que se tenha daquilo que se está escrevendo. Com a possibilidade de ler a si próprio. Com perceber os distintos elementos que conformam seu sistema de escritura. Poder discernir quando se está sendo fiel às regras que emanam do discurso, ou se se está colocando em prática uma série de idéias que têm a ver mais com um “dever ser” do que com a escritura pessoal. Pretende-se por isso que os discípulos adquiram uma consciência, o mais clara e objetiva possível, de quais são suas potencialidades, dos modos particulares que possuem para conformar seus textos.

Outro interesse da escola é servir de nexo entre os alunos e as distintas instâncias literárias. Por esse motivo, entre os professores, além de importantes criadores, encontram-se também editores, críticos literários e funcionários de cultura. Não se pretende chegar ao espaço convencional da oficina literária, nem ao lugar do acadêmico. Em nenhum momento está em jogo o conhecimento tal como se costuma compreender. Trata-se de fugir dos cânones tradicionais do pensamento, da idéia de que existe uma fórmula, uma verdade alcançável, a qual, uma vez que se esteja em posse do segredo, fará possível que uma pessoa possa se dedicar a escrever. Os livros, quanto mais excêntricos, melhor. Enquanto obedeçam de maneira mais clara à sua própria lógica, transformam-se em textos que transcendem a si mesmos.

Eu já disse que a escola não conta com um plano de estudos, este varia de acordo com os professores disponíveis em determinado período. O professor propõe o tema que desenvolverá durante as horas que compartilhará com os alunos. A escola dará as regras do jogo do que se deseja com a criação de cada sessão. Não se buscará necessariamente a formação de escritores no sentido estrito da palavra. A idéia é que a experiência possa se materializar em uma série de disciplinas afins. Na psicanálise, na arte, na publicidade, em qualquer carreira humanista é possível que tomem corpo os resultados de uma experiência deste tipo. Como apontei no início deste texto, nesta escola é proibido escrever. A escritura que se realize nela será unicamente a induzida a buscar certa finalidade, um tipo de simulacro da escritura verdadeira, o que se levará a cabo dentro do espaço paralelo, íntimo, secreto, que os oitenta cursos que a escola oferece ajudarão a criar.

Uma escola deste tipo teve suas origens em diversas experiências, relacionadas basicamente com outras disciplinas, Foi fundamental para sua criação a busca mística presente em determinadas religiões, a prática da psicanálise, assim como as diferentes manifestações de laboratório artístico que se deram dentro do teatro e da dança. O exercício sufi, que tenta buscar o todo dentro dos distintos acidentes, os módulos de experimentação da dança butô, que consegue fazer do resto e do silêncio uma estrutura, Jacques Lacan frente aos seus pacientes, que propiciava que o inconsciente e a linguagem buscassem suas próprias ferramentas para se expressar, os seminários de Jerzy Grotowsky e Tadeusz Kantor, em que a falha ou o suposto erro faz parte da proposta, as reflexões sobre tempo e espaço presentes nos textos de Peter Brok. Andrei Tarkowsky e seu empenho por contar o impossível de ser contado. Joseph Beuys e sua possibilidade de comprimir numa ação centenas de anos de atividade artística, ou as experiências do corpo de Pina Bausch, que ao fundir os gêneros criou uma maneira distinta de olhar, foram pontos de partida desta prática.

Em literatura, mais além dos programas de escritura criativa das universidades norte-americanas, ou das oficinas convencionais, não existe uma prática com estas características. O mais importante deste centro é que torna evidente sua não existência dentro do plano do real. Apesar de ocorrere um número determinado de aulas num local físico que permite encontro entre professores e discípulos, o que os une na verdade é o vazio no qual a arte se sustenta. Para chegar a esse nada necessário no qual se mantém toda estrutura artística, devem passar por uma fronteira cujos limites são imateriais. Passar pela fronteira que sempre esteve ali, presente, mas que muito poucos estão capacitados para perceber.

A partir da participação comunitária e anônima, a escola pode ser vista como uma obra em si mesma. Como um espaço capaz de tornar evidente a cada vez mais estabelecida maneira de fazer arte, em que a obra como costumamos entender tende a se desvanecer para dar lugar a processos mais do que a resultados. O fim da escola Dinâmica de Escritores pode ser a própria escola. Seu funcionamento, sua capacidade para congregar professores e discípulos, seu caráter não individual e sua negação a ver os resultados da propostas em virtude da quantidade de escritores que surjam dela são uma demonstração disso. Trata-se, melhor dizendo, de uma grande instalação, que começou e continua fluindo no tempo e no espaço. As fronteiras, quero crer, ficam abolidas.

*Prólogo do livro El arte de enseñar a escribir. México/Chile, Escuela Dinámica de Escritores/Fondo de Cultura Económica, 2006.

Autor: rbressane

Writer, journalist, editor

5 pensamentos

  1. Muy querido RB, o Marcelino teve a idéia da Balada, mas ele e eu a desenvolvemos e compartilhamos trabalho criativo& intelectual & burocrático & braçal. Outro assunto: Salão de Beleza não se refere à aids, o Mario Bellatin já falou muito sobre isso, que tem que ver com um conceito importante na obra dele. Entendo sua interpretação, claro, mas em Salão não há referência a aids nem a aidéticos, termo que não se usa mais aliás. E não falemos em feminismo nem em politicamente correto, que nenhum de nós merece. Já realismo e referencialidade, apesar de batidos, são bons temas para levar para o Mario Bellatin sábado na Balada. bjs e link, MA,

  2. Realmente, Maria Alzira, o Bellatin não cita a palavra aids em Salão de Beleza. Mas me parece bastante claro que é a isso que se refere na novela [e quero ver qual será sua réplica quando perguntar isso a ele]. Sobre o uso da palavra ‘aidético’, ñ vejo nenhum problema, já que usamos ‘cardíaco’, ‘diabético’ etc para falarmos de pessoas portadoras de males crônicos… Falemos. Beijo, RB

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