O passado não passa

Tinham o tempo ao seu lado. Esse era o segredo. Com os anos, os amigos – todos, partidários e detratores – foram renunciando: continuaram por perto, a amizade não diminuiu, mas desistiram da ambição de possuir algo desse segredo que só Rímini e Sofía pareciam possuir, inclusive a parte ínfima, porém decisiva, que lhes permitiria aniquilar a ordem superior em que viviam, ou então roubá-la e adotá-la para si, e o amor deles, não mais admirado nem invejado nem detestado, mas fixo, eterno como uma pedra que o sol e o vento e a água vão polindo e esculpindo e pondo a brilhar um pouco mais a cada dia, foi atravessando o tempo, fazendo aniversário e saindo de moda, como se a membrana que o amparava fosse também o conservante que o mantinha intacto, separado de tudo, inocente e rançoso ao mesmo tempo, vencido, como essas personagens de filme de ficção científica que, um segundo antes da catástrofe, conseguem ter acesso a um abrigo antiatômico e permanecem anos confinadas, ruminando sozinhaas o privilégio da sobrevivência, e quando por fim saem outra vez à superfície, pensando que o perigo passou e que o mundo voltou ao seu lugar, descobrem que a catástrofe nunca aconteceu, que se não se inteiraram foi graças, precisametne, ao hermetismo e à profundidade do abrigo, e que o mundo, agora, tantos anos depois de terem participado dele pela última vez, está desfigurado, é irreconhecível, é indiferente e os observa com o aturdimento divertido com que, dentro de alguns anos, não muitos, a população infantil do mundo contemplará todas as coisas que hoje são o emblema do presente.

Alan Pauls, O Passado

Autor: rbressane

Writer, journalist, editor

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